Haddad e a senha que deu início à resistência na era Bolsonaro

Após ser dado o start, não houve tempo sequer para superar a ressaca eleitoral de uma das campanhas presidenciais mais exaustivas desde a redemocratização do país; cada um agora tem buscado ser resistência ao seu modo

por Kelmenn Freitas
Fernando Haddad poucas horas após a vitória de Jair Bolsonaro: “não tenham medo, nós estaremos aqui”

Quando o então candidato a presidente Fernando Haddad disse “não tenham medo, nós estaremos aqui”, poucas horas após ser confirmada a vitória de Jair Bolsonaro na disputa ao Palácio do Planalto, a mensagem soou como uma senha para os mais de 47 milhões de eleitores que votaram no petista. A partir daquele momento, uma noite triste de 28 de outubro, foi dado início ao processo de resistência que deve se estender pelos próximos quatro anos Brasil afora.

Após ser dado o start, não houve tempo sequer para superar a ressaca eleitoral de uma das campanhas presidenciais mais exaustivas desde a redemocratização do país. Ainda atônitos com o resultado das urnas, que deram vitória a Bolsonaro com 55,13% dos votos válidos (contra 44,87% dados a Haddad), os eleitores deram início à oposição ao presidente eleito, cada um buscando ser resistência ao seu modo.

Entre as estratégias é normal que sobressaia aquela que está mais ao alcance de todos: as redes sociais. Facebook, Twitter, Instagram e aquele que se revelou uma arma de destruição em massa contra a democracia: o WhatsApp. É por meio do aplicativo que ajudou a eleger Bolsonaro — com a desova histérica de fake news — que a oposição também já se mexe para alertar a população sobre os desmandos que começam a saltitar no Executivo e Legislativo federais. Deputados da bancada do PSL, partido que elegeu Bolsonaro, e demais aliados não podem ser negligenciados por essa resistência.

Uma das mensagens que circula pelo WhatsApp alerta para o motim orquestrado pela extrema-direita por meio de enquetes no Programa e-Cidadania, do site do Senado, onde os projetos dos deputados são submetidos ao crivo da população. Mesmo que se tratem apenas de consultas públicas sem qualquer efeito prático do ponto de vista legislativo, os percentuais que elas ostentam servem de termômetro para o que pensa a sociedade sobre determinado tema. E por lá assentam aqueles mais sensíveis e que assanham as ideias mais belicosas da extrema-direita: aborto, desarmamento civil, Escola sem Partido, voto impresso, ideologia de gênero, criminalização de movimentos sociais, criminalização da apologia ao comunismo e registro civil de transexuais. Um campo fértil para a canalização de seguidores, que são instados via WhatsApp a comparecem em peso à página do Senado, para votarem nas enquetes, numa estratégia similar a usada por bolsonaristas durante a campanha eleitoral, quando grupos pró-Bolsonaro eram bombardeados por links de matérias negativas ao então candidato juntamente com o comando para que todos fossem ao Facebook “comentar e defender o capitão, o mito”.

Mensagens no WhatsApp têm convocado a população para votar nas enquetes mais polêmicas do Senado

Atentos à mobilização da extrema-direita, grupos com viés mais democrático e progressista — mais sensatos mesmo — se articulam para conter a enxurrada de votos mais conservadores, ou ao menos tentar equilibrar as enquetes. A que criminaliza o MST “e outros movimentos ditos sociais que invadem propriedades” está com placar que mais lembra a disputa eleitoral deste ano: são mais de 511 mil votos no ‘sim’ contra mais de 381 mil votos no ‘não’ — computados até o fechamento deste texto.

Enquete que defende a criminalização do MST “e outros movimentos ditos sociais” está com placar apertado

Na linha de que cada vitória conta, a ex-candidata a vice-presidente na chapa de Haddad, deputada Manuela D´Ávila (PCdoB), tem usado sua conta no Instagram para manter a militância motivada na fiscalização do que acontece não só na seara do novo governo que chega, mas também dos demais setores da sociedade que flertam com o autoritarismo, como os veículos de comunicação que compõem a grande mídia.

“Resistência significa ir construindo e comemorando cada pequena vitória da democracia. As pequenas vitórias vão semeando o campo para as grandes”, disse ela, ao comentar o recuo do SBT em levar ao ar uma vinheta que remetia ao período da ditadura militar. Alardeada nas redes sociais, a vinheta trazia a tenebrosa frase ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’, entoada principalmente nos anos de chumbo da ditadura.

Para Manuela, “resistência significa ir construindo e comemorando cada pequena vitória da democracia”

À medida que o dia da posse de Bolsonaro se aproxima, a frente de resistência ao seu governo vai ganhando cada vez mais corpo e musculatura. Parece mesmo que ninguém vai soltar a mão de ninguém.


Kelmenn Freitas é jornalista por formação pela Universidade Federal de Alagoas. Já atuou em diversas frentes do jornalismo: assessoria, reportagem, edição e chefia. Com experiência na área de Política, agora se debruça sobre os demais temas que movem a nossa sociedade.