A dor e o suicídio das pessoas trans

Ashley Hallstrom tirou sua vida em outubro de 2015, aos 26 anos. Em sua nota de suicídio, pede: “Please help fix society”.

Atenção: TW

Pessoas transgênero estão sujeitas à violência desde muito cedo, tendo sua identidade de gênero deslegitimada por um discurso que essencializa a aparência dos genitais, logo no nascimento. Assim, pressupõe-se que nosso gênero deva estar de acordo com o suposto “sexo biológico” — digo suposto pois essa determinação é feita pelo médico baseada somente na existência de pênis ou vagina.

Essa determinação, aparentemente simples, é o primeiro ato de construção das identidades de gênero, o qual será reforçado por atitudes subsequentes que incluem a adoção de códigos de vestuário e comportamento — o conjunto dos códigos adotados indica a expressão de gênero que se espera do indivíduo com identidade de gênero masculina ou feminina.

Das meninas é esperada uma série de atitudes e preferências que as diferenciem dos meninos e vice-versa. Essas expectativas são plantadas logo que se descobre a gravidez: o feto mais agitado só pode ser um menino; no ultrassom, a imagem de um pênis avantajado é sinal de que ele será um “macho de verdade”.

Desde muito nova a criança cujo comportamento (ou seja, cuja expressão de gênero) não aparenta estar de acordo com o gênero que lhe foi designado é constantemente perseguida, pressionada, forçada a se “normalizar”. Trata-se de uma violência simbólica — não rara acompanhada de violência física — que possivelmente afetará o indivíduo pelo resto de sua vida.

A perseguição, de fato, não é exercida apenas pela família. Ela vem de frentes diversas, que incluem os amigos, a escola (logo no jardim de infância), a igreja, os vizinhos e vão continuar no trabalho, na faculdade, nas instituições de saúde, na política e assim por diante.

Essa pressão intensa pela adequação, somada aos discursos de exclusão e de negação da legitimidade da condição transgênero leva essas pessoas a internalizarem a discriminação. Elas passam a desprezar-se como a sociedade as despreza, a sentir vergonha de si mesmas e “dos problemas que causam” (por resistirem à adequação) — afinal, a culpa não é, nunca, da sociedade, mas dos “anormais”.

Dessa forma, o suicídio acaba sendo encarado, pelas pessoas trans, como uma saída de um mundo em que elas não se encaixam, numa sociedade que é incapaz de aceita-las como elas são.

Quando se matou, em dezembro de 2014, Leelah Alcorn, de 17 anos, deixou uma mensagem em seu Tumblr, dizendo: “A vida que eu teria vivido não valia a pena ser vivida… porque eu sou transgênero”.

Esse sentimento traz alguma compreensão às estatísticas de pesquisa publicada em janeiro de 2014 pelo Instituto Williams de Los Angeles, que revela que 41% das pessoas trans entrevistadas já tentou cometer suicídio em algum ponto da vida — em comparação a 20% de gays, lésbicas e bissexuais e 4,6% da população geral. Em outra pesquisa, feita em Ontário, no Canadá, 35% das pessoas trans entrevistadas relataram ter pensado em suicídio em 2014 e 11% chegou a tentar se matar.

No Brasil ainda não há uma pesquisa formal realizada entre pessoas transgênero, mas, infelizmente, suponho que os números apresentem uma mesma realidade. Entre jovens LGBTTA+, o desejo de se matar não parece ser um relato pouco frequente — na verdade, o que impede de haver mais pesquisas sobre o tema é sua condição de tabu.

Pouco tempo depois da morte de Leelah, em fevereiro de 2015, Ash Haffner, um garoto trans de 16 anos, também cometeu suicídio jogando-se na frente de um veículo — a mesma maneira como Leelah tirou sua vida.

As reportagens sobre Leelah e Ash chamam a atenção por conta das declarações dos pais de ambos os jovens. Claramente, os pais de Leelah não aceitavam sua transgeneridade, algo que ela mencionou em seu bilhete de suicídio e que foi reforçado pelas declarações dadas por sua mãe à CNN, tratando-a como “seu filho” e afirmando que não apoiavam sua decisão, “religiosamente”.

A mãe de Ash, por sua vez, insiste em trata-lo no feminino em declarações à TV, dizendo que o bullying foi a causa do suicídio “de sua filha”.

Neste outubro de 2015, Ashley Hallstrom, de 26 anos, também se jogou na frente de um caminhão em uma estrada movimentada. De acordo com a página Planet Transgender, ela é a 20ª pessoa trans nos Estados Unidos a cometer suicídio em 2015.

Em sua nota de suicídio no Facebook, Ashley conta que desde cedo aprendeu que “pessoas como ela eram aberrações e abominações”, o que fez com que ela odiasse quem ela era. Apesar dos anos de sofrimento e depressão, Ashley manteve o desejo de ajudar outras pessoas trans ao deixar sua carta, que pede para que as pessoas compartilhem o máximo possível.

Como Leelah, Ashley alerta para como a sociedade precisa mudar para ser capaz de aceitar, receber e ajudar as pessoas trans.

O estudo canadense publicado em junho de 2015 (sobre o qual falei anteriormente), realizado entre habitantes da cidade de Ontário, é um dos primeiros a considerar fatores que podem intervir nos riscos de suicídio das pessoas transgênero e as conclusões são bem claras: apoio social, redução da transfobia e o acesso a documentos retificados de acordo com a identidade de gênero são fatores associados a grande redução relativa ou até absoluta dos riscos de suicídio, bem como o acesso à terapia hormonal e às cirurgias que a pessoa julgar necessárias.

Além do mais, o apoio dos pais foi bastante associado à redução do pensamento de suicídio entre as pessoas, juntamente com a auto-aceitação.


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