Localização do Parque Bicentenário da Infância, aos pés da cordilheira dos Andes. Fonte: http://www.elementalchile.cl/en/projects/parque-bicentenario-de-la-infancia/

DESIGN E A CIDADE

Modelos internacionais na valorização do espaço público

Semana passada fui buscar meu diploma de pós-graduação na Universidade Mackenzie, em São Paulo (dívida pessoal que precisava pagar, pois fazia mais de 2 anos que tinha finalizado o curso…). Eis que me deparo com bancos elegantes e simples de madeira ocupando vagas de carro, bem em frente ao campus da universidade (Campus da Rua Consolação, para situar quem conhece um pouco São Paulo), então lembrei: “Olha aí, a famosa ocupação urbana! Que bom que, ultimamente, São Paulo está pipocando com isso…”

Daí lembrei-me do artigo que fiz…

E lembrei que há muito o que dizer (e aprender) sobre o tema.[1]

E tudo isso reforça o casamento perfeito que há entre design e cidade[2]. Portanto, continuando a reflexão sobre a relação entre design e urbanismo — para ler a primeira parte, clique aqui –, manterei uma abordagem semelhante, mas agora usando como referências alguns projetos pelo mundo afora.

E vou começar com um projeto que me cativou imensamente. Trata-se de um parque infantil localizado em Santiago, no Chile. Este projeto é o resultado de uma somatória de forças.

Contido no Parque Metropolitano — e ocupando 3,5 ha[3] deste — trata-se de iniciativa do governo chileno[4] e projeto do pessoal do Elemental[5].

Vista do Parque Bicentenário da Infância. Fonte: http://www.elementalchile.cl/en/projects/parque-bicentenario-de-la-infancia/
Escorregadores — equipamento lúdico — que também adquiri função de conectar pontos distintos dentro do parque, como um instrumento de locomoção e mobilidade. Fonte: http://www.elementalchile.cl/en/projects/parque-bicentenario-de-la-infancia/
Equipamento lúdico, com princípio de designer simples: uso de estrutura metálica e madeira. A diferença está nas formas sinuosas e elaboradas, dando uma elegância e potencializando o caráter lúdico do brinquedo. Provável que a inspiração para tanto tenha sido tirada da própria cadeia de montanhas que flanqueia o parque. Fonte: http://www.elementalchile.cl/en/projects/parque-bicentenario-de-la-infancia/

Um dos pontos mais interessante dessa intervenção foi a solução adotada pelo grupo Elemental, para tornar o acesso e o percurso no parque mais orgânico e natural. E os escorregadores são um dos principais elementos para isso.

Para os moradores e visitantes que estão mais próximos do acesso no topo da ladeira onde se localiza o parque, os escorregadores — complementados de escadarias — fazem a ligação do ponto mais alto ao ponto mais baixo do parque, permitindo um trajeto mais lúdico e inusitado. Os equipamentos, em sua maioria, são todos voltados às crianças, priorizando a durabilidade e a variação de formas e materiais nas brincadeiras dos pequenos.

Mas, sem dúvida, a principal virtude dessa intervenção é costurar e unir áreas, pontos e bairros, antigamente isolados pela geografia da cordilheira, criando uma unidade e uma conexão urbana extremamente saudável.

Outra intervenção bem interessante é o ponto de ônibus instalado em Baltimore, nos EUA. Um projeto bem mais modesto, sem dúvida, mas com o mesmo apelo lúdico e com a mesma intenção em chamar atenção para a mobilidade urbana.

Ponto de ônibus em Baltimore, EUA. Idealizado e implantando pelo coletivo espanhol mmmm…. Fonte: http://www.archdaily.com.br/br/627551/intervencao-urbana-bus-stop-uma-escultura-que-serve-como-ponto-de-onibus
O projeto foi elaborado com estrutura de aço e revestimento em ripas de madeira (materiais resistentes às variações do clima) Fonte: http://www.archdaily.com.br/br/627551/intervencao-urbana-bus-stop-uma-escultura-que-serve-como-ponto-de-onibus

A responsabilidade por essa intervenção é do coletivo espanhol chamado mmmm… (é esse mesmo o nome). Um projeto simples, barato e de forte impacto — impacto esse mais funcional do que visual. A intervenção é claramente aceita como uma obra de arte urbana onde os usuários do ponto de ônibus integram o quadro (é perfeitamente possível aguardar o ônibus deitado, como mostra o rapaz na imagem acima, quase como se estivesse numa rede).

Por fim, para não me alongar mais, vou deixar aqui mais um exemplo — quem se interessar pelo assunto, aguardem, mais intervenções serão mostradas, a série ainda possui mais alguns capítulos…

Olharemos um projeto realizado pelo poder privado. O escritório Interboro Partners foi contratado para elaborar um projeto de ocupação em um terreno vago. Os responsáveis pelo empreendimento testaram algo diferente: enquanto o projeto do empreendimento estava em desenvolvimento e aguardando aprovação na prefeitura, em vez de deixar um terreno vazio no meio da cidade, optou-se por dar um uso temporário ao espaço — uso controlado, claro.

Com a ajuda do Conselho Cultural de Nova York — tradução livre, o nome original é Cultural Council New York — o escritório teve sucesso na empreitada. Começando com uma das principais exigências do cliente (que era criar uma cerca de uns 2 metros de altura para restringir e controlar o acesso ao interior do terreno) o escritório cercou o terreno com inúmeras peças iguais. De um lado, esses módulos serviram bem para exposição de painéis artísticos, e do outro, o design das peças considerou bancos para apreciar o interior da quadra e as possíveis exposições espalhadas nos outros módulos.

Quanto ao interior da praça, havia sim o que contemplar: inúmeros viveiros com árvores que criavam sombra, ritmo e diversidade ao cenário. Um fato interessante é que essas árvores, quando do início da construção no terreno, foram relocadas e fixadas nas ruas próximas.

Implantação da intervenção temporária no terreno privado, em meio ao distrito de Manhattan. Fonte: http://www.archdaily.com.br/br/01-48920/em-detalhe-mobiliario-urbano-do-projeto-lentspace-interboro
Materiais e conceito simples, apostando no poder do paisagismo e na força da arte urbana. Fonte: http://www.interboropartners.com/projects/lentspace
A disposição dos módulos de paisagismo permite uma variação de exposição artística e de pontos de contemplação. Fonte: http://www.interboropartners.com/projects/lentspace
Os módulos que cercam o terreno giram em volta de um eixo, permitindo diferentes configurações e fazendo do elemento de divisão um elemento também de integração e acesso. Fonte: http://www.interboropartners.com/projects/lentspace

Ao usar exemplos internacionais de intervenção urbana, também quis chamar a atenção para o fato de que todos (todos os personagens que compõem a Cidade)são responsáveis por cuidar, transformar e melhorar a cidade em que vivemos. Aqui vimos exemplos de projetos que tiveram iniciativa do governo — Parque Bicentenário da Infância, no Chile, e o ponto de ônibus, em Baltimore, EUA — e também do poder privado, claro que com um “empurrãozinho” de instituição pública, em Manhattan (sem falar que a qualidade da intervenção se deve muito a insistência e sensibilidade do pessoal do Inteboro Partner).

Tentarei discursar mais sobre esse tema (intervenção urbana) nos próximos artigos, espero que aqueles que ficaram curiosos, pesquisem mais casos, como a famosa transformação do High Line, em Nova York (deixei de fora aqui, não por acaso… Ele merece um espaço próprio, onde tentarei flertar este tema com o Minhocão, de São Paulo).

Notas

[1] Minha Monografia foi focada no estudo das pequenas intervenções públicas.

[2] Cidade aqui, considerando todas as interpretações possíveis — cidade histórica, cidade contemporânea, cidade metropolitana, ou cosmopolita (como no caso de Nova York, por exemplo), e até mesmo as pequenas cidades, como vilarejos, vilas, aldeias e cidades rurais.

[3] A intervenção ocupa uma fração pequena do Parque Metropolitano, com os seus 775 ha, por se tratar de uma extensa área de proteção ambiental (a maior parte do parque se estende por colinas e trechos das Cordilheiras dos Andes).

[4] A presidente Michelle Bachelet iniciou a política pública de renovação do parque, e o presidente Sebastián Piñera o inaugurou, em 2012.

[5] Coletivo de arquitetura e urbanismo. Seus trabalhos e projetos estão fortemente ligados a conceitos como: renovação urbana, valorização da cultura local, políticas públicas, combate ao déficit habitacional, entre outros conceitos sociais. Para saber mais, acesse: http://www.elementalchile.cl/en/.

Fontes

http://www.elementalchile.cl/en/projects/parque-bicentenario-de-la-infancia/

http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/229/no-parque-da-infancia-em-santiago-chile-arquitetos-do-elemental-280816-1.aspx

http://www.mmmm.tv/enbusstop.html

http://www.archdaily.com.br/br/627551/intervencao-urbana-bus-stop-uma-escultura-que-serve-como-ponto-de-onibus

http://www.interboropartners.com/projects/lentspace

http://www.archdaily.com.br/br/01-48920/em-detalhe-mobiliario-urbano-do-projeto-lentspace-interboro

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