#2: Três caras e o meu turbante (Homofobia em 365 dias)
A história de como o turbante virou o meu símbolo de resistência.

O turbante é um lenço comprido que se amarra em volta da cabeça por diferentes motivos. No Ocidente, ele tem um significado bastante forte para a cultura negra. Entretanto, no Oriente, ele também é muito importante para o islamismo, chegando a representar a consciência espiritual de uma pessoa. Na década de 1960, ele foi um acessório de moda muito usado e está voltando com bastante adeptas nos últimos anos, junto de uma forte e interessante discussão sobre apropriação cultural.

Toda essa explicação para dizer que, em dias de frio, tenho o costume de amarrar meu cachecol em forma de turbante na cabeça após sair do treino. “Não pegue friagem depois de sair do vôlei, se não vai acabar no hospital com pneumonia”, é o que a minha mãe sempre me diz. Isso fica martelando na minha cabeça até que eu faço um turbante para evitar qualquer problema de saúde. É aquela história: praga de mãe pega.
Até aí tudo bem, sempre me acho lindo de turbante, porque, assim como todo estudioso de cultura LGBT, admiro Carmem Miranda e ela arrasava no turbante. A questão é que, para a nossa sociedade, turbante é um acessório feminino e homens com turbantes são gays afeminados que devem ser espancados para aprender a virar macho.
Eu estava voltando do vôlei pela Manoel Ribas, próximo ao Restaurante Madalosso — pra quem não sabe, uma região super nobre da cidade de Curitiba — junto com a minha irmã e mais três amigos, quando um grupo de três caras apareceu ao longe, vindo em nossa direção. Eles estavam bebendo e fumando e logo imaginei que poderiam arranjar problema comigo só por causa do turbante, mas decidi não tirar.
Naquela hora bateu uma canseira de ter que ser camaleão. Porque quando você é gay, é bem normal gastar uma boa quantidade de energia tendo que camuflar coisas sobre quem você é em certos lugares. Por exemplo, naquele vôlei, eu tinha que maneirar os meus gritos em quadra e a minha comemoração. No serviço, eu não posso usar roupas extravagantes e não posso comentar sobre um cliente gato da mesma forma que todas as meninas fazem. Na frente da mãe do meu amigo, eu tenho que evitar falar sobre questões que envolvam sexualidade.
Ter que mudar minha personalidade, esconder o meu lado feminino, engrossar a voz, esconder minha orientação sexual, ser desleixado, cuspir, arrotar, não chorar, é um trampo que exige muito de quem você é.
Foi mais ou menos essa reflexão que eu fiz ao decidir não tirar o turbante para passar limpo pelos caras. Não deu em outra, eles diminuíram o passo, vieram mais na minha direção e quase esbarraram em mim. Quando olhei para trás, um deles havia parado. O que mais estava com ódio. O que tinha vontade de me bater, até de me matar, quem sabe.
Avisei meu amigo e apertamos o passo, encontramos os outros três que estavam mais pra frente e fomos meio que andando rápido, meio que correndo para a pizaria que ficava mais à frente. Lá, novamente, muitos olhares das famílias conservadoras curitibanas que fazem parte da nossa Classe B.
Toda aquela experiência me fez perceber que a sociedade ainda não está preparada e não entende nada sobre gênero e suas expressões. Elas poderiam substituir a cara de desgosto por uma pergunta: “Por que você está usando um turbante?”. Aí, eu responderia.