Star Wars — O Representar da Força

Como a Disney está recontando suas histórias e o papel do novo Star Wars na forma como Hollywood lida com minorias


Eu me lembro como se fosse hoje. Estava em casa naquele 30 de outubro de 2012, lendo qualquer coisa na internet quando, do nada, uma notícia aparece em todos os lugares. Em uma das manchetes mais impactantes que já li na vida, eu recebi, de uma vezada só, o equivalente a três socos no estômago:

A manchete dizia: “Disney compra Lucasfilm e anuncia ‘Star Wars Episódio VII’ para 2015.”

1. A Disney comprou a Lucasfilm;
2. A Disney vai fazer um filme de “Star Wars”;
3. Esse filme sairá em 2015 e será uma continuação do “Retorno de Jedi”.

Em uma frase, o sujeito conseguiu me passar toda informação que, até então, eu sonhava em receber desde que vi a última cena de “A Vingança dos Sith”, o último filme da franquia. Todo fã de SW, na verdade, meio que sonhava com a utopia de que, um dia, a franquia seria tirada das garras de George Lucas, seu criador, para que fosse feita a justiça.

Só que ninguém poderia pensar que seria tão rápido. Ou que a Disney acertaria tanto.

Vamos estabelecer algumas coisas aqui. A Disney é esperta, esperta pra caralho. Mais do que entender a mudança que está acontecendo no mundo, de como não funciona mais contar histórias que excluem e estereotipam cor de pele, religião, gênero, classe social, etc, a dona do Mickey sacou que daqui pra frente essa mudança será feita de qualquer jeito. Quer queiram os estúdios ou não.

Eu custo a acreditar que a Disney vem colocando essas mudanças em seus filmes, modificando a forma como conta histórias e estabelecendo uma nova versão de todas suas princesas, porque ela, de repente, se deu conta de que minorias precisam ser melhor representadas. Para mim é uma decisão estratégica, inteligente e puramente comercial.

Isso não quer dizer que ela não fará o que tem que fazer direito, ou que devemos torcer o nariz para isso. Pelo menos não até que eles derrapem.

“Frozen”, “Malévola”, “Big Hero 6”, a nova versão de “Cinderela”, a nova Rapunzel e Tiana (de “A Princesa e o Sapo”) — sem contar Merida, da Pixar, e muito menos a nova Moana ❤ — estão aí pra mostrar que alguma coisa está mudando. Tudo muito bem estudado e a passos lentos, porém firmes.

Só que, com “Star Wars” na mão, abriu-se uma oportunidade — de enfiar o pé na porta logo de uma vez -, que eu me sinto muito feliz de terem aproveitado.

Se é de representatividade que todos precisam, então por que não usar o maior produto da cultura pop para isso? A Disney tinha o poder, os meios e a capacidade de tornar “Star Wars” ainda maior e mais significativo. O resultado? John Boyega e Daisy Ridley. Um negro e uma mulher são os protagonistas de “O Despertar da Força” e, muito provavelmente, da nova trilogia inteira. E o personagem de John Boyega é um Jedi (não foi confirmado ainda, mas se ele usa o sabre de luz no trailer, pra mim já vale).

Não que “Star Wars” já não fosse, guardadas todas as proporções, uma franquia inclusiva. Princesa Leia sempre foi uma personagem feminina forte, bem resolvida e raramente precisou de Luke e Han para se virar. Tirando a sexualização gratuita e desnecessária no “Retorno de Jedi” que, aparentemente, não será explorada pela Disney — No more ‘Slave Leia’. Outra personagem feminina, numa posição parecida com Leia, é da Mon Mothma, outra mulher líder da rebelião.

Vale lembrar que, mesmo não mostrando no Ep. III, sabemos que é a Princesa Amidala (não nos esqueçamos dela, apesar das sofríveis prequências dos anos 2000) que cria, junto com outros senadores contrários ao império, o primeiro embrião da rebelião.


Além de Leia, na trilogia original temos Lando, um personagem negro bidimensional, que não só evolui, como toma pra si um dos maiores símbolos da saga, a Millenium Falcon e, junto com o Red Squadron, destrói a segunda Estrela da Morte, se tornando um dos grandes heróis da rebelião. Temos C3PO e R2D2 os robôs que tem uma relação muito mais parecida com a de um casal que de amigos. O próprio Conselho Jedi, uma ordem quase religiosa, tem membros de raças, cores e gêneros diversos.

Mesmo que essa não tenha sido uma escolha consciente de George Lucas, eu dou a ele o crédito de ter criado um universo que, pelo que eu entendo, já evoluiu (e muito) em questões de preconceito racial, de gênero ou sexualidade, apesar desse último nunca ter sido abertamente colocado em Star Wars — pelo menos não no cânone. No universo expandido temos, sim, personagens homossexuais.

Lucas pode ter criado sua galáxia muito muito distante de nós, mas a Disney está a trazendo para bem perto. Para perto de quem precisa, dos dois lados: para quem nunca entendeu que negros, mulheres, homossexuais, trans, etc, podem ser jedi, stormtrooper, a porra que for e para todos esses que nunca foram os heróis, que nunca apareceram e que sempre foram os coitados em perigo.

O mundo precisava de um novo “Star Wars”. Muito mais do que ele pensava.

E são coisas como essa aqui, que comprovam isso.


*Leia também — Carrie Fischer diz para Daisy Ridley: “Não seja uma escrava como eu fui.”


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