A Emancipação das Startups

Vivemos num mundo cada vez mais tecnológico e competitivo, o que origina que muitos estudantes “deitem mãos à obra” e procurem criar o seu próprio negócio. Muitos jovens têm as ideias, mas não têm meios para as concretizarem. Isto deve-se principalmente à falta de conhecimento acerca de como se lançarem no mercado e também ao receio de arriscar. De forma a aconselhar estes jovens e todos aqueles que também gostariam de futuramente criar a sua própria empresa, o NAMI entrevistou o Pedro Andrade — estudante do 3ºano da licenciatura de Gestão de Marketing — que nos irá contar a sua história.

Pedro Andrade

Fala-nos um pouco sobre ti e sobre as tuas ambições.

O meu nome é Pedro Andrade, tenho 20 anos e nasci no Funchal. Se há dois anos me perguntassem qual a minha maior ambição eu diria criar várias startups e ser bilionário. Hoje digo, e isto vai parecer cliché, que a minha maior ambição é continuar a ser feliz ao longo da minha vida, sendo que o fundar startups é apenas a resposta às seguintes questões:

Será que eu estou a fazer o que gosto? Será que é isto que me vai dar a liberdade financeira para fazer o que eu quero, quando eu quero?

As pessoas às vezes perguntam-me porquê é que eu estou envolvido em tantas organizações e porque é que eu faço o que faço. Tudo se deve a uma frase que uma vez ouvi numa TED Talk:

No final da nossa vida, arrependemo-nos mais das coisas que não fizemos do que das coisas que fizemos.

Desde então tive isso sempre em conta. Somente quando nos apercebemos que vivemos num contra-relógio e não sabemos quanto tempo é que nos resta é que nos começamos a mexer em direção à felicidade.

Pedro Andrade com Gary Vaynerchuk no Web Summit 2016

Em que medida é que pertencer ao ISCTE fez diferença no teu crescimento pessoal?

Entrar para o ISCTE fez toda a diferença. Para além de a forma como as cadeiras estão organizadas permitirem aos alunos estarem envolvidos em projetos e organizações, procura promover-se o envolvimento dos alunos nestas.

O facto de estar em Gestão de Marketing produziu um impacto muito positivo em mim. Para além de ser o curso no ISCTE cuja estrutura, professores e tipo de alunos mais se aproxima de um curso de empreendedorismo, em Gestão de Marketing não se procura programar os alunos para desempenharem certas tarefas, como senti quando estava em Gestão no 1º ano (mudei de curso no final desse ano). Valoriza-se o ser diferente, o querer ir mais além do que o “normal” diz para fazer. Acho que isso resulta muito do facto de a maioria dos alunos de marketing serem outsiders. Quando juntas uma tribo de outsiders e lhes pedes para criarem um produto e lançá-lo no mercado não podes esperar que eles façam algo dentro das linhas ditadas pela maioria.

A nível de organizações, posso dizer que se não fosse a AIESEC, não seria 1% do que sou hoje. Quando procuramos, a AIESEC dá-nos a oportunidade de sermos o que aspiramos e trabalharmos no que queremos. Para mim, isso significou trabalhar em 3 continentes (América do Sul, África e Europa), desenvolvendo soft e hard skills, como professor, salesman ou gerindo toda a presença digital, a nível nacional, da organização.

Como surgiu a ideia de criar a Craft Wallet?

A ideia por detrás da Craft Wallet surgiu quando o Miguel, o meu sócio, estava à procura de uma carteira pequena e eficaz. Como não encontrava nada decidiu fazer uma. Mais tarde mostrou-me a carteira e perguntou-me se me queria juntar ao projeto. Disse que sim. Um ano depois da primeira campanha de crowdfunding ter sido lançada, posso dizer que o projeto superou as minhas expectativas, no entanto ainda existe muito espaço para crescer.

“ The sexiest wallet on Earth”

O que surgiu primeiro: a vontade de criar uma startup ou a ideia da Craft Wallet?

Primeiro nasceu a vontade. A startup foi uma consequência disso.

Qual foi o maior obstáculo durante a construção da marca?

Como fazer a carteira sobressair no meio de tantas outras, recorrendo a um orçamento quase inexistente. O segredo para o sucesso esteve em não seguir o caminho “normal” que as outras seguiram. Enquanto muitas marcas basearam toda a sua estratégia em social media, nós fizemos desta um complemento. Estar presente em redes sociais é apenas o frio que emana do topo do iceberg que é a digital landscape. Foi e continua a ser essencial sabermo-nos mexer dentro desse mundo. Como somos uma empresa ainda pequena e com poucos recursos, o digital foi a solução encontrada para levar a marca para todo o mundo, de uma forma rápida, barata e eficaz.

Como criaste a estratégia de comunicação da marca?

A primeira coisa a fazer foi ver o que é que se fazia de melhor e pior no mercado das carteiras e dos produtos lançados através de crowdfunding. Depois foi ver como é que podíamos aplicar o que melhor se fazia à Craft Wallet. Primeiro começámos por procurar estabelecer relações com jornalistas para lhes irmos passando histórias (algo que muitas pessoas se esquecem é que um jornalista precisa que alguém lhe conte o que se está a passar para ele poder escrever sobre isso). Depois focámo-nos em criar uma marca com uma forte componente humana, suportada por um bom sistema de customer service e uma legião de Brand Ambassadors.

O ponto fulcral da nossa estratégia de comunicação encontra-se nas pessoas. Em quem é que confiamos mais: num post de Facebook ou num amigo?

Com isto em mente, procurámos criar os mecanismos que pudessem facilitar a partilha da experiência da carteira entre amigos. Isto passa por pequenos detalhes como a presença no website de botões de partilha em messaging apps ou utilização de brand ambassadors treinados para abordar as pessoas de uma certa forma.

Num mercado com cada vez mais startups, sentes que é complicado tornar o negócio competitivo?

A marca Craft Wallet nasceu num mundo povoado por demasiadas marcas de carteiras. Na verdade, praticamente todas as semanas é lançada uma nova marca de carteira que promete revolucionar o mercado. A diferença encontra-se na capacidade que o produto tem para se diferenciar através de uma marca forte e sustentada em princípios nos quais os consumidores se revêem. Na Craft Wallet temos quatro valores:

  • Honestidade

Mentir, para além de ser feio, no final dá sempre para o torto. Numa startup shit happens. Faz-se o máximo para a evitar, mas quando acontece falamos com o cliente e procuramos compensá-lo da melhor forma.

  • Transparência

Nós somos o que somos. Esconder apenas cria desconfiança no consumidor. Querem conhecer mais sobre o processo de fabrico da Craft Wallet, onde é que é feito e como é que é feito? Perguntem e nós mostramos.

  • Qualidade

Na Craft Wallet apenas usamos os melhores materiais em que conseguimos meter as mãos. Começámos com o alumínio 7075-T6, passámos pela pele italiana e já vamos na cortiça portuguesa. Somente assim poderemos dar a melhor qualidade e praticar um preço justo.

  • Acessibilidade

Na Craft Wallet temos plena noção que produtos de qualidade não têm de custar uma fortuna. Devem ser acessíveis a todos, melhorando a qualidade de vida da população. Nós levamos isto a sério. De momento a carteira está disponível online e em alguns pontos de venda. Em quantos mais pontos de venda a conseguirmos colocar melhor para nós e para os consumidores.

Uma marca forte e sólida, sustentada por um bom customer service, tem sido o principal fator para os resultados que tivemos até agora. Esta começou a construir-se com a campanha de crowdfunding. Esse crescimento foi sustentado por uma presença assídua nos media e por uma rede de embaixadores que transmitem o lado humano da Craft Wallet, que mais do que uma carteira, consegue ser um objeto capaz de suscitar curiosidade nos consumidores ao verem pessoas em quem confiam a usá-la.

Podiam aparecer 10 novas carteiras todos os dias que nós continuaríamos a confiar na qualidade do produto que construímos, ou não seria dada garantia vitalícia em certos modelos. Este é o meio em que nós surgimos e crescemos. É a nossa casa. Já dizia Bane:

You merely adopted the dark; I was born in it, molded by it.
Bane

No entanto, por ser a nossa casa, temos plena noção que podemos perdê-la a qualquer momento. Basta inventarem uma bateria de smartphone que aguente uma semana inteira com uso intensivo diário e o uso de carteiras deixa de ser o mais viável (os pagamentos serão todos efetuados através do dispositivo móvel). O ser ágil faz parte do nosso ADN e nós iremos saber como responder.

Que conselhos darias a alguém que tem uma ideia e vontade, mas não passa à concretização?

Se estás com dificuldade em começar a correr, então anda. Se tens ideia e vontade, mas custa-te concretizar, começa por dar passos mais pequenos e lentamente vais lá chegando. O oceano é composto por triliões de gotas, não por uma gota monstruosa. O mesmo se aplica ao mundo das startups. À medida que fores criando, algo se vai construindo e quando te apercebes já tens um projeto em mãos.

O mundo muda-se com pequenas ações. Não com um plano megalómano.

Como recrutam os membros da Craft Wallet? Que competências priorizam mais para aceitar um potencial candidato?

O ISCTE é o oceano onde procuramos os tubarões para trabalharem connosco. Normalmente anunciamos novas posições em grupos de alunos. Depois falamos pessoalmente com os candidatos e vemos se eles têm estofo e know-how para a posição. Na hora de escolher existe sempre um conjunto de critérios que é necessário serem preenchidos. As quatro principais são as seguintes (estão por ordem de importância):

  • Risk taker
  • Constant learner
  • Communication skills
  • Technical know-how

Se virem bem, nós valorizamos mais o ser capaz de arriscar e estar constantemente a aprender do que os conhecimentos técnicos que a pessoa tem à partida. Isso adquire-se. O mindset correto é que é mais difícil de incutir e não temos tempo para isso. Vejamos, por exemplo, o Guilherme(2º ano de Gestão de Marketing no ISCTE), Customer Experience Manager na Craft Wallet. Quando lhe pedi para se juntar à equipa sabia que ele não percebia nada de customer experience management. No entanto, ele tinha o mindset correto para aprender e tornar-se excelente. Hoje é uma peça importante da equipa, capaz de trazer valor para a empresa de uma forma que só ele sabe fazer.

Hoje a startup existe, amanhã pode ser que não. Para evitar isso precisamos de pessoas capazes de se mexer sem medo de partir coisas. Quando as partirem, que as partam bem. Só assim é que se descobre o valor escondido por esse mundo fora.

Como é constituída a vossa equipa? Que cargos têm atualmente e que outros gostariam de incluir futuramente?

A nossa equipa é atualmente constituída por 4 pessoas. O Miguel e o Diogoem design e operações, eu e o Guilherme em marketing e vendas. Ainda há a Mafalda (namorada do Miguel) que ajudou na concepção da carteira e é a influência feminina na empresa. Para além disso, temos uma equipa de Brand Ambassadors espalhados por 4 continentes. A gente diverte-se.

No que toca a cargos futuros, tudo vai depender da capacidade atual da equipa de responder às necessidades e da fase em que a empresa se encontra no seu product roadmap. Se estiverem interessados em juntar-se à equipa, podem ir a https://craft-wallet.com/pages/jobs e ver que cargos estão disponíveis. Se não encontram a posição onde acham que seriam capazes de acrescentar valor para a empresa e com isso crescerem como pessoa e profissional, mandem um email para jobs@craft-wallet.com. Contem-nos a vossa história, motivações e criem uma job description para os primeiros 90 dias. We’re cool with remote work.

Parte da equipa da Craft Wallet (faltam os Brand Ambassadors)

Quais são os próximos passos para a Craft Wallet num futuro próximo? Têm algum ideal para a vossa marca a longo prazo?

O próximo passo será lançar uma nova versão da carteira. Tal como com a primeira, iremos fazer uma campanha de crowdfunding. Continuar a inserção do produto nas prateleiras das lojas também é uma prioridade. O course of action que temos levado tem como objetivo aproximar-nos do nosso objetivo:

A wallet made with the best materials human ingenuity has ever produced, combined in an elegant, yet affordable way.

Porquê?

Amazing quality doesn’t have to cost you an arm and a leg

Tudo o que nós fazemos contribui para o alcançar da nossa visão. A nova carteira é o próximo passo na caminhada. Uma carteira que proporciona uma melhor experiência ao utilizador, mais pequena, leve e intuitiva.

No entanto, nós temos noção que o mercado das carteiras físicas está em vias de extinção. Cada vez mais os pagamentos são feitos por telemóvel, sendo que em países como a Suécia, os EUA, Canadá ou China muitas pessoas já não usam dinheiro físico. É o curso natural das coisas. Até lá vamos continuar por cá a retirar o máximo que conseguirmos do mercado.

A Craft Wallet é um caminho ou um fim?

Diria que é o início do caminho. Mais está para vir. Sinto que a Craft Wallet serviu para me lançar e estabelecer no mundo do empreendedorismo. Agora que a torneira está aberta, os projetos vão começar a fluir. À medida que vais construindo, vais ganhando confiança e know-how para criar ainda mais e as coisas vão acabar por acontecer.

No entanto, existe algo que é necessário ter sempre em atenção. À medida que vamos crescendo e ganhando experiência, passamos a tomar certos aspetos como certos e nunca mais os questionamos. Isto leva a que demasiadas coisas se tornem óbvias e deixemos de perguntar se agir de forma diferente produziria mais valor. É a mesma coisa que o perder a inocência de criança. Tudo tem de fazer sentido e se não faz é porque não é possível. No entanto, neste mundo, o impossível é apenas aquilo que não foi tentado de formas diferentes vezes suficientes.

Craft Wallet e o braço do Guilherme

O que achas que deve mudar no ensino e/ou governo em Portugal na ótica de ajudar os jovens a criar o seu próprio negócio?

A resposta a esta pergunta é super complexa, mas acho que pode ser resumida no seguinte:

Temos de ensinar as crianças desde muito cedo que não devem ter medo de falhar ou de tentar algo novo

Isto é algo muito difícil de corrigir, pois trata-se de algo cultural. Se Portugal fosse uma pessoa, era aquela que ia a corridas de carros para ver os acidentes. Em Portugal, as pessoas são ensinadas desde muito cedo, ainda que de forma inconsciente, que falhar é algo mau e que se deve evitar a todo o custo fazer algo novo ou diferente, pois o “risco é demasiado grande”. No final, ficamos parados ou andamos para trás.

Se queremos fomentar o empreendedorismo jovem, é necessário ensinar às crianças que quebrar o status quo é algo bom e saudável, não algo a evitar a todo o custo.


Bónus:

Aqui estão algumas das ferramentas sem as quais a minha vida no mundo das startups seria muito mais difícil. Aproveitem.

Melhores ferramentas (websites e apps):

https://producthunt.com/
http://startupstash.com/
http://gradstash.com/
http://sansfrancis.co/
https://sendgrid.com/
https://canva.com/
https://slack.com/
http://stackofstack.com
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https://medium.com/
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https://ladder.io/playbook
https://colordrop.io
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https://unsplash.com/
https://thunderclap.it/

Livros:

Zero to One: Notes on Start Ups, or How to Build the Future — Peter Thiel (#1 livro para mim)
The Lean Startup: How Constant Innovation Creates Radically Successful Businesses — Eric Ries
Pai Rico, Pai Pobre — Robert T. Kiyosaki
You’re My Favorite Client — Mike Monteiro
As Rãs que Pensavam que eram Peixes — Cristiano Ghibaudo

Melhores sítios para ficar informado:

https://www.wired.com/
https://www.fastcoexist.com/
https://www.fastcocreate.com/
https://www.fastcodesign.com/
https://www.fastcompany.com/
https://www.producthunt.com/
https://www.quora.com/
https://medium.com/
http://www.inc.com/
https://www.entrepreneur.com/


Maria Pereira — Departamento de Comunicação

https://www.facebook.com/NAMI.ISCTEIUL

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