(homo)sSexualidade não é Africana, mas…

A naturalidade da sexualidade humana vem sendo discutida já em bom e cansativo tempo, temos um lado na defesa de só uma forma de sexualidade, a heterossexualidade, e do outro lado na defesa de uma gama variadíssima de sexualidade, homossexualidade, bissexualidade, panssexualidade e muitas outras.
Observando no ponto de vista do continente Africano, a gama variadíssima de sexualidade humana — pondo mais enfoque no termo homossexualidade — é refutada pela maior parte da sociedade continental. A não africanidade da homossexualidade é altamente defendida.
Vários países africanos como Nigéria, Burundi, Uganda, Quénia, Zimbabwé e outros, a homossexualidade é crime e por vezes é condenada com pena morte.
Numa reunião sobre o desenvolvimento económico, que teve lugar no dia 27/09/2015 na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, o presidente zimbabwiano, Robert Mugabe, voltou a criticar a homossexualidade.
“Respeitar e garantir os direitos humanos é uma obrigação de todos os Estados, mas rejeitamos igualmente as tentativas de instaurar novos direitos que são contrários aos nossos valores, normas, tradições e crenças”, afirmou. Em seguida Mugabe acrescentou: “Nós não somos gays”.
Vou ter que concordar, em parte, com a afirmação acrescentada no discurso. Os termos heterossexual, gay, homossexual, lésbica, bissexual e etcs são termos da cultura ocidental. Usamos eles por causa da globalização (lê-se ocidentalização).
De acordo com historiadores os termos homossexual e heterossexual começaram a ser usados no ocidente em 1860. Um dos termos era usado com carga patológica e pejorativa, homossexual, e o outro para normalizar ou naturalizar, heterossexual.
Como diz Fanon no livro Peles negras mascaras brancas, “ Falar um língua é assumir um mundo, uma cultura.” Logo, as sociedades africanas foram impostas as línguas ocidentais, e essa imposição veem com a imposição da cultural.
Então, todas definições de bom, mau, agradável, desagradável foram impostas e assimiladas através da língua para as pessoas do continente, pelo colonialismo.
O colonialismo impôs a sobreposição cultural, e fomos obrigados a assimilar toda a cultura do colono. Desde língua, formação de social e sexualidade.
Por ter a maioria das nossas culturas completamente apagadas, vou usar escrituras de exploradores ocidentais no continente africano para mostrar alguns exemplos de quanto a nossa sexualidade era vasta. Muito bom deixar claro que usarei termos ocidentalizados para fazer ligações, para, um possível melhor entendimento.
Em 1551, o jesuíta Pero Correia escreveu ao superior da Companhia de Lisboa o seguinte: “O pecado contra a natureza, que dizem ser lá em África muito comum, o mesmo é nesta terra do Brasil”.
Um dos primeiros casos específicos documentados de um africano praticante do “homoerotismo” foi o caso da transexual Vitoria, ou retratada nas escrituras como António, presa pela Inquisição Portuguesa em 1556. Vitória era uma escrava natural do Reino de Benin, detida em Lisboa, a qual, “quando a chamam de homem, não gosta disso…”. Foi denunciada pelas prostitutas da ribeira de Lisboa, revoltadas com a concorrência desleal daquela “pessoa preta, vestida e toucada como negra…chamando-os com acenos e jeitos como mulher que provocava para pecarem.” E quando era perguntado na rua: “Por que chama os homens se és negro? Ela disse: Sou negra e não negro! E mostrava os peitos […]”.
Outro relato de “homoerotismo” foi encontrado nos manuscritos da Inquisição portuguesa, 1591,fazendo referência a Franciso Manicongo, na Bahia(Brasil), escravo vindo do Reino do Congo, que era chamado pelos outros escravos de quimbanda.
“[…] tem fama entre os negros desta cidade que é somítigo (algo como homossexual) e depois de ouvir esta fama, viu ele com um pano cingido, assim como na sua terra do Congo trazem os somítigos. Mais disse que ele denunciante sabe que em Angola e Congo, nas quais terras tem andado muito tempo e tem muita experiência delas, é costume entre os negros gentios trazerem um pano cingido com as pontas por diante, que lhe fica fazendo uma abertura diante, os negros somítigos que no pecado nefando servem de mulheres pacientes, aos quais chamam na língua de Angola e Congo quimbanda, que quer dizer somítigos pacientes.”
No século XVII, dois autores italianos confirmam inequivocamente a existência de uma subcultura homoerótica nativa no Reino de Angola.
O primeiro é o frade capuchinho Giovanni Antonio Cavazzi de Montecuccolo (1621–1678) em seus dois volumes do livro Istorica descrizione dé tré regni, Congo, Matamba et Angola, cobrindo o período de 1645–1670. Ao todo, viveu 17 anos no continente Africano.
Eis seu relato escandalizado sobre no início da segunda metade do século XVII:
Entre os feiticeiros, um há que não mereceria ser lembrado, se esta omissão não prejudicasse o conhecimento necessário que eu, por meio deste escrito, pretendo dar aos missionários. Chama-se nganga-ia.quimbanda, ou “sacerdote chefe do sacrifício”.
Este homem, tudo ao contrário dos sacerdotes do verdadeiro Deus, é moralmente sujo, nojento, impudente, descarado, bestial e de tal modo que entre os moradores da Pentápolis teria o primeiro lugar. Para sinal do papel a que está obrigado pelo seu ministério, veste fato e usa maneiras e porte de mulher, chamando-se também a “grande mãe”.(…)
O segundo relato é do capitão Antônio de Oliveira Cadornega em sua antológica História geral das guerras angolanas (1681):
Há entre o gentio de Angola muita sodomia, tendo uns com os outros suas imundícies e sujidades, vestindo como mulheres. Eles chamam pelo nome da terra: quimbandas, os quais, no distrito ou terras onde os há, têm comunicação uns com os outros. E alguns deles são finos feiticeiros para terem tudo mau e todo o mais gentio os respeita e os não ofendem em coisa alguma. (..)
Jovens trabalhadores de Moçambique são também frequentemente referidos, na África do Sul, como praticantes tradicionais do “casamento das minas” (mine marriages), assumindo postura passiva nas relações homoeróticas. Em 1904.
Os antropólogos Stephen Murray e Will Roscoe relataram que mulheres do Lesoto envolviam-se em relações de “longo prazo e eróticas” chamadas motsoalle.
Na mitologia de Logun-Edé, existia uma cidade criada para adodis e alakuatás ( algo como “homossexuais” masculinos e feminino respectivamente) na região do rio Niger.
Na zona sul de Moçambique existe as matronas que são mulheres que “estimula sexualmente” as outras mulheres.
Nas comunidades falantes do swalihi existe as mashongas, algo como mulheres transexuais.
Essas e outras designações culturais Africanas mostram a inegável presença da variedade sexual nas sociedades africanas que foram apagada com a chegada dos europeus, provindos de uma sociedade de onde a “homossexualidade” era pecado.
Devemos ter em mente que a sexualidade em um contexto africano, como muitas outras vertentes sociais africanas, foram ocultadas com a sobreposição cultural ocidental que começou na era colonial.
Logo, dizer que homossexualidade não é africana é uma afirmação em parte correcta, mas levando em conta a lingua e significado cultural, e não a atracção sexual e afectiva em si.
Fontes bibliográficas:
- Raízes históricas da homossexualidade no Atlântico Lusófono Negro
- Stephen Murray e Will Roscoe — Boy Wives and Female Husbands.
Inspirado no texto do post da Gilza Marques do blog PENSAMENTOSMULHERISTAS