Sobre identificações

Os yanomami numerados de Claudia Andujar mostram o lado de fora dos regimes de identificação. Como se sabe, o povo yanomami não usa nomes próprios. Mesmo a palavra (“yanomami”) é uma referência genérica, algo como “gente”. Os yanomami não carecem de ser semelhantes a si mesmos, porque no cosmo em que vivem não há “fora” ou “dentro” fixos. Tendo vivido entre eles, a artista Claudia Andujar, em um de seus movimentos, se põe a fotografá-los numerados, e a nossa percepção imediata pode até ser a de que se trata da fotografia identificatória de um presidiário. Essa visão, evidentemente, trai o seu dono, não o objeto visto. O texto que aparece na galeria do museu Inhotim (Brumadinho, Minas Gerais) onde estão expostas as fotos, nos diz que se trata de um esforço de identificação, que se propõe a enfrentar o risco da extinção. Uma publicação que traz fotos da artista ganha o título “A vulnerabilidade do ser”¹.

O que a obra acaba por tornar visível é que a força dos processos de identificação não é universal, não é necessária, nem eterna. A vulnerabilidade está do lado de quem a observa. É o visitante que suspeita da sua própria extinção, na sua própria língua. A identificação só se constitui e sobrevive em meio aos confinamentos, de diferentes modalidades, que ao longo da história do que chamamos civilização foram sendo engendrados (ideia de territorialidade). Inclusive, e especialmente, os confinamentos da palavra, no processo que culmina com a fixação das estruturas gramaticais e dos repertórios léxicos, com o estabelecimento das línguas maiores². As línguas maiores seriam como pirâmides para a babélica civilização ocidental: desejo de eternidade, visão de eternidade.

Presentes os confinamentos, entretanto, tão poderoso é o estabelecimento da identificação, que uma mudança de lugar social — ou, antes disso, um verdadeiro deslocamento subjetivo — ainda que possível, equivaleria a uma espécie de morte e renascimento. O modo como se produz, na língua, a semelhança a si — tema de tanta e tanta filosofia — tem como pressuposto a produção sistemática do desamparo. Assim, aliás, é que se ritualizam passagens de identidade, e é aí mesmo que intervêm as palavras de ordem, como forma de reproduzir, na língua, a transformação que se deu no sujeito. O corredor de cem metros rasos ainda é o mesmo após o tiro de largada, ainda que intensamente tocado por afetos, coração galopando, hormônios em ação. Mesmo ao cruzar a linha de chegada, ainda é o mesmo. Ao descobrir qual é a situação dos outros na relação consigo, após a chegada, bem, nesse momento já não é mais o mesmo, e ninguém mais ali presente é o mesmo, seja diante de si mesmo, seja diante dele. É assim que, na fala, as palavras de ordem ocorrem: num tempo e lugar que as espera, e pelo qual esperam. O tempo das mudanças incorpóreas.

Assim seria trocar de classe social. É assim que tememos que aconteça, tanto a mudança “para baixo” como “para cima”. O apostador da loteria aposta, secretamente, em não ganhar. E assim sempre ganha. Aposta como ritual de domínio do destino: “veja como eu sei o que vai acontecer: nada”. É uma espécie de anti-rito de passagem. Teme também empobrecer, é claro. Seria uma espécie de morte em vida, um banimento, uma anulação. Para afastar o medo disso lhe servem os rituais da repetição cotidiana, semanal, e assim por diante.

As formas disciplinares aparecem junto com a ascensão da racionalidade ao poder. O poder, para isso, precisa divorciar-se da virtude, passar a girar fora dos gonzos³. Uma relação ainda muito nova, ainda carente de confirmação da sua viabilidade — ainda que não se possa recomendar, ou mesmo considerar possível, um retrocesso. Pois as formas disciplinares são conjuntos, séries, até mesmo arquiteturas, de ritos de não-passagem, coletivos. O jovem que vai à faculdade e se forma não espera (mais) passar por uma mudança incorpórea. Espera continuar sendo a mesma pessoa, com outras prerrogativas (frias). É assim que servem como processos de identificação negativos, é assim que o capitalismo industrial produzia caminhos de fluidez entre paredes de concreto.

A emancipação do humano encontrou na literatura contemporânea— particularmente naquela que trata da educação — uma defesa intransigente. A pedagogia da autonomia⁴ de Paulo Freire talvez seja um texto privilegiado dentro desse conjunto. Ele nos fala de um abandono da anti-identificação que resultou das forças de desterritorialização, na defesa reiterada de uma tomada de consciência. Em defesa de um voltar-a-ser. O que se apresenta no mundo que o sucede é, surpreendentemente, um chamado radical ao não-ser, uma defesa da renúncia à intencionalidade. O universo dos dispositivos de controle, dos quais os aplicativos móveis parecem ser uma das encarnações mais maduras, propõem uma relação comunicativa algorítmica, mas não determinística, da qual a pseudo-consciência de massa parece sair esvaziada.

De que língua nos falam esses aplicativos — especialmente aqueles que ensinam línguas estrangeiras? Certamente não de uma língua maior renovada. Não se trata de cumprir a expectativa do sonho americano, por exemplo, ou, como em outros tempos, tornar-se francês, nem mesmo um “deixar de ser” algo menor. O refugiado aprende o idioma maior, por que ele(a) já está lá, mesmo que ainda não tenha abandonado a sua terra. É uma desterritorialização diferente, que se dá sem sair do lugar. Talvez o personagem “falante nativo”, a que tanto aspiram incorporar aqueles que buscam o aprendizado da língua estrangeira, esteja sorrindo para nós, que usamos esses aplicativos. Ele nos diz que o ensino da língua estrangeira na sala de aula da anti-identificação não poderia ter chance de êxito. Fica a dúvida sobre a possibilidade do aprendizado da tal língua, num mundo em que o ser está tão vulnerável.


[1] Andujar, C. A vulnerabilidade do ser. São Paulo: Cosac & Naify, 2005.

[2] Deleuze, G.; Guattari, F. Postulados da linguística. In: Mil Platôs. V. 2. São Paulo: Ed. 34, 1995. pp. 11–49.

[3] Fórmula que Deleuze (Crítica e Clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997, p. 40) toma do Hamlet de Shakespeare, ao tratar da reversão kantiana que coloca o movimento subordinado ao tempo, e não mais o inverso: “O Tempo está fora dos gonzos”.

[4] Freire, P. Pedagogia da autonomia — Saberes necessários à prática educativa. 53ª ed. São Paulo: Paz & Terra, 2016.