Entre Bolsonaros, Whatsapps e meu pai

Por C.P.

Há pouco mais de três anos, escrevi para o “Nada Errado”. Naquele julho de 2012, a vida já tinha ganhado várias doses de açúcar, ficou mais doce. Melhorou. O fato de ter me aceitado como sou e passar a viver fora do armário foi o que de melhor pôde acontecer, ainda mais em tempos como os quais estamos vivendo. Do deputado Jean Wyllys ao deputado Jair Bolsonaro, a histeria nos discursos, de ambos os lados, incomoda. Coerência, para fazer uma brincadeira com o trabalho dos dois, não está na ordem do dia.

Mas o que incomoda incomoda mais, muito, é a onda conservadora que carrega em suas águas tantos brasileiros de uns tempos para cá. Pior: é uma onda que invade terra adentro, envolve muitos dos que encontra à frente. Felizmente, o mar um dia retrai. O problema são os estragos deixados. O discurso de figuras como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, só para ficar em dois que estão entre os principais porta-vozes da intolerância, dói nos ouvidos. Deixam marcas. Não é difícil ouvir nas ruas, no trabalho, às vezes até em casa, comentários homofóbicos, transfóbicos, misóginos. Intolerância contra o gay, a travesti, transexuais, a mulher.

Pior: falam e destilam rancor em nome de uma causa, como se tivessem procurações assinadas. No caso de Malafaia, “em nome de Deus”. Bolsonaro, em “defesa da família”. Onde esses senhores, e aqueles que se dizem representados por eles, acham que vivem? Em uma teocracia? Figuras anacrônicas, em total falta de sintonia com o país dos tempos de hoje. Na verdade, com qualquer sociedade civilizada que não aponta o dedo ou segrega, mas que acolhe e respeita a todos. Que eles tenham lá suas convicções, mas entre seus grupos. Ditar padrões e tentar impor a todos costumes que lhe são caros, aí não.

Mas eles ganharam aliados. Ferramentas poderosas: a internet e as redes sociais. Esses espaços ganharam trincheiras de gente que se aproveita da facilidade uma curtida ou de um compartilhamento para apoiar e propagar ideias de ódio que se multiplicam como vírus. Bons tempos quando o pior da internet eram só as correntes por e-mail…

Mas nenhum conteúdo é compartilhado espontaneamente. Alguém o faz. A formação de jornalista me deixou chato em relação àquilo que leio. Quero saber o porquê de tudo. De onde vem. Se é aquilo mesmo. O que eu já recebi sobre “o absurdo da ideologia de gênero” no WhatsApp… E sim, tenho certeza que muitos não se deram ao trabalho se saber o que é. Não entrarei no mérito. Mas muitos não buscam formar opinião própria. Replicam aquilo que leem ou ouviram falar. É um terreno fértil para a desinformação.

Em meio a tanta desfaçatez, prefiro me apoiar naqueles que, verdadeiramente, têm alguma importância em minha vida. Meu pai, ao saber sobre minha condição através de minha mãe, muito tempo depois dela, me chamou para uma conversa. Contei. Confirmei. Ele ouvia tudo, sereno. Perguntei: “Tudo bem para você”? Disse: “Você é meu filho. Sempre tive orgulho de você. Te amo, do jeito que você é”.

Não precisei compartilhar isso no Facebook. Não fiz transmissão no Periscope. Não teve selfie no Instagram com os dois de olhos vermelhos. O assunto não ganhou nenhum grupo de WhatsApp.

Minutos depois desse troca de palavras, pedi um abraço. Chorei, e agradeci.


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