Sobre os privilégios que jamais terei

Esse é um dos privilégios que se tem quando se nasce mulher: o de ficar bem calada. A parada é que eu meio que cansei dele, então…

Na edição do Oscar desse ano Lady Gaga apresentou a música que compôs para o documentário “The Hunting Ground”, que lhe permitiu concorrer ao prêmio de Melhor Canção Original em 2016. Embora tenha perdido injustamente para mais um tema batido de 007, a cantora foi ovacionada no palco com a sua Til It Happens To You, que fala sobre como não dá para saber o que sente uma vítima de abuso sexual, não pelo menos até você também entrar de alguma forma nessas estatísticas.

Parece ser um tipo de pensamento mesquinho, mas para mim faz todo sentido. Eu fui abusada sexualmente durante dez anos por uma pessoa do meu seio familiar e nunca fui capaz de explicar para quem não viveu essa realidade o quanto ela é devastadora, o quão profundas e dolorosas são as marcas que ela me deixou, das quais pareço incapaz de me livrar, por mais que eu me trate, por mais que eu tente. Em outras vítimas eu sinto uma aura de empatia, de compreensão. De quem não esteve na minha pele por alguns segundos ou por muito mais tempo que eu costuma vir o julgamento, a naturalização e a minimização de uma situação que desconhecem e que, devo dizer, creio que normalmente pouco se importem com.

Mulheres de maneira geral costumam se mostrar mais interessadas e sensíveis ao tema, talvez por lá no fundo saberem que se ainda não foram vítimas de abuso isso se deve mais a sorte do que ao cuidado de não usar roupas tão curtas. Homens, entretanto, não parecem dar muita bola e quando têm a chance de se solidarizar e aprender mais a respeito sempre se mostram de alguma forma distantes, absorvidos pelos próprios problemas e focados em suas prioridades. Não que isso os impeça de mostrar apoio e uma certa curiosidade a respeito do assunto, mas raramente eles estão dispostos a analisar os privilégios dos quais desfrutam, apenas por terem nascido com o cromossomo XY.

Quer um exemplo de privilégio que passa desapercebido por grande parte da macharada? Lá vai: No artigo 5, inciso XV da nossa Constituição Federal está escrito que temos direito a “locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens”. Isso significa que qualquer um pode ir e vir quando bem entender, certo? Errado. Se é o que está na letra da lei não é o que a sociedade brasileira permite que as mulheres desfrutem no seu dia a dia, na esmagadora maioria das vezes.

Não está entendendo muito bem aonde eu quero chegar? Deixa eu te contar então o que me aconteceu nessa manhã: a minha mãe veio falar comigo bastante angustiada, alarmada mesmo. A vizinha da casa ao lado tinha chamado o meu pai para conversar. Até aí tudo bem, o problema é que a mulher queria pedir para que eu tomasse mais cuidado quando andasse pelo bairro, já que um dos moradores da casa dela (e eu não sei o que eles são um do outro) aparentemente está obcecado por mim.

Há alguns dias eu sai com a minha mãe para tomar um açaí e o tal sujeito estava sentado no portão. Ele aproveitou que passávamos e me perguntou se o rapaz que vivia andando comigo pelos arredores era meu irmão ou namorado. Respondi que se tratava do meu noivo, sem entender muito bem o motivo do seu questionamento. Ele pediu desculpas pela indiscrição e fomos embora. Depois de algum tempo ele tocou a campainha e quando meu pai atendeu o homem pediu que ele me chamasse. Para que? “Para ela me ensinar a baixar música”, respondeu. Seu Ricardo disse que não ia rolar e trancou o portão, desconfiado e ressabiado que é. Eu não sabia disso até então e imagino que papai provavelmente não me contou nada para não me deixar nervosa, mas veja, a coisa só foi piorando: de acordo com essa mesma senhora na semana passada ele me viu sair sozinha e correu para a própria casa para se pentear, perfumar e aproveitou o ensejo para me seguir, algo que eu não me dei conta que estava acontecendo naquele instante. Não é a primeira vez que ele assedia uma jovem aqui da rua, aliás. A nossa vizinha admitiu que há algum tempo ele tentou se aproximar de todas as formas possíveis de outra garota. Um dia pediu a ajuda da menina para consertar a televisão e ela então entrou em sua casa. Quando chegou na sala ele estava só de cuecas, com o pênis ereto.

Resultado: agora meus pais não querem mais que eu saia desacompanhada por aqui. Estão preocupados e eu também estou assustada, claro. Aparentemente não há nada que possamos fazer efetivamente no momento, a não ser prevenir, para depois não ter que remediar o irremediável. Esse é o tipo de constatação que deixa a boca com um gosto para lá de amargo, não posso negar.

Aos 26 anos de idade eu serei obrigada a aceitar escolta para ir a padaria, ao supermercado, ao caixa eletrônico, a farmácia, ao salão, tudo isso em uma vizinhança que supostamente é segura, ou que pelo menos nunca me fez sentir minimamente insegura. Felizmente eu tenho quem esteja lá por mim e sou muito grata pelo aviso que recebi, mas nessas horas eu queria mesmo era ter um par de bolas no lugar da vagina, porque sejamos francos, esse não é o tipo de preocupação com a qual um homem tenha que lidar, não é mesmo? Nada tira deles o privilégio de ir e vir. Talvez o medo da violência os paralise um pouco, mas isso vale para os dois lados e, convenhamos, corremos muito mais risco. Agora temer ser abusado sexualmente, temer ser estuprado? Não, essa realidade faz parte apenas da vida das mulheres e só nós sabemos a tensão que ela nos causa, o quanto pesa nas costas, o tanto de estratégias que traçamos para escapar e o tamanho das privações e perdas que somos forçadas a experimentar o tempo todo, na esperança de corrermos menos risco, de estarmos mais seguras, mesmo conscientes de que isso é uma ilusão, uma grande mentira.

A verdade é que por mais que nos esforcemos muitas vezes acabamos sendo vítimas daquilo que tanto tememos, não tem jeito. Eu sofri abuso sexual em casa, de alguém que jamais deveria me ver como um objeto para atender aos seus desejos carnais, muito pelo contrário. Não precisei ir na esquina de madrugada quase nua para que um louco escondido em um beco qualquer me atacasse. Várias irmãs minhas vivem sendo importunadas nas ruas, não importa o horário que saiam e o quanto se “previnam”. Algumas se calam por temerem algo pior e por vergonha, mas as que revidam raramente saem ilesas. A sensação que predomina é a de que a mulher não tem direito de existir, a não ser que seja para servir aos homens.

E como eu estou me sentindo nesse momento? Um lixo. Me sinto muito mal porque não há nada que eu possa fazer para exterminar instantaneamente a cultura do estupro que oprime a mim e às mulheres que eu amo, nessa sociedade que parece nos odiar e na qual somos obrigadas a tentar sobreviver, dia após dia. Mal porque me causa nojo, me dá vontade de vomitar pensar que todas as vezes que cumprimentei cordialmente esse sujeito ele tinha outras intenções comigo, que iam muito além da simpatia. Mal porque me sinto absurdamente vulnerável e aprisionada, mesmo que eu não mereça ter dentro de mim esse tipo de sensação, mesmo que não deva ser eu quem se esconde. Mal porque mesmo que minhas amigas insistam que não posso me sentir assim, mesmo que eu racionalmente entenda que não faz sentido eu me sinto culpada e me pergunto o que fazer para deixar de ser um alvo, mesmo que eu saiba muito bem que a única alternativa seria nascer de novo, de preferência me livrando do par de cromossomos XX que ganhei nessa passagem na loteria da genética. Mal porque mesmo tendo sido abusada sexualmente durante dez anos aparentemente eu ainda não cumpri toda a cota necessária para me livrar desse inferno, então para que me esforçar tanto para superar o passado se sempre haverá um homem disposto a me jogar no chão outra vez logo em seguida?

Meu noivo trabalha no turno noturno do Windsor Atlântida, um hotel enorme em frente a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ele faz o trajeto de Campo Grande a Zona Sul a noite todo santo dia e a coisa mais terrível que aconteceu com ele até hoje foi ter um celular roubado, que na verdade não tínhamos nem comprado, foi um brinde recebido na compra da geladeira nova da minha casa. Ele volta de manhã cedo e não se sente ameaçado ou amedrontado por nada, ao que me consta. Imagino que vocês não vão ficar surpresos se eu contar que não é permitido que mulheres trabalhem no turno da noite da rede Windsor. Por que será que pessoas do sexo feminino não são bem-vindas para exercer suas ocupações nesse horário de trabalho? Será mesmo que eu preciso explicar? Enfim…

Sempre que as coisas não saem da maneira planejada eu tento pensar no quanto eu sou abençoada e nos privilégios que o destino reservou para mim, mesmo que eu não tenha pedido por eles, mesmo que eu quisesse que eles não fossem privilégios, mas sim direitos de todos. Lembro que têm muita gente lá fora, gente que eu inclusive conheço e amo que experimenta dificuldades e obstáculos bem maiores do que os meus para ser quem são, independentemente do que isso signifique. Negros, deficientes físicos, deficientes mentais, homossexuais, transsexuais, indivíduos em situação de pobreza e outros tantos exemplos das mais variadas minorias, todos são de carne e osso como eu, mas todos recebem muito mais “nãos” em um único dia do que eu já recebi em toda a minha vida. De repente certas reclamações se tornam pequenas, se tornam insignificantes diante do que essas pessoas passam e eu começo a me sentir grata, a ter vontade de lutar ao lado de cada um por um mundo um pouco mais justo, por uma sociedade um tanto mais acessível. É na minha militância e na militância dos meus que eu encontro conforto, que eu encontro consolo, que eu encontro ouvidos e a minha voz.

Eu queria então convidar você que é homem a fazer esse mesmo exercício de perspectiva e de empatia: antes de reclamar de qualquer aspecto do seu dia, da sua vida, que tal pensar no que experimentaria nessa mesma situação que te incomoda tanto caso tivesse dado o azar de nascer mulher? A análise é valida em qualquer cenário, desde transporte público lotado a falta de oportunidades no mercado de trabalho. Tentar se colocar no nosso lugar talvez te faça sentir um pouco melhor consigo mesmo, mas pessoalmente eu espero que te transforme em um homem melhor de fato, que está disposto a usar os privilégios que recebe hoje com exclusividade em prol daquelas que mais precisam. Isso sim faria a diferença! Agora se você preferir seguir posando de “feministo” das redes sociais saiba que disso elas já estão cheias e que desse tipo nós também já estamos fartas, então não precisa cumprir esse quórum, não, muito obrigada!