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Liberação em massa de agrotóxicos pode deflagrar epidemia de suicídios no Brasil

Só em Alagoas, num espaço de tempo de sete anos (entre 2007 e 2014), 330 pessoas se intoxicaram com algum veneno para fim agrícola, sendo que mais da metade delas o utilizou para tentar por fim à própria vida

por Kelmenn Freitas

Entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde teve cerca de 25 mil ocorrências de intoxicações por agrotóxicos em todo o Brasil, segundo nova pesquisa da USP

O título dessa reportagem pode soar exagerado, até mesmo apocalíptico. Mas não é. A História já nos mostrou que a junção de recessão econômica — e sua taxa de desemprego galopante — com uma população desesperançosa desencadeia todo tipo de violência na sociedade, incluindo a que é infligida ao cidadão por ele próprio, numa tentativa de abreviar a sua vida.

A liberação em massa de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro pode agravar ainda mais esse cenário de suicídios e ir além dos campos e plantações, principalmente após a Anvisa adotar o risco de morte como único critério para classificá-los. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) mostra que o uso de agrotóxicos em tentativas de suicídio é preocupante: só em Alagoas, num espaço de tempo de sete anos (entre 2007 e 2014), 330 pessoas se intoxicaram com algum veneno para fim agrícola, sendo que mais da metade delas o utilizou para tentar por um fim à própria vida. A pesquisa não informa quantas, de fato, vieram a óbito.

Os municípios de Craíbas, Lagoa da Canoa, Coité do Noia, Feira Grande e Limoeiro de Anadia são as cinco localidades de Alagoas onde a relação entre o número de intoxicados e a população total da cidade é maior — quase sempre homens.

O número é alarmante porque as intoxicações mais comuns e esperadas pelas autoridades de saúde são as acidentais (ao manipular o agrotóxico) ou ambientais (contaminação do solo ou alimentos, por exemplo). E ao observar os gráficos da pesquisa com o mapeamento em âmbito nacional, saltam aos olhos os indicadores que apontam para as tentativas de suicídio via uso de agrotóxicos: com exceção de alguns poucos estados das regiões Norte e Centro-Oeste, o veneno lidera as intoxicações nesse sentido, funcionando como agente catalisador de uma epidemia presente em todo o canto do Brasil.

Com exceção de alguns poucos estados das regiões Norte e Centro-Oeste, os agrotóxicos têm funcionado como agente catalisador para os casos de tentativas de suicídio em todo o canto do Brasil
Os municípios de Craíbas, Lagoa da Canoa, Coité do Noia, Feira Grande e Limoeiro de Anadia são as cinco localidades de Alagoas onde a relação entre o número de intoxicados e a população total da cidade é maior

As informações fazem parte do atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, fruto da pesquisa da geógrafa Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A obra, que já foi publicada no Brasil, foi lançada em maio, em Berlim, na Alemanha, país que contraditoriamente sedia as maiores empresas agroquímicas do mundo.

Segundo a geógrafa, as perdas não se limitam à contaminação de alimentos e dos cursos d’água. O atlas traz informações de que, depois de extensa exposição aos agrotóxicos, ocorrem também casos de mortes e suicídios associados ao contato ou à ingestão dessas substâncias.

“E como se não bastasse o Brasil liderar este perverso ranking, tramita no Congresso Nacional leis que flexibilizam as atuais regras para registro, produção, comercialização e utilização de agrotóxicos”, destaca Larissa Bombardi.

Para a geógrafa Larissa Bombardi, as perdas com agrotóxicos não se limitam à contaminação de alimentos e dos cursos d’água, como mostra a sua pesquisa sobre o assunto

Entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde teve cerca de 25 mil ocorrências de intoxicações por agrotóxicos. O atlas mapeia as regiões mais afetadas: dos Estados brasileiros, durante o período da pesquisa, o Paraná ficou em primeiro lugar, com mais de 3.700 casos de intoxicação. São Paulo e Minas Gerais ficaram na segunda colocação, com 2 mil. Das 3.723 intoxicações registradas no Paraná, 1.631 casos eram de tentativas de suicídio, ou seja, 40% do total. Em São Paulo e Minas gerais o porcentual foi o mesmo. No Ceará, houve 1.086 casos notificados, dos quais 861 correspondiam a tentativas de suicídio, cerca de 79,2%.

Os mapas de faixa etária mostram que 20% da população afetada era composta de crianças e jovens com idade até 19 anos. Segundo a geógrafa, no Brasil, há relação direta entre o uso de agrotóxicos e o agronegócio. Em 2015, soja, milho e cana de açúcar consumiram 72% dos pesticidas comercializados no País.

Alerta ao mundo

A pesquisadora explica que o lançamento do atlas na Europa se deu pelo fato de a Alemanha sediar a Bayer/Monsanto e a Basf, indústrias agroquímicas que respondem por cerca de 34% do mercado mundial de agrotóxicos. A Monsanto, recentemente incorporada ao grupo Bayer, é a líder mundial de vendas do glifosato, cujos subprodutos têm sido associados a inúmeras doenças, incluindo o câncer e o Alzheimer.

“Queríamos promover discussão sobre a contradição de sediarem indústrias que controlam toda a cadeia alimentar agrícola — das sementes, agrotóxicos e fertilizantes — e serem rigorosos quanto ao uso de mais de um terço dos pesticidas que são permitidos no Brasil. Eles são corresponsáveis pelos problemas gerados à população porque vendem e exportam substâncias sabidamente perigosas, porém, proibidas em seu território”, diz a geógrafa.

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