Anta Gorda: receptividade com um toque italiano

Monumento da Anta

Em um dos últimos dias de fevereiro de 2010, conheci uma pessoa que se tornou uma das amigas em que mais confio até hoje. Parece estranho, mas as primeiras palavras que trocamos foram mais ou menos essas:

- De onde você é?
- Santo Ângelo. E você?
- Anta Gorda.
- Como?
- Anta Gorda. Passa por Lajeado, perto de Encantado, Arvorezinha, Doutor Ricardo…
- Nem sabia que existia. Quem sabe, um dia, eu visite.

E então, seguindo a minha tradição de cumprir promessas sobre viagens e visitas, eu fui. No dia 1º de abril, em meio a coisas para resolver, coloquei os problemas de lado e embarquei rumo à famosa Anta Gorda. Nestes anos de convivência com a Jéssica Natália Canello, mais conhecida como “a ruiva”, escutei falar muitas coisas do lugar e até conheci outras pessoas dessa cidade. Esperando encontrar uma cidade pequena e receptiva, superei as expectativas.

A verdade é que, depois de cinco dias nessa cidade, eu já estava apaixonada pelo lugar. Escutei por tantos anos a minha amiga falando com orgulho do lugar onde nasceu e agora entendo o motivo. Sabe quando você pisa em uma cidade e logo se sente em casa? Foi isso o que aconteceu. De início, eu só conhecia a ruiva, mas todo mundo foi tão aberto e simpático que em momento algum fiquei deslocada ou sozinha. Anta Gorda é extremamente receptiva e acolhedora.

Próxima parada: Anta Gorda — RS

Um ponto que me deixou encantada foi o sotaque. Sério, tão bonito! A descendência das famílias da região é italiana, então a forma de falar acaba lembrando muito os italianos e era normal escutar alguma palavra nesse idioma. Foi uma oportunidade para praticar um pouco do meu italiano e, em meio ao dialeto, acho que consegui me entender bem com todo mundo.

Outra coisa que me chamou a atenção em Anta Gorda foi a intensidade das curvas na estrada. Não na cidade, mas no interior. Em uma delas, o ônibus que eu estava virou com tanta força que vários itens saíram rolando pelo veículo, inclusive a lixeira do motorista. Atenção na estrada: é só ter um pouco de cuidado e tudo certo.

A FAMOSA ANTA

Conheci a famosa anta

Cheguei no final da tarde e, como a previsão era de chuva para os dias que eu ficaria na cidade, aproveitamos o restinho de sol para darmos uma volta. A rodoviária da cidade fica bem no centro. Na realidade, não tem a estrutura física de rodoviária, tem só uma parada na rua, mas cumpre bem o papel para os viajantes. Ela está localizada na quadra ao lado da praça, sendo que nesta praça fica o famoso monumento da anta. Pode parecer brincadeira, mas naquele dia realizei um sonho: tirei a minha foto com a anta. Depois de seis anos escutando falar dela, eu finalmente tive oportunidade de conhecer essa cidade linda e simpática.

Segundo o site da Prefeitura, “o símbolo faz alusão ao animal que originou o nome da municipalidade. O curioso título refere-se a uma anta, de tamanho fora do comum, abatida ainda nas primeiras décadas do século XX. Assim, era comum ouvir os moradores das redondezas referirem-se ao local como ‘lá onde mataram a anta gorda’”.

O CENTRO

A cidade é pequena, com 6.228 habitantes, e bem organizada. No centro, é possível encontrar um pouco de tudo. Tem mercado, padaria, hospital, praça, hotel, igreja, farmácia… Tudo o que é necessário. Quando visitei, a praça estava em reforma e a conheci como Doutor Borges de Medeiros. No entanto, recentemente ela foi reinaugurada com o nome Prefeito Genuíno Dallé. A praça é ampla e muito agradável. Tem vários bancos (com sombra), pracinha para as crianças brincarem e também academia ao ar livre.

Em frente à praça está localizada a Paróquia São Carlos. O que mais me chamou a atenção nesta igreja foi a precisão com que foram feitos os vitrais dispostos no interior do local. A igreja é ampla e bem iluminada. Lembro que fiquei espantada quando estava a umas duas quadras de distância da igreja e comecei a escutar o som de sinos e música católica. Fiquei pensando no que estava acontecendo, até que a mãe da minha amiga me avisou que era o som da Paróquia convidando para participar da missa (por um momento achei que estivessem transmitindo a missa por ali).

Ali no centro, no final de tarde do domingo, tudo fica lotado. Ou melhor, quase tudo. Estou acostumada com Santa Cruz do Sul, cidade onde as praças ficam lotadas no domingo. Na santinha, o programa típico da cidade neste dia é ir tomar chima na praça. Então estranhei um pouco quando vi as calçadas das quadras ao redor lotadas, mas pouca gente na praça em si. Talvez seja porque ela está sendo reformada, ou é assim mesmo. Cada cidade com seus costumes.

FESTLEITE

Eu e a Mimosa

O Parque Municipal de Eventos Aldi João Bisleri fica bem pertinho do centro. É lá que é realizada a FestLeite, a festa da cidade. Não consegui me organizar para ir na época em que ela é realizada, mas peguei a cidade toda decorada com vaquinhas. A 6ª FestLeite ocorre de 28 de abril a 1º de maio. A programação conta com simpósio do leite, seminário da noz pecan, feira comercial e industrial, passeios de helicóptero e de trenzinho (quero!) e salão da gastronomia. A festa será animada com shows do Brilha Som, Paulo Brito e Banda, Banda Indústria Musical, Teló e Tobias, Lucas e Felipe e, para encerrar com chave de ouro, João Neto e Frederico. Se interessou? Dá uma passadinha no site da Festleite.

LINHA TERCEIRA MORESCO

Ao ir para Anta Gorda, eu aceitei um desafio. Não sou uma moça do campo (e não tenho vergonha alguma em dizer isso) e, assim, não conheço praticamente nada desta realidade. Então me comprometi em fazer coisas que nunca tinha feito. A ruiva mora em uma propriedade no interior, na Linha Terceira Moresco, onde moram cerca de 30 famílias. No caminho, passamos pela Vila Borghetto (entrada ao lado do pórtico). Achei a igreja que tem lá encantadora, mas não deu tempo de conhecer (está na lista para a próxima visita).

Para que eu cumprisse meu desafio, a Jéssica fez uma lista com coisas para fazermos. Entre as atividades estava dar uma volta na propriedade. Quem me conhece, sabe que sou desastrada caminhando na brita, na terra, no mato… Mas deu tudo certo! Vi paisagens lindas e consegui “escutar” o silêncio, coisa que não acontecia há anos. Durante nossos passeios no interior, continuei saindo da minha zona de conforto: conheci um aviário, vi um chiqueiro (os porquinhos são fofos, mas muito resmungões) e até batizei um bezerro, que agora se chama Giuseppe (e ele me batizou com uma lambida de leite).

Também tive a oportunidade de participar da festa da comunidade. Dei sorte, porque normalmente ela ocorre no feriado de Corpus Christi. Só que dessa vez, como outra comunidade iria fazer nesta data, eles transferiram a comemoração — e caiu bem no dia que eu estava lá. Sendo assim, eu participei da missa na Capela São Gotardo, juntamente com a família Canello, seguida do almoço no ginásio da comunidade. O cardápio era salada, maionese, pão e muita carne. Tudo bem organizado. Ainda teve sorteio de brinde e rifa. Posso não ter dado sorte com os presentes, mas adorei a festa.

Você pode achar estranho eu falar isso, mas foi tudo muito divertido. E, se duvidou, te convido a tentar fazer algo diferente, sair da sua zona de conforto. Eu saí da minha por alguns dias e talvez por isso tenha ficado tão encantada com o que vivenciei em Anta Gorda. Ainda fizemos um passeio em Itapuca, distrito de Anta Gorda, mas isso é assunto para outro post.

PARADA EM LAJEADO

Uma cidade que não me chama atenção é Lajeado. Não sei porque, mas ainda não me animei a explorá-la. Esta foi a terceira vez que fui pra lá, mas ainda não estou preparada para gostar dessa cidade. Quem sabe um dia. Falo isso porque tive que trocar de ônibus neste município. A viagem entre Santa Cruz do Sul e Lajeado demora um pouquinho mais de uma hora de ônibus. Na rodoviária, mais cerca de uma hora e meia de espera e, depois, mais duas horas e uns minutinhos até Anta Gorda.

Na ida, decidi permanecer na rodoviária para explorar o local. São dois lados que têm box, mas a rodoviária é bem sinalizada (e não muito grande), então não tem perigo de se perder. Fiquei impressionada com a quantidade de opções de atividades para passar o tempo no local (e também para quem mora ali perto). Em uma volta rápida, encontrei duas lojas de bazar, uma livraria (que acredito ser cristã), um cabeleireiro (quando passei tinha uma placa de ‘compramos cabelo’. Se der imprevisto no orçamento da viagem, corre pra lá!), uma loja de roupas e duas lancherias (uma bem grande e outra menor). Para quem for se aventurar pela cidade (ainda vou, prometo), tem alguns mapas do município expostos na rodoviária.

A minha felicidade foi descobrir que, desde o início do ano, o local conta com duas salas de espera para os viajantes, cada uma ao lado da saída para o box dos ônibus. Tinha promessa de WiFi também, mas infelizmente não consegui conectar no meu celular (já ouvi pessoas falando que conseguiram, então vai um pouco de sorte). As duas salas seguem o mesmo estilo. Na que eu fiquei, contei oito tomadas (de três pinos, 220V), poltronas e cadeiras bem confortáveis, a edição do dia de um jornal da cidade, televisão (estava no canal Discovery Channel), duas mesas e mais dois espaços para colocar notebook, lixo, máquina de café e quadros com pontos turísticos da cidade. Um luxo.

Sala de espera da rodoviária de Lajeado e crepe da Padaria Suíça

Para quem for ficar esperando o ônibus por mais tempo, vale a pena deixar a bagagem no guarda-malas e dar um pulinho na Padaria Suíça para provar um dos famosos crepes. Posso não ser apaixonada por Lajeado, mas sei admirar as coisas boas da vida. Por isso, me despedi de Anta Gorda um pouquinho mais cedo e, ao invés de ficar esperando na rodoviária como havia feito na ida, combinei de encontrar alguns amigos para almoçar na Suíça (obrigada, Renan Silva e Cláudia Flores). Depois, tomei o rumo de casa, já sentindo saudade de Anta Gorda e das aventuras lá vividas.

Meu sinceros agradecimentos para a Jéssica e sua família, que me receberam de braços abertos e com o maior carinho.

Serviço:
- Site da Prefeitura
- População: 6.228 habitantes
- Distância de Porto Alegre: 190 km
- Distância de Santa Cruz do Sul: 129 km
- Distância de Lajeado: 72 km
- Localização: Vale do Alto Taquari

Diário de Bordo:
- Estadia: cinco dias;
- Trajeto: de Santa Cruz do Sul até Anta Gorda, com troca de ônibus em Lajeado;
- Passagem: de Santa Cruz até Lajeado, R$ 13,50 (empresa Planalto);
de Lajeado até Anta Gorda, R$ 14,95 (empresa Expresso Azul);
- Observação: no caminho até Anta Gorda, passei por uma cidade chamada Arroio do Meio. Achei o lugar muito bonitinho, no maior estilo serra gaúcha. Ainda não conheço, mas já está na minha lista;
- Observação 2: a única coisa que não sinto falta é dos mosquitos que me perseguiram em Anta Gorda (sim, sou alérgica);
- Observação 3: o conteúdo deste texto foi escrito com base em impressões minhas, sem qualquer propaganda paga.

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