Uma conversa sobre tentar lembrar sobre o que estavam conversando

Sabe aquele tipo de pessoa que faz você esquecer que tem um celular? Esse é o Uendel Quintela. Melhor amigo para vida. O Rick para o meu Morty. Dentro dos nossos 9 (quase 10?) anos de amizade, percebi que boa parte do os assuntos que eu me via pensando muito sobre tinham se originado nas nossas conversas. Fendas temporais onde parece que o resto do mundo não existe.

Porque, até quando a gente esquece o assunto, a conversa ainda é sensacional. Começamos, então, aqui:

[U] Onde eu tava mesmo? Porque que a gente chegou nesse assunto?

[V] Pfffffff…

[U] Que bosta vei…

[U] Viu esse é o problema de…


[V] Cara, não, a gente tava falando sobre pensar demais sobre…

[U] Não, isso foi a muito tempo atras, sacou?

[V] EU TO TENTANDO, EU TO TENTANDO. Eu cheguei em algum lugar

[U] É verdade, pelo menos você mostrou onde não é né? Já é uma boa

[V] Não é assim que a ciência funciona?

[U] Exatamente.


[U] Veio e voltou sacou?

[V] Mas a merda é, quanto mais você tentar lembrar, menos você vai lembrar.

[U] Não sei, as vezes funciona, quando eu tento muito lembrar assim, eu meio que forço a cabeça a construir alguma história.

[V] Mas ai você não sabe se você está lembrando…

[U] E ai, eu comparo essa história que eu estou fazendo com as evidências de memória que eu tenho seguras, sacou?

[V] Mas não tem nenhuma evidência segura de memória

[U] Essa, por exemplo, de que não foi a tanto tempo atrás, é um tipo de memória segura, que limita uma coisa. Sabe o que não é. É mais fácil do que saber exatamente o que é.

[V] É, o problema é que mesmo as nossas evidências de memória, não são totalmente reliable (ou confiáveis, hehe).

[U] Não, não são, são construções sempre, são sempre construções. Não é um filme tocando uma fita, é um livro sendo escrito de novo, basicamente, com peças de outros livros.

[V] É como se você estivesse copiando, só que copiando muito rápido, e ai você erra algumas coisas.

[U] Sim.

[U] Uma coisa que coloca bastante em perspectiva é essa coisa de ligar com livros, sacou, a quantidade de informação que passa de um lado para o outro do cérebro, saca? E, livros, porque a gente acha que passa muito pouca informação entre eles, mas não, são livros de dados, são terabytes de dados passando por redes neurais. Tipo locais, em lugares pequenos.

[V] É, não, e não sei se você já viu esse numero, mas eu vi em algum lugar que o numero de conexões que a gente tem no nosso cérebro é ordens de magnitude maior do que o numero de conexões que a internet inteira tem.

[U] Sim, ordens de magnitude significa…

[V] Zeros…

[U] Mas quantos zeros, isso que é importante…

[V] Mas de qualquer maneira, se você pensar, um zero é…

[U] Na verdade ordens de magnitude são zeros mas é melhor falar em potências. Duas ordens de magnitude é uma potência a mais. Elevado a dois.

[V] É, sim, eu sei, mas pensa assim, para mim é muito gráfico ver quantos zeros tem e ver que o numero vai ficando 10 vezes maior, 100 vezes maior, 1000 vezes. 1000 vezes maior do que a internet.

[U] Só que ai, olha que interessante, você gosta de pensar numericamente, eu gosto de pensar graficamente, plotar o gráfico em x e y e ver onde está a curva, sacou?

[V] Eu penso no tamanho do fucking numero.

[U] Aham, aham, nossa, você tem que ler sobre teoria numérica.


Dai para frente a conversa se desdobrou em tipos de numero, quais são os problemas que a gente ainda não resolveu, porque a gente usa base 10 e se algum dia a gente vai precisar de uma nova matemática. Mas esses assuntos ficam para um outro texto.

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