O cinismo da direita anti-vegana

Eu me esforço para acreditar que inteligência e honestidade são coisas sem qualquer relação mas a (falta de) qualidade dos argumentos dos que combatem toda e qualquer causa emancipatória está me convencendo do contrário.

O artigo do Bene Barbosa no ILISP é um bom exemplo dessa imbecilidade argumentativa. Vou responder brevemente as piores cagadas cometidas por ele , comuns na direita, e deixo para criticar as próprias da esquerda em outro momento.

O texto é uma salada que compensa a falta de nexo com excesso de falácias mas vou tentar sintetizar os principais argumentos e respondo na sequência.

Para justificar o ataque à esquerda ( que não vou responder porque não interessa aqui) ele associa o vegetarianismo/veganismo à esquerda, compara os veganos com Hitler e Stalin , diz que criaremos leis “autoritárias” escolhendo o que todos vamos comer, distorce a fala do professor Marco Springmann, da Universidade de Oxford e para isso supõe que já não haja influência institucional do que vamos ou não comer.

Desmembrando tudo, a lista dos erros dele ficou assim:

  1. O vegetarianismo é uma pauta de esquerda.
  2. Vegetarianos e veganos são comparáveis a Hitler e Stalin.
  3. Hitler era vegetariano.
  4. Os veganos defendem um controle autoritário sobre a alimentação.
  5. O professor Marco Springmann defende um controle autoritário sobre a alimentação.
  6. Não há no momento leis que influenciem a alimentação.
  7. Leis restritivas são controles autoritários que determinam o que você efetivamente vai comer.

Sigo com as respostas.

O veganismo é uma pauta de esquerda.

Esse é o principal argumento apresentado no artigo e o mais fácil de derrubar. O veganismo pretende-se universal, ou seja, é uma proposta de alteração da moral vigente. Assim como a escravidão humana já foi aceita e incentivada e passou a ser rejeitada moral e legalmente o veganismo opera nessa lógica de valores estruturais. Assim como a escravidão humana foi combatida por alguns notáveis conservadores ( Abraham Lincoln, Rui Barbosa, Luiz Gama) o mesmo acontece com o veganismo.

A teoria dos Direitos Animais de Gary Francione, por exemplo, é bastante pacifista, contrária à revolução e segue uma lógica de mudança prudente pelas instituições, própria dos conservadores. Ele é o principal expoente dos Direitos Animais. Outros pensadores que influenciaram o veganismo, embora não sejam veganos como Jeremy Bentham eram aristocratas que defendiam mudanças por uma perspectiva reformista, não revolucionária.

Essas posturas são completamente compatíveis com os princípios do conservadorismo defendidos por Russel Kirk como o princípio da prudência e o da coexistência entre a permanência e a mudança.

Além dos conservadores há liberais que defendem os Direitos Animais. Tais liberais entendem que o PNA ( Pacto de Não Agressão), princípio moral norteador dos liberais, aplica-se perfeitamente aos animais.

A Laura Lira por exemplo publicou um artigo sobre libertação animal e livre mercado no Mercado Popular e várias comunidades veganas são majoritariamente liberais ( como o Trolls Veganos do Facebook). O Fabrette no site Liberalismo a Partir do Nada também fez dois ótimos artigos sobre os direitos animais em uma perspectiva liberal ( parte1, parte2).

Sequer a esquerda tradicional aceita o veganismo , preferindo atacá-lo com falácias como uma elitização que em tese deslegitimaria a luta , a ideia de que os pobres seriam oprimidos com a difusão do veganismo , quando em verdade acontece o contrário e por fim que a culpa da exploração seria o capitalismo.

A minha posição política aqui é irrelevante para comprovar o fato de que esse argumento que associa veganismo à esquerda é falso. O artigo do ILISP já pode ser jogado na lata do lixo só com isso, dado que as acusações ao veganismo são apenas instrumentais a um Argumentum ad Terrorem.

Veganos são comparáveis a Stalin e Hitler

A Lei de Godwin não falha. Se alguém quer deslegitimar qualquer causa basta compará-la ao nazismo. Ela em si só não invalida um argumento, como vou mostrar em seguida, mas nesse caso foi uma demonstração clara de pobreza argumentativa.

A comparação entre o veganismo e o nazismo/stalinismo é uma falácia do tipo da culpa por associação que funciona assim: não se critica algo pelo que esse algo é mas sim porque alguém que não gostamos tinha acidentalmente essa característica. Não existe relação de causa e efeito entre o nazismo e o veganismo, é o contrário.

Veganos efetivamente combatem qualquer atitude que cause sofrimento em quem é capaz de sentir e que tenha emoções. De todo aquele que possui a chamada senciência. Nazistas fuzilavam pessoas. Stalinistas fuzilavam pessoas. O veganismo é a radical posição que defende que você não pode fuzilar, degolar ou escravizar ninguém.

A comparação com o Nazismo é sempre inválida? Não. Em alguns casos é plenamente aceitável. Fascismo e Nazismo são comparáveis entre si, bem como outros governos totalitários e nem por isso deixa de ser uma comparação válida. O que temos aqui é a tal relação de causa e efeito, o nexo de causalidade. O elemento essencial no nazismo ( as mortes em massa causadas por ideologia) está presente nessas comparações.

De forma análoga é plenamente válida a comparação que o veganismo faz entre o Holocausto e a nossa relação com os animais. De fato, nós humanos sentimo-nos superiores aos animais e causamos uma matança em massa. Todo matadouro se parece muito com um campo de concentração.

Semelhanças: inocentes capazes de sentir são tratados como objetos e mortos aos montes

Se fosse pra chamar os veganos ou os anti-veganos de nazistas, quem você chamaria?

Hitler era vegetariano

A pior forma de comparação com Hitler é o Reductio ad Hitlerium , a ideia de que algo é ruim simplesmente porque Hitler fazia isso. Essa alegação no texto é tão bizarra que até o próprio exemplo comum de ad Hitlerium é a comparação com o vegetarianismo. A falácia tem a seguinte estrutura:

Hitler era vegetariano. Logo, vegetarianismo é ruim.

Provado que o argumento é logicamente inválido podemos examiná-lo materialmente. Afinal, Hitler era vegetariano? Não. Sabemos que isso não tem qualquer relevância, mas além disso é mentira. Hitler adorava fígado, caça e pombo recheado. A explicação para isso com as fontes está aqui.

Os veganos defendem um controle autoritário sobre a alimentação

Nada é mais falso que isso. Isso já gerou bastante debate mas a posição majoritária é que a mudança deve partir da educação e da aceitação social. Prova disso é que muitos veganos se opõem a leis que restringem sacrifícios de animais em cultos religiosos por entender que não é assim que resolveremos a escravidão animal. As leis normalmente aparecem depois, como foi o caso da proibição à carne de cavalos na Califórnia.

Como descreve o professor Alvin Roth, liberal, Nobel de Economia em 2012 e professor de teoria dos jogos e design de mercados da Universidade de Harvard, o conceito de repugnância é uma força limitadora do mercado . Avaliando a repugnância à carne o pesquisador concluiu que o veganismo será predominante em um futuro próximo. A carne de cavalo, na Califórnia, tornou-se repugnante anos antes da promulgação da lei.

No caso da escravidão humana as leis tiveram papel estrutural importante mas seriam completamente inócuas caso não existisse aceitação social ao combate à escravidão. De fato, as primeiras leis do gênero ( por volta de 1830) eram claramente ignoradas. Com o tempo a aceitação social à abolição ( nos termos de Roth, repugnância à escravidão) cresceu e as novas leis tinham mais eficácia.

O professor Marco Springmann defende um controle autoritário sobre a alimentação

A incompetência argumentativa faz um canguru-perneta com a falta de honestidade intelectual e o resultado é o argumento que o professor defenderia uma espécie de ditadura alimentar. Do trecho que o autor cita da Veja:

De acordo com o líder da pesquisa, Marco Springmann, da Universidade de Oxford, ‘os novos dados podem ajudar na criação de políticas públicas(grifo do sujeito) que levem em consideração os benefícios da dieta vegetariana ou vegana. (…) Os benefícios projetados devem incentivar os pesquisadores e políticos a melhorarem os padrões de consumo da sociedade’, disse o líder da equipe no estudo

Ele conclui:

Entenderam? Sim, isso mesmo! O pesquisador (um radical defensor da tese que o aquecimento global é culpa da produção de carne e derivados) acha que políticos devem aprovar leis e políticas públicas para definir o que devemos ou não comer.

Não fode, Bene. Desde quando política pública coincide com escolher o que você vai comer? O pesquisador fundamentou o incentivo à dieta vegetariana nos benefícios (em saúde pública) causados pela mesma. Em primeiro lugar isso é coerente com o princípio da eficiência e o princípio da economicidade da administração pública bem como o direito fundamental à saúde. É uma mera política de incentivos baseado no fato de que a dieta vegetariana traz benefícios à saúde e portanto reduz gastos públicos em saúde. Independente da discussão sobre o tamanho do Estado, que é outra questão, havendo estado que recolhe impostos que ele empregue os recursos com eficiência. É disso que se trata o argumento do professor . É um argumento sobre a dieta vegetariana e não sobre veganismo.

Não há no momento leis que influenciem a alimentação

A acusação de autoritarismo dirigida ao professor Marco Springmann , além das falhas já mostradas, pressupõe que a própria pecuária não tenha incentivos ou políticas públicas que a beneficiem e isso é mentira.

A Constituição Federal de 1988 em incentiva a pecuária nos Arts 22 e 187.

Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:
VIII — fomentar a produção agropecuária e organizar o abastecimento alimentar;
Art. 187. A política agrícola será planejada e executada na forma da lei, com a participação efetiva do setor de produção, envolvendo produtores e trabalhadores rurais, bem como dos setores de comercialização, de armazenamento e de transportes(…):
§ 1º Incluem-se no planejamento agrícola as atividades agro-industriais, agropecuárias, pesqueiras e florestais

De fato, essa proteção constitucional à pecuária se traduz efetivamente em leis de incentivo, como a Lei 13.158/2015 ,a Lei de Incentivos à Pecuária, e a Lei 12.805/2013, a Lei de integração Lavoura-Pecuária-Floresta.

Já não bastasse essas leis o BNDS tem linhas de financiamento pornográficos à pecuária, com taxas de juros de 3,5% AO ANO. Eu comecei a googlar os incentivos à pecuária e desisti de tristeza, porque são muitos.

Não cabe, então, o argumento de que uma política de incentivo ao vegetarianismo seria autoritária: de fato, o que há é efetivo incentivo ao não-vegetarianismo, na forma da lei , com dinheiro público.

Leis restritivas são controles autoritários que determinam o que você efetivamente vai comer

Esse argumento já foi parcialmente respondido nas duas respostas anteriores. De fato, o professor não disse que deve existir uma lei que determine o que você deve comer ao mesmo tempo que já há leis de incentivo à pecuária.

O que quero sustentar aqui é que leis restritivas são completamente coerentes com a democracia e com a liberdade desde que o processo para sua promulgação não seja em si autoritário.

Em primeiro lugar: há leis que restringem comportamentos. Você não pode por exemplo comprar carne de pessoas e comer, certo? Ninguém diria que isso é uma restrição insuportável à sua liberdade. De fato, ao impedir que as pessoas possam comer a carne das outras a liberdade total do sistema aumenta já que comer a carne de um ser sensível e que tem vontade pressupõe tirar a liberdade dele.

Em algum momento da história já foi possível comprar o corpo de pessoas. As pessoas eram passíveis do direito de propriedade e em alguns povos eram comidas, como a sopa de feto na China. Esse direito de propriedade sobre um ser autônomo que tem vontade, sensações, interesses e sentimentos tem um nome: escravidão. A abolição da escravidão, bem como a proibição ao canibalismo trouxeram avanços em vez de “reprimir a liberdade”.

A discussão do veganismo é que os animais, por serem sencientes, são merecedores de direitos. É nisso que devemos pautar o debate. Vou além: os animais não são só sencientes mas também conscientes, pelo menos os vertebrados e alguns invertebrados. Quem diz não são ativistas e sim neurocientistas, no Francis Crick Memorial Conference em 2012 quando da Declaração de Clambridge sobre Consciência em Animais Não Humanos. E olha que isso não tem nada de esquerda ou direita, é ciência. A própria Veja publicou sobre isso.

Se você concorda que restringir a venda de carne humana é justo , não é um atentado à liberdade, se você concorda que é justo impor a abolição à escravidão, vai ter que concordar que o problema não é existir leis que proíbam comportamentos e sim quais os critérios usados para isso e quais os métodos empregados para a promulgação dessas leis.

A discussão sobre o critério eu deixo em aberto já que o objetivo desse artigo é apenas situar o debate e não fazer uma defesa direta do veganismo, que farei em outra oportunidade.

O que combati aqui é a desonestidade dos argumentos apresentados pelo Bene Barbosa. Espero que daqui pra frente os críticos tenham a decência de ligar a honestidade antes de falar bosta sobre o veganismo.