“Bridge of Clay” e o peso das palavras na obra de Markus Zusak

Autor do best-seller “A Menina Que Roubava Livros” tece uma saga familiar complexa e poética em seu esperado retorno literário.

O autor Markus Zusak anunciando o seu mais novo livro, “Bridge of Clay”. Imagem: Penguin Random House

[Essa resenha não contém spoilers!]

Eu não costumo dizer que tenho um livro favorito. Me esquivo dessa pergunta até não ter mais para onde correr, pois acho que a coisa que mais pesa no coração de um leitor é sentir que está menosprezando uma obra em detrimento de tantas outras que tiveram impactos diferentes na sua vida. Para nós, a literatura é realmente uma espécie de quebra-cabeça: cada pedacinho importa, mesmo que só nos demos conta disso depois de insistir muito em uns e esquecer de outros, tão essenciais quanto. Mas, vez por outra, me vejo jogado contra a parede e preciso ter uma resposta na ponta da língua para não parecer hipócrita, pois daria mais trabalho explicar o quebra-cabeça literário para algumas pessoas do que simplesmente mostrar a elas a peça que julgam existir e ser mais bonita do que todas as outras. Nessas horas, um único livro me vem à cabeça.

Li “A Menina Que Roubava Livros” – do escritor australiano Markus Zusak – pela primeira vez quando tinha doze anos e, claro, não estava preparado para receber a pancada que a obra carrega com toda a força e intensidade com a qual ela merece ser sentida. A história – narrada pela Morte durante o período da Segunda Guerra Mundial – da menina órfã que consegue sobreviver à onda de perseguição e tormenta em plena Alemanha nazista graças ao poder das palavras, é uma verdadeira montanha-russa sentimental que arranca suspiros e lágrimas até mesmo do leitor mais imaturo ou despreparado. A obra conquistou seu lugar nas prateleiras do mundo inteiro, catapultando a carreira de Zusak (que já possuía outros trabalhos publicados e igualmente dignos de atenção, diga-se de passagem) de tal maneira que todos os olhos se viraram, mais cedo ou mais tarde, para ele, desafiando-o vorazmente: e agora, o que você possivelmente pode querer fazer para superar isso?

De certa forma, acho que ainda existe uma visão deturpada sobre essa obrigação de “superar a si mesmo”. Mesmo que já tenha sido atingido o ponto mais alto, isso não quer dizer que os pontos mais baixos que virão dali em diante serão menos brilhantes ou merecedores de aclamação. Zusak será eternamente reconhecido pelo excelente trabalho que realizou com a história da Morte e da Ladra de Livros, mas, no momento, o que eu mais temo é que essa sombra que se projetou sobre ele impeça o seu mais novo trabalho de brilhar. E se tem uma coisa que ele merece, é brilhar.

Doze anos após o lançamento do seu best-seller internacional, o nome de Markus volta às livrarias com o romance “Bridge of Clay” (tradução literal: “Ponte de Clay” ou “Ponte de Argila”). Depois de reler e me encantar por A Menina Que Roubava Livros mais duas vezes, eu lembro claramente de vasculhar a internet em busca de notícias sobre o seu sucessor, e sempre me deparava com as mesmas declarações: Markus só havia escrito algumas páginas do livro, que continuava sem data de lançamento. Dias viraram semanas que viraram meses que viraram anos – doze anos – até que, quando eu e toda uma legião de leitores já haviam sucumbido ao esquecimento, sem mais nem menos o romance foi oficialmente anunciado, juntamente a um comentário do autor:

Hoje, eu sou uma pessoa completamente diferente daquela que escreveu A Menina Que Roubava Livros. O que é assustador, pois eu também sou uma pessoa diferente daquela que começou a escrever Bridge of Clay oito, nove anos atrás. Se eu não publicar esse livro agora, eu provavelmente terei que deixá-lo de lado.

O resultado é uma obra que evoluiu e mudou com o tempo, e que reflete exatamente isso a cada virada de página. Em Bridge of Clay, acompanhamos a história dos cinco irmãos Dunbar – Matthew, Rory, Henry, Clay e Tommy – órfãos de mãe e abandonados pelo pai, que tomam conta uns dos outros da maneira que é peculiar a cada um, em uma cidade hostil que parece não se importar com seus mal comportamentos e perspectivas de vida. O estopim do enredo é justamente a repentina reaparição do pai dos garotos, que retorna com um convite inusitado: ele precisa da ajuda dos filhos para construir uma ponte. O quarto filho, Clay, é o único que aceita a proposta do pai, e a construção dessa ponte – seja ela figurativa ou real – desencadeia uma onda de lembranças, conflitos e segredos familiares.

Cena do filme “A Menina Que Roubava Livros” (2013) dirigido por Brian Percival.

Longe da atmosfera de guerra e medo constantes que pairava sobre a Alemanha de Liesel Meminger, Bridge of Clay nos leva à bordo de uma jornada temporal que atravessa diferentes gerações da mesma família e percorre uma série de cenários sociais. A decisão do autor de brincar com a linha do tempo e deixá-la propositalmente desorganizada proporciona uma leitura que requer paciência e atenção – ao longo de suas mais de 500 páginas, o romance pula para frente e para trás entre os acontecimentos e nos oferece apenas pedacinhos picotados do enredo, que, exatamente como um quebra-cabeça, vai revelando aos poucos a sua figura completa. Diferente do que é comum aos romances policiais, recheados de cenas de perseguição e de reviravoltas constantes, o suspense construído por Zusak vem de dentro para fora, e reabastece o seu fôlego ao invés de tirá-lo: as engrenagens que movem a história são as revelações íntimas e psicológicas dos personagens. São os pequenos atos, os diálogos curtos e as descrições minuciosas que criam no leitor a sensação de estar andando (ou, no caso, lendo) em círculos, mas indo um pouco mais fundo a cada volta.

Isso acontece por uma razão, que pode ser determinante para dizer se iremos nutrir admiração ou repulsa pelo trabalho de qualquer escritor: Markus é um mestre das palavras e as utiliza a seu favor. Seus livros, apesar de extensos, são geralmente escritos em parágrafos curtos divididos em muitas linhas, e os capítulos variam entre duas, cinco ou no máximo dez páginas. A carta que ele guarda debaixo da manga é justamente a sua habilidade de dizer muito com pouco: a densidade de informações que poderiam se estender infinitamente é concentrada na simplicidade de uma simples frase – e o mais impressionante é que o impacto de tudo é preservado, para não dizer amplificado, por essa técnica. Em duas linhas, Markus nos faz conhecer mais sobre determinado personagem do que poderíamos desejar, e ao ler um só capítulo acreditamos tolamente ter avançado inúmeras cenas de um filme. Essa escrita característica e peculiar pode, obviamente, causar cansaço e levar à desistência de muitos leitores, mas em romances como Bridge of Clay, o peso individual que cada palavra conduz – cada significado ou possível interpretação que não foi colocado ali por acaso – é o que concede ao todo a sua consistência.

Mais uma vez, e para provar esse ponto, Zusak se utiliza de uma narração que carrega a obra inteira nas costas. Se A Menina Que Roubava Livros chamou atenção por ter a própria Morte como voz condutora da história que se passava no período mais sanguinário da história mundial contemporânea, Bridge of Clay se aproveita dessa estrutura mas segue por um caminho diferente: aqui, o narrador é Matthew, o primogênito dos irmãos Dunbar e o que se vê atuando como pai naquela casa desordenada, que reconta os acontecimentos de gerações passadas de sua família e nos oferece a sua visão acerca do papel e da complexidade de cada personagem. Matthew é um narrador imprevisível que se porta como onipresente e onisciente (o que instala uma sensação ambígua de dubiedade mas também de confiança forçada durante toda a leitura) e nós somos levados a acreditar que o protagonista da trama não é ele, e sim Clay – o mais tímido e recluso dos irmãos – porque ele assim nos afirma já nas primeiras páginas. Inevitavelmente, a escolha do narrador reforça a temática que está no núcleo da obra: as maneiras misteriosas e estranhas pelas quais se manifesta o amor entre irmãos.

Photo by Jacob Rank on Unsplash

Em outra mão, o autor continua confiando no seu uso e abuso das figuras de linguagem, como as metáforas e hipérboles, para dar ao livro uma carga lírica extrema que praticamente o eleva a outro patamar literário, seja esse qual for. Em A Menina Que Roubava Livros, nos deparamos com uma Morte capaz de emocionar com seu vocabulário poético e sensível, e ao mesmo tempo robusto e agressivo. Em Bridge of Clay, Markus faz mais um truque de mágica ao retratar a instabilidade e fragilidade das vidas dos irmãos Dunbar através de uma linguagem épica, abrindo espaço para paralelos com clássicos como A Ilíada e A Odisseia de Homero ou as magníficas esculturas de Michelangelo, que são em si peças fundamentais para o desenrolar da trama de Clay. Desde o ato mais banal – como abrir a geladeira na calada da noite – até passagens mais dolorosas – como as consequências inesperadas de uma corrida de cavalos ou o desgastar de um casamento – ganham um novo sentido nas palavras de Zusak, que transformam cada cena em uma pintura que vale a pena ser observada detalhe por detalhe. A beleza dessa leitura, se me permitem dizer, é não se deixar levar pela irritação ou frustração que podem surgir, e sim reconhecer o porquê demorou tanto tempo para que a obra ficasse pronta. Algo desse porte não se escreve do dia para a noite, nem mesmo nos tempos atuais.

No final das contas, o resultado foi esse: um livro sobre reconstrução. Uma história mutável e disfuncional assim como muitas famílias por aí – sobre garotos que chamam a figura de seu próprio pai de O Assassino, que se estrangulam mas também se abraçam em um intervalo de segundos, que colecionam um peixe, um gato, um pássaro, um cachorro e uma mula como animais de estimação, que foram forçados a aprender a tocar piano pela mãe, que por sua vez era uma imigrante que virou professora que virou uma vítima do Câncer, se tornando um divisor de águas em suas longas ou breves vidas, e, mais importante: sobre a segunda chance que eles têm de erguer uma ponte sobre todos esses enigmas e traumas, para se fortalecerem e poderem caminhar juntos em direção ao seu verdadeiro lar.

Bridge of Clay será publicado no Brasil pela editora Intrínseca, sob o titulo de O Construtor de Pontes, em dezembro de 2018.