Parem de chorar, anti-veganos. Viemos para ficar.
Toda verdade passa por três estágios.
No primeiro, ela é ridicularizada.
No segundo, é rejeitada com violência.
No terceiro, é aceita como evidente por si própria — Arthur Schopenhauer
Vendo a quantidade de textos choramingando contra o veganismo ultimamente fica bastante claro que estamos incomodando. Caso trouxessem críticas construtivas ou argumentos, vá lá, isso é positivo para o amadurecimento de qualquer movimento emancipatório.
O problema é que “argumento” é um conceito alienígena aos anti-veganos e tentar dialogar com um sujeito desses é um exercício de paciência. Sei lá, deve ter um comprometimento das funções cognitivas pelo entupimento dos vasos sanguíneos por colesterol do excesso de bacon. Não consigo achar outra explicação para isso.
Não tem um fodendo argumento decente, unzinho sequer. Como mostrei nos dois artigos anteriores essa reação ao veganismo é só uma mistura de demonização e falhas graves de caráter com incapacidade completa em coordenar sinapses.
No primeiro texto critiquei os ataques daquele arquétipo do tiozão que baba lava em resposta ao artigo do Bene Barbosa do ILISP. Nele prometi que faria um texto criticando as besteiras que a esquerda fala para justificar o anti-veganismo mas precisei fazer um outro, em resposta ao Gabriel Mota, rebatendo os ataques daquele perfil do agressor indiferente que se faz de inocente.
Eu ainda estou em dívida com os leitores sobre as críticas à esquerda , sei disso. É que a direita anti-vegana parece ser uma fonte inesgotável de retardamento argumentativo e por isso as críticas à esquerda vão ter que esperar.
Dado o talento dos anti-veganos para criar justificativas completamente imbecis e sem sentido (o Veganagente fez uma lista das falácias mais comuns) resolvi lançar o Prêmio de Imbecilidade Argumentativa Contra o Veganismo.
Para participar é simples: basta você escrever publicamente um texto criticando o veganismo durante esse ano. Não precisa tentar parecer um idiota, isso emana naturalmente do que vocês acreditam que seja uma crítica consistente. Apontaremos as falácias mais ridículas e em janeiro de 2017 apresentaremos os vencedores de 2016. Apenas o primeiro lugar de cada categoria receberá o prêmio que pode ser um livro introdutório de lógica ( Organon do Aristóteles ou Introdução à Lógica do Mortari) ou um abraço pra livrar esse coraçãozinho do ódio insuperado por não ter recebido o presente que queria no aniversário de nove anos.
As categorias são: tiozão que baba lava, agressor indiferente que se faz de inocente, pedante do textão sem sentido cheio de referências nada a ver, pensador de boteco que acha que opinião é argumento, teórico da conspiração ( esoteristas em geral e astrólogos também são aceitos), pseudo-cientista e colunista da Veja. Para a última categoria de falaciosos, os colunistas da Veja, aceitaremos também ex colunistas que tenham sido demitidos e que botaram a culpa no PT. Se o sujeito disser merda na Carta Capital entra nesse mesmo balaio.
A bola da vez é o texto do Rodrigo Constantino. Aquele amontoado de palavras é tão patético que sinceramente eu senti preguiça de responder. Em todo caso respondo: as falácias que ele incorre, por mais estúpidas que sejam, influenciam no posicionamento de algumas pessoas sobre os direitos animais.
O texto é uma defesa ao chef Henrique Fogaça, que aparece do nada com uma foto de um cadáver de porco pendurado que gerou críticas dos internautas veganos e não veganos. Em vez de levantar uma discussão realmente construtiva sobre o tema Rodrigo preferiu fazer uma série de ataques contra a pessoa e demonização.
Em suma é uma sequência de Apelos à Natureza e uma demonstração pública de desconhecimento em biologia. Parece que o sujeito faltou duas aulas para cada uma que ele foi . Pra quem não entende porra nenhuma pode soar genial dizer que caninos são prova cabal de carnivorismo e a obrigatoriedade de te tornar um caçador mas para quem teve um desempenho razoável no ensino médio isso é só bullshit mesmo. Resumindo, o que ele diz é o seguinte:
- Veganismo é frescura. Devemos comer carne porque Vikings
- Os bichos se matam na natureza e por isso devemos comer carne
- A proteína dos animais é nutritiva logo devemos comê-los
- Caninos afiados e olhos para frente são provas de que devemos comer carne
- Devemos comer carne porque ela contribuiu com a sobrevivência da espécie
- Carne é escolha individual
- Veganos são sensíveis incapazes de derrotar o islã
- Devemos comer carne porque na natureza é pior
Vamos às respostas.
Veganismo é frescura. Devemos comer carne porque Vikings
Eu não entendo qual é a dessa fixação que certos homens têm em querer parecer viris. Ficar reduzindo uma discussão essencialmente moral e ética a“frescura” e invocando símbolos de bárbaros só revela um nível bem quinta série de maturidade argumentativa e uma masculinidade escancaradamente frágil.
O livro A Política Sexual da Carne de Carol J. Adams explica bem essa relação entre o machismo e o carnivorismo. Machismos à parte é até engraçado essa multidão de playboys criados em apartamento, usuários de eletrônicos e que compram carne embalada invocando guerreiros vikings que lutavam até a morte usando machados.


Ao pintar veganos como frescurentos Rodrigo incorre aqui tanto no Apelo ao Ridículo, que consiste em dizer que um argumento é inválido pela mera ridicularização sem mostrar uma contradição , quando se dirige ao veganismo como ideia, quanto ao Apelo ao Preconceito, que consiste em querer invalidar os argumentos de alguém invocando o preconceito do público, quando se dirige aos veganos. Note que não quero convencer ninguém a ser vegano com base no fato dos anti-veganos serem piadas ambulantes. Quero que a discussão aconteça com base em argumentos e é o foco dos meus textos. Não sou eu que alopro o sujeito, ele é quem implora para ser zuado.
Bichos se matam na natureza e por isso devemos comer carne
Aqui Rodrigo incorre no Apelo à Natureza que consiste em fazer uma confusão do cacete entre os planos da natureza e da moral. Começa a justificar que uma atitude seja certa porque é natural. A moral opera justamente sobre comportamentos naturais que são reprováveis como infanticídio, assassinato, estupro e violências em geral.
O Pirula fez um vídeo sobre isso e usa justamente esse argumento que o Rodrigo usou como exemplo de Apelo à Natureza.
Note que é falso equiparar um leão, que morre caso se alimente exclusivamente de vegetais, com um ser humano que vive na cidade e tem plena disponibilidade de grãos podendo perfeitamente viver sem nada de origem animal. Rodrigo incorre aqui na falácia da Falsa Analogia já que o fato de um morrer e outro não com falta de carne diferencia a culpa daquele que tem escolha daquele que não tem.
A proteína dos animais é nutritiva logo devemos comê-los
Rodrigo afirma que a proteína dos animais é nutritiva e por isso devemos comer animais. Por esse argumento, então, deveríamos comer pessoas também já que a carne humana também é nutritiva.
O absurdo aqui serve para ilustrar que da mera possibilidade de nutrição não exclui a consideração moral sobre a ação e portanto o direito de comer quem é nutritivo. A discussão deve acontecer sobre a moralidade ou imoralidade de se comer aquele ser e não a mera possibilidade física.
Outro problema é que ele assume que as fontes vegetais são insuficientes para oferecer proteínas. Bom, se isso fosse verdade então eu estou morto e esse texto é psicografado. Tele-psicografado, pelo visto tem internet no inferno.
A verdade é que vários vegetais são ricos em proteínas, entre eles o grupo dos feijões como soja, feijão, ervilha, lentilha e grão de bico, os cereais como aveia, as oleoginosas como amendoim, castanhas, semente de abóbora e amêndoas. Sei lá, esse assunto é tão batido que duvido que alguém realmente acredite que se precise de carne. Mesmo um imbecil como o Constantino. É só desonestidade mesmo.
Caninos afiados e olhos para frente são provas de que devemos comer carne
Se você não sabe do que está falando considere com carinho a possibilidade de ficar de boca calada diante do impulso de ridicularizar algum grupo. Já rebati o argumento leões-comem-carne-logo-devemos-comer-também e esse aqui é bastante parecido por parte de um pseudo-determinismo biológico para que comamos carne. Não só a estrutura do argumento é falsa como ele também é mentira. Afinal, ter olhos para frente e caninos é determinante para inferir que um animal deva comer carne?
Como todo mundo adora fotos de bichos resolvi mostrar alguns exemplos que contrariam o que o Rodrigo disse. Primeiro, para ilustrar, caninos humanos. Pra não dizer que estou forçando a barra peguei um exemplo de um cara até meio dentuço.


Eis os exemplos de herbívoros :
Babuíno Gelada


Hipopótamo


Gorila


Urso Panda


Tem outros exemplos interessantes como o dromedário. Tem até uns bambis com uns caninos cabulosos como o veado dente de sabre. Enfim, já deu pra notar que até um urso panda e um gorila vivem muito-bem-obrigado com vegetais e por isso não tem o menor cabimento falar que você precise de carne.
Devemos comer carne porque ela contribuiu para a sobrevivência da espécie
Isso aqui é uma mistura bizarra de falácia naturalista com apelo à tradição. Ainda tem o defeito de insinuar que porque ela foi necessária no passado devemos comê-la hoje e isso é falso.
De fato, ao caçar ou fugir da caça os humanos mais sonsos morriam e os mais inteligentes sobreviveram e deixaram descendentes. O problema é que hoje não há mecanismo de seleção natural que atue sobre nós da mesma forma que atuou naquele tempo. Comer carne, então, não contribui em nada para a sobrevivência da espécie.
É justamente o contrário: hoje competimos com recursos com os próprios humanos e como uma alimentação que contém derivados animais consome mais recursos que uma baseada em vegetais é melhor para a humanidade.
Além disso, uma dieta estritamente vegetariana diminui riscos de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer, as doenças que mais matam no mundo. Se a questão for sobrevivência, então, falar em carne é um contrassenso.
Carne é escolha individual
Escolha individual é qualquer coisa que envolva unicamente a vida do indivíduo , não afeta outros e por isso ninguém tem nada com isso. Só que quando a sua escolha afeta indivíduos que tem mente, experiências subjetivas, laços familiares, sentem frustração, medo, dor e buscam alegria e prazer então tem um indivíduo na equação que não está sendo considerado. Como o ato de comer carne afeta indivíduos que têm atributos moralmente relevantes então esse ato fica sob avaliação moral. Não é, portanto, uma escolha individual.
Veganos são sensíveis e incapazes de derrotar o Islã
Olha, falácias à parte, o exército americano come carne, o exército francês come carne , o inglês come carne e o Islã continua por aí. Essa talvez seja uma das coisas mais estúpidas que eu já ouvi na vida. Em todo caso vou mostrar que ter ética não diz nada sobre ter força física.
O Strongman Patrik Baboumian defende que a força vem exatamente da compaixão. Ele detém desde 2011 o título de homem mais forte da Alemanha e em 2013 do Mundo.


Para Patrik forte é quem defende os mais fracos e não quem abusa de vulneráveis.
“Ah, mas isso é força física e precisamos de violência!” diria um comprador de carne embalada. Bom, discordo que precisemos de tanta violência assim. Em todo caso há exemplos de atletas em esportes que envolvem bastante violência e são veganos. Violência não significa força mas ainda que significasse é falso dizer que veganos não possam ter essa essa característica.
Devemos comer carne porque na natureza é pior
Aqui o Rodrigo assume que se todos fossemos veganos seria pior para os animais pois sofrem mais na natureza que sendo explorados pelo homem. Isso está errado em tantos níveis que impressiona que alguém com mais de quatro anos leve esse argumento minimamente a sério.
Em primeiro lugar: Rodrigo precisa se informar melhor sobre as condições concretas dos animais explorados pelo homem. É uma brutalidade do cacete o que fazemos com os animais que supera em muito o que ele descreveu falaciosamente na Evidência Anedótica dele sobre o leão matando a presa.
Outro ponto é uma presa caçada por um leão viveu livre até ali. Não teve escravidão, tortura e uma vida de confinamento para acabar tendo uma morte terrível. Fora que a presa livre tem a oportunidade de resistir ao leão enquanto os humanos se alimentam de animais condenados. Já tratei em várias ocasiões que sequer é possível culpar o leão, que morre sem carne, mas é plenamente coerente responsabilizar aquele que causou violência porque quis.
Fica cada vez mais claro que o veganismo chegou para ficar. O interesse dos internautas aumenta, a número de veganos só cresce, a quantidade de direitos animais e decisões judiciais em favor dos animais não para de crescer. Farei um artigo só disso.
Por isso dá pra entender esse ódio todo direcionado aos veganos perpetrados por toda sorte de imbecis. Desde BeefMagazine a Pondé, Reinaldo Azevedo , Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino.