#5: A dor de ser expulso de casa (Homofobia em 365 dias)

Uma história que fala sobre rejeição e superação.

“Lucas, você é uma pessoa que não lida bem com a solidão”, disse-me o meu orientador do trabalho de conclusão de curso, o Zeca, que poderia facilmente ser meu analista. De fato, eu nunca lidei muito bem com sentimentos de rejeição, abandono e solidão. Em partes porque acredito que ser gay me obrigou a um longo processo de descoberta, dúvidas e aceitação que veio desde a infância até o início do segundo ano da faculdade, pelo qual passei sozinho.

Outra hipótese é a ausência do meu pai, que me colocou em dificuldade para aprender sobre o que é ser homem. Dificuldades que venci e que, de certa forma, me ensinaram uma maneira diferente, longe do padrão, de experimentar o meu gênero.

Mas eu comecei falando sobre solidão e rejeição, porque essa história sobre homofobia tem muito a ver com a dor que muitos LGBTs sofrem ao serem expulsos de casa. O sentimento de abandono cai como um peso que precisa ser carregado até o momento em que as coisas começam a se resolver.

Eu já fui expulso de casa por ser gay. Eu já senti a rejeição doer no meu coração. Já vi um lado da minha família se colocar contra mim e sair falando mal para os vizinhos e outros parentes. Já tive mentiras vinculadas ao meu nome para denegrir a minha imagem.

É difícil não relatar esse episódio com rancor. Mas prometo tentar.

Quando meus tios se casaram, eles se mudaram da casa dos meus avós, deixando-os sozinhos. Eu sempre tive uma relação muito próxima com a minha avó, que me chamava de filho. Então, ela me convidou para morar com eles e eu aceitei. Não passou muito tempo e o casal voltou para casa sob o pretexto de começar a construir uma casa que até hoje, praticamente três anos depois, não saiu.

Os problemas começaram ali. Meu vô, que já não gostava muito de mim, passou a ter o apoio do meu tio sobre meus hábitos. Portanto, decidi sair de lá um tempo depois e ir morar com um amigo. Minha vó não concordou com a minha decisão, mas permitiu que eu fosse. Apenas para que, toda vez que eu fosse lá, plantasse em mim a vontade de voltar. Depois de três ou quatro meses morando sozinho, a proposta de voltar e não ter que gastar todo o meu salário de estagiário com as contas da casa pareceu tentador e eu voltei.

Mas eu não fui recebido com boas vindas. Não quero parecer ingrato com a minha vó que, diga-se de passagem, fez tudo por mim até aquele momento. Mas as restrições e problemas começaram a aparecer: eu não poderia mais levar amigos para dentro de casa, não podia fazer barulho no meu quarto e até fui acusado de roubar um perfume do meu tio. Meu tio chegou a esperar para que ficássemos sozinhos e me ameaçar, usando expressões bastante homofóbicas, dizendo que ia acabar com a minha vida.

E conseguiu. No domingo seguinte, fui dormir na casa da minha mãe, um pouco cansado daquele ambiente intolerante. No outro dia, às 8 horas da manhã, a minha vó ligou pra ela dizendo que não era pra eu voltar pra aquela casa mais e que ela precisava ir buscar as minhas coisas.

A minha avó não sabia sobre a minha orientação sexual da minha boca, mas a minha mãe já tinha contado para ela. Para ela, estava tudo bem, contanto que eu não falasse nada ou ninguém se sentisse incomodado com isso.

Ela não falou comigo, não deu nenhuma explicação sobre o motivo de eu não poder voltar mais. Fiquei sabendo através de alguém que o motivo seria que os meus tios descobriram que eu levava homens para dentro de casa, uma grande mentira. Meu pai veio me contar que ela saiu falando para os vizinhos que eu era caloteiro.

Aquela foi a fase mais difícil da minha vida. Foi mais difícil conseguir entender de onde vinha aquela rejeição do que eu contar para a minha família, anos antes, sobre a minha orientação sexual. O processo de dor daquele momento foi algo praticamente indescritível. Não há palavras que expliquem aquele momento porque ele é difícil de compreender. Com alguém que você ama abre mão de você por não aceitar a sua orientação sexual?

Foram semanas de uma dor constante de abandono, muitas lágrimas e revolta comigo mesmo por acreditar que eu poderia ser quem eu sou sem sofrer com as consequências.

Mas, no final das contas, eu aprendi algumas coisas. Aprendi que a minha família de verdade era formada por aquelas pessoas que estavam do meu lado naquele momento de crise. Aprendi que o perdão vem, sim, acompanhado por algum ressentimento. Aprendi que não vale a pena ser tolerante com quem é intolerante. E, aprendi, acima de tudo, a não permitir que as outras pessoas apaguem a minha voz.

Leia também:

#4: Valéria Houston tem uma mensagem para os intolerantes (Homofobia em 365 dias)