Procurando Dory e a nossa (quase) visibilidade

A Disney/Pixar precisa me explicar uma coisa!

Divulgação|Disney/Pixar

Assisti ontem ao novo filme da Pixar/Disney, “Procurando Dory” e, além de acompanhar a saga da peixinha mais legal de todos os tempos, fiquei esperando ansiosamente pela tal cena onde supostamente aparece “o primeiro casal LGBT em um filme da Disney”.

Caso você não saiba do que eu estou falando, quando o trailer do filme foi divulgado, a internet entrou em polvorosa por causa de duas mulheres que aparecem em uma cena — que dura sei lá, 3 segundos. A cena é o seguinte: estão lá a Dory e seu amigo, o Polvo Hank, fugindo pelo parque, quando esbarram em uma criança. Quando corta a câmera, duas mulheres se viram e interagem com o polvo (que está disfarçado de bebê). Aparentemente, a criança que foi empurrada e as duas mulheres são uma família. Repetindo: APARENTEMENTE.

Será que elas são?

Não há nenhuma menção à sexualidade das personagens; elas não fazem nenhum tipo de demonstração de afeto ou algo que pudesse remeter a um relacionamento; e não existe nada, na cena, que diga que estas duas humanas — que como todos os humanos do filme, são irrelevantes — sejam um casal.

No cinema, a cena é exatamente a mesma que aparece no trailer — nem alongada nem diminuída (veja aqui). A importância para a trama é zero. A piada da situação é o polvo disfarçado de bebê, e quando ele aparece o público ri até. Ninguém nem percebe que as duas mulheres que apareceram 2 segundos atrás são um possível casal. Assisti com dois amigos que não tinham reparado no trailer e não repararam durante o filme. Se lembram da cena, mas não das moças.

Mas, então, porque a presença de duas personagens irrelevantes incomodou tanto aos conservadores (que propuseram boicote ao filme) e agradou tanto à comunidade LGBT? Por dois motivos muito simples: 
1 — queremos ser representados e, qualquer mínima menção à nossa existência já nos faz sentir um quentinho no coração (precisamos refletir um pouco sobre as migalhas que recebemos, hein?); 
2 — por outro lado, qualquer mínima menção à nossa existência incomoda a ala conservadora da sociedade — que nos acusa de “ditadura gay” e diz que queremos “acabar com a família tradicional”.

A Disney/Pixar não se pronunciou oficialmente sobre o assunto (assim como não se pronunciou, em tempos anteriores, sobre a campanha #GiveElsaAGirlfriend, que pede que a protagonista de “Frozen” ganhe uma namorada na sequência do filme) e, provavelmente, não se pronunciará.

Acredito eu que tanto Disney/Pixar quanto os pais das crianças que vão assistir “Procurando Dory” tem explicações muito mais complexas a dar. Como por exemplo, explicar como um polvo de 7 tentáculos consegue dirigir um caminhão. Isso sim é de dar nó na cabeça dos nossos filhos.

Vale lembrar que Dory é interpretada, na versão original, pela apresentadora Elen Degeneres, lésbica assumida e militante da causa LGBT.

Mas afinal, o filme é bom? É, sim. Tem seus altos e baixos, mas o carisma da personagem principal é imbatível e segura até mesmo as cenas mais arrastadas. Para nós, LGBTs, é impossível não se identificar com Dory — alguém que é “diferente”, que precisa de atenção especial para não fazer “nada de errado”, que tem suas “diferenças” esfregadas na sua cara o tempo todo, que é diminuída publicamente por ser “diferente”, que é tratada de forma diferenciada por todos — exceto por alguns poucos amigos que a compreendem (Nemo, a baleia Destiny).

Mas como aprendemos desde muito cedo — como a própria Dory, precisamos continuar a nadar para sobreviver neste mundo. Continuemos, pois.

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