Um dos quatro modelos do projeto de abrigo de ônibus de Guto Indio da Costa para a cidade de São Paulo. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/bus-shelters-sao-paulo-city

DESIGN E A CIDADE

A criatividade na valorização do espaço público

Apesar da doce e ingênua ilusão que impera no consciente coletivo de que arquitetura e designer são profissões puramente criativas, a verdade não é bem essa… Claro, a criatividade é importantíssima nessas áreas, mas muitas vezes não é suficiente para fazer as coisas funcionarem…

Entrei na faculdade com essa ilusão — que foi duramente e felizmente quebrada. Duramente, pois foi uma ruptura cultural. Felizmente, porque descobri que o ofício de projetar e criar, tem muito mais pesquisas, referências e estudos, do que criatividade em si. E gosto de leitura… talvez por isso, comecei a tomar gosto por urbanismo — imagino caretas e frases de indignação do leitor, neste momento, pensando: “Urbanismo?! Você é louco de gostar disso?”.

É. Gosto sim. Acho bastante interessante. Admito que o estudo de legislação não é a parte que eu mais goste. E aqui quero abrir um parêntese: urbanismo não se trata de leis. Um arquiteto precisa estudar leis de um município quando projeta um novo edifício ou uma reforma; um designer precisa conhecer normas para seu projeto de interiores (como, por exemplo, normas de acessibilidade) além de, claro, leis… E qualquer projetista precisa saber, minimamente, sobre questões de segurança, durabilidade e aplicabilidade dos materiais e configurações de espaços, ou seja… Normas… E leis. Isso sem falar de projeto de objeto: como cadeiras, mesas, bancos e etc, que precisa ter conhecimento de resistência de materiais, de dimensões mínimas, de ergonomia…

E, acreditem, tudo isso é leitura. Puramente leitura. Leitura técnica… Algumas fórmulas aqui e ali. Mas no geral: leitura.

Urbanismo — que não é saber leis , assim como arquitetura e designer não é criatividade, pelo menos não apenas isso — é o estudo da urbes, da cidade como conhecemos hoje: a relação e dinamismo entre as pessoas; entre pessoas e os fluxos de circulação; entre os fluxos de circulação e os espaços públicos; entre os espaços públicos e as pessoas e os fluxos de circulação e os equipamentos públicos; entre os equipamentos públicos… E por aí vai…

Design, uma palavra estrangeira que não tem uma tradução direta para o português, pode ser entendida como desígnio de, criação de, ou ainda “vontade de alcançar algo através da criação de outro algo” (me empolguei…?). A palavra design é mais um conceito do que significado — do mesmo modo que a palavra urbes… — e por isso mesmo é relacionado a várias coisas: design de interiores, design de produção, web design…

O que lamento é não ter visto na faculdade — tanto no meu curso de arquitetura e urbanismo quanto no curso da minha esposa de designer de interiores — a junção desses dois universos. Designer e urbanismo podem e devem andar juntos.

De que maneira? Ora, de várias maneiras. Várias mesmo. São tantas as formas e métodos em que o designer interfere na cidade (e vice-versa), que acabei dividindo o tema em partes. Aqui, mostrarei algumas intervenções (por falta de uma palavra melhor) que enriquecem o espaço urbano, potencializando o convívio e o uso do espaço público.

Antes de olharmos alguns projetos e interferências, gostaria de esclarecer uma ou duas coisas: os exemplos não tendem a ser atuais, e sim ilustrativos. A maioria dos exemplos (confesso não serem muitos, para não deixar o texto mais longo do que já promete ser) são brasileiros, pois ao falarmos de cidade, devemos levar em conta a cultura que incide na cidade em questão — neste caso, não cabe falar de uma cidade hipotética…

Certo, vamos lá. Começaremos com o emblemático Guto Indio da Costa. Um profissional ímpar, que teve oportunidades de elaborar equipamentos públicos para as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Começaremos por São Paulo, pois ali a relação design e cidade parece ser mais evidente. No exemplo em questão, Guto Indio da Costa demonstra incrível sensibilidade e humildade perante a cidade. Em um trabalho de licitação para 7.500 abrigos na capital paulistana, ele e sua equipe desenvolveram quatro abrigos de ônibus conceitualmente diferentes[1]:

  • Brutalista[2]: em clara homenagem à escola paulista de arquitetura no auge da arquitetura modernista nacional.
Abrigo de ônibus com conceito brutalista (ver foto de capa). Uso do concreto para função estrutural e estética. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/bus-shelters-sao-paulo-city.
  • Caos Estruturado: aqui, a homenagem é para as metrópoles, com seu caos organizado, onde a confusão de veículos, fluxos de circulação, usos do solo e tipologias de edifícios se fundem em uma confusão visual, um “caos generalizado”, mas que, ao mesmo tempo (talvez até mesmo em função deste caos) estabelece um sistema complexo que funciona — cada vez pior, mas ainda funciona[3]…
O conceito de caos estrutural tem a proposta de se “espalhar” por bairros variados. Com uma estrutura que remete aos cruzamentos de vias, reforçando a identidade da urbes. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/bus-shelters-sao-paulo-city.
Nesta imagem fica mais evidente o desenho claro e leve do conceito “caos estrutural”. Com a estrutura se entrelaçando, formando um X, lembrando cruzamentos de vias (principalmente vistas em mapas/GPS) Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/bus-shelters-sao-paulo-city.
  • Hi-Tech: conceito que dialoga com as variadas soluções que a evolução tecnológica nos oferece. A proposta de sua instalação são nas vias onde prevalece a ocupação empresarial (como a Avenida Paulista).
Apesar de todos os quatro conceitos possuírem totens para uso de propagando e informação, o Hi-Tech usa a estrutura dos painéis para estruturar o próprio abrigo. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/bus-shelters-sao-paulo-city.
  • Minimalista: projeto desenvolvido com traços limpos, provocando o menor impacto visual possível, sem, no entanto, se tornar simplório. Conceito proposto para a instalação de abrigos em locais históricos.
Abrigo de ônibus com conceito minimalista na região histórica de São Paulo. Aqui fica claro o cuidado do projeto ao desenvolver um desenho limpo, com poucas informações. O objetivo deste conceito foi com que o cenário histórico que envolve o equipamento público continue sendo o personagem principal. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/bus-shelters-sao-paulo-city.

Ainda analisando o portfólio do Guto Indio da Costa, colocarei dois trabalhos desenvolvidos por ele para a cidade do Rio de Janeiro.

O primeiro surgiu de uma licitação, em 1999, para reformular os quiosques da orla carioca — Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra da Tijuca e Prainha. Os quiosques receberam uma transparência visual que valorizou a paisagem. Com cobertura em estrutura metálica, painéis de vidro e forma circular, o projeto parece sempre ter feito parte do cenário.

Quiosques na orla das praias do Rio de Janeiro. Estrutura metálica e uso intenso do vidro, permitindo um alcance visual que vai além do projeto, tornando a vista da paisagem natural (as praias) permeável através dos quiosques. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/orla-rio.

Além dos quiosques, fez parte do projeto todo um trabalho de acessibilidade e informação, juntamente com estruturas de suporte: como banheiros e duchas.

Acesso público aos sanitários. O conceito de leveza e de permeabilidade visual se mantém também nos projetos de comunicação visual, de fluxos de acessos e de equipamentos públicos complementares (banheiros e duchas). Nota-se a preocupação da acessibilidade, com a instalação de elevador para pessoas com dificuldade de locomoção. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/orla-rio.

Anos depois a equipe participou de outra licitação para projetar alguns equipamentos públicos pensando nas Olimpíadas de 2016. A linguagem adotada foi similar, de modo a manter (e reforçar) a identidade visual da cidade. O bicicletário tornou-se símbolo desse trabalho.

Bicicletário para a o Rio de Janeiro. Conceito minimalista e materiais resistentes e leves, de modo a permitir que a paisagem natural continue sendo o principal visual. Fonte: http://www.indiodacosta.com/projetos/bicicletario.

Voltando para São Paulo, no Largo da Batata, encontrei um proposta interessantíssima. Através de um concurso de mobiliário urbano, o Instituto A Cidade Precisa de Você, pretende tornar a praça fria e árida de concreto em local de permanência e vitalidade. Três projetos foram selecionados e colocados em prática em dezembro de 2015. Neste espaço falarei de dois — o terceiro se encaixa mais em outra abordagem da série “Design e a Cidade”.

São projetos com intenções bem diferentes. O Projeto Trançado[4], do escritório Quasares, tem a intensão de prover espaço sombreado na praça, aludindo às sombras projetadas pelas folhas de uma árvore. Através de uma ideia simples, criou-se um projeto de expressão estética potente. Seis pórticos metálicos sustentam uma trama de cordas que sombreia e convida as pessoas a descansar e conversar.

Estrutura proposta pela equipe de Quasares. Nota-se a assimetria dos pórticos, “torcendo” a composição e enriquecendo o efeito da projeção das sombras pelas cordas. Fonte: http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/vencedor-de-concurso-projeto-de-ere-lab-no-largo-da-367815-1.aspx.

A proposta do estúdio Erê Lab é fragmentada em cinco pequenos equipamentos. O projeto é mais lúdico e interativo, depositando nas crianças a fé da revitalização do espaço público. Essa intervenção deu ao Largo da Batata cinco estruturas para os pequenos se divertirem, que são: a ilha, o bosque, pedras chatas, montanha e traves[5]. Cada equipamento significa desafios e brincadeiras diferentes, de modo que o conjunto confere uma atmosfera dinâmica, divertida e viva.

Implantação e instalação dos equipamentos. Fonte: https://www.facebook.com/erelabbrinquedos.
Equipamento chamado Montanha, que funciona para exercícios de escalada e também como escorregador. Fonte: https://www.facebook.com/erelabbrinquedos.
Equipamento chamado Traves, para exercícios de equilíbrio. Fonte: https://www.facebook.com/erelabbrinquedos.

O poder de transformação de simples peças, objetos ou pequenos equipamentos é enorme, e possui inúmeras facetas. Ou seja, não há uma fórmula mágica ou um método que garante a recuperação ou valorização do espaço público. Devemos ficar atentos às oportunidades que podem aparecer e as particularidades de cada ambiente.

Também não se pode acreditar que essas intervenções virão sempre dos governos — como os exemplos acima parecem crer. Isso é pura ilusão. Nos próximos artigos irei mostrar como a arquitetura, o design e a arte, de maneira geral, podem transformar espaços públicos (ou semi-públicos) e que a maioria dessas iniciativas de transformação vem de todas as direções, menos do poder público — ONGs, empresas privadas, associações, estudantes e moradores.

Notas

[1] A categoria Brutalismo recebeu, esse ano, o prêmio iF Design Award na categoria Public Design, um dos maiores prêmios de Design no mundo. A categoria Caos Estruturado teve a mesma premiação em 2015.

[2] O termo brutalismo refere-se à metodologia e apelo estético usado por muitos arquitetos que ganhou força em São Paulo. Esta linguagem arquitetônica abraçava — e realçava — as características estruturais do edifício, onde o concreto era o ponto de destaque.

[3] Sobre este caos urbano podemos tratar mais pra frente… É um tema espinhoso, e iremos recorrer há alguns críticos e estudiosos da arquitetura e da cidade (Koolhaas, talvez?).

[4] Para mais imagens, visitem a página dos caras no Facebook, https://www.facebook.com/quasaresarquitetos,o trabalho é realmente incrível.

[5] O estúdio é focado em equipamentos para as crianças, apostando na nova geração. Para saber mais deste projeto e outros trabalhos desenvolvidos por eles, acesse: http://erelab.com.br

Fontes

http://www.indiodacosta.com/projetos/bus-shelters-sao-paulo-city

http://www.indiodacosta.com/projetos/bicicletario

http://www.indiodacosta.com/projetos/orla-rio

http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/vencedor-de-concurso-projeto-de-ere-lab-no-largo-da-367815-1.aspx

https://www.facebook.com/quasaresarquitetos

http://erelab.com.br

https://www.facebook.com/erelabbrinquedos

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