Sobre ano novo, cicatrizes e o universo

Final de ano. Tempo de mudança. Tempo de fechar ciclos e fazer resoluções.

Assim, na verdade, para o universo, do dia 31 para o dia 1 não muda nada. Ele vai continuar funcionando do mesmo jeito. A terra vai continuar girando, vai ser iluminada pelo sol e o dia vai nascer como o anterior.

O universo é indiferente a nossa existência. E está tudo bem. O que importa é que pensar em ciclos nos faz bem. Nos ajuda a entender o tempo passando. Nos ajuda a conseguir rodar simulações do futuro na nossa cabeça. Imaginar, fazer planos.

Aí, final do ano vira também um tempo renovação. Fazemos aquela limpeza nas nossas casas. Limpeza nos nossos quartos. Limpeza nas nossas coisas. Limpeza nas nossas emoções. Uma limpeza geral na nossa vida.

Em uma dessas achei um caderno. Um caderno que estava escondido em meio a tanta coisa. Abri para ver o que tinha e decidir o que ia fazer com ele. Não era exatamente um diário, mas encontrei muito de mim ali.

Encontrei memórias que eu nem sabia que existiam mais. Fui eu que escrevi o que estava ali. Essa realização foi muito importante. Porque, de alguma maneira, aquela pessoa não era mais eu. Agora, ela só existia naquele caderno.

Ali encontrei coisas que eu pensava. Como eu me sentia. O jeito que eu olhava para o mundo a minha volta. E vi que aquela pessoa não era mais eu, mas ela tinha me trazido até aqui.

Comecei a pensar na importância dessas cicatrizes. Essas marcas que ficam para mostrar que algo aconteceu ali. Essa escrita que, as vezes, só a gente sabe ler. Mas não pensei nelas como coisas ruins e sim como lembretes.

Lembretes de que foi nessa vida que fomos aquela pessoa. Lembretes que, de alguma maneira, evoluímos. Acho que olhar para elas com carinho é uma maneira de ser grato a você mesmo. A você do passado. Por ter passado por tanta coisa e permitido que você fosse esse você de agora.

Me prometi tentar registrar mais esses momentos. Não ter medo de cultivar essas cicatrizes. Como um presente para meu eu do futuro. E como uma maneira de imortalização do meu eu do presente. Porque sei que amanhã ele já não vai existir mais. Vai ter dado lugar a algo melhor.

No final das contas, acho que essas limpezas são muito sobre o que jogar fora mas também muito sobre o que devemos manter conosco.

Que venha o próximo ciclo.

Brigada eu.

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