Reação: O pagador de Promessas

Nassor Oliveira
Jul 25, 2017 · 5 min read
De: Anselmo Duarte, Brasil, 1962

Visão Geral da Obra

Zé do Burro (Leonardo Villar) e sua mulher Rosa (Glória Menezes) vivem em uma pequena propriedade a 42 quilômetros de Salvador. Um dia, o burro de estimação de Zé é atingido por um raio e ele acaba indo a um terreiro de candomblé, onde faz uma promessa a Santa Bárbara para salvar o animal. Com o restabelecimento do bicho, Zé põe-se a cumprir a promessa e doa metade de seu sítio, para depois começar uma caminhada rumo a Salvador, carregando nas costas uma imensa cruz de madeira. Mas a via crucis de Zé ainda se torna mais angustiante ao ver sua mulher se engraçar com o cafetão(Geraldo Del Rey) e ao encontrar a resistência ferrenha do padre Olavo (Dionísio Azevedo) a negar-lhe a entrada em sua igreja, pela razão de Zé haver feito sua promessa em um terreiro de macumba.

Reação

Eu tinha este filme salvo em meu computador há mais de um ano, salvo de alguma lista de melhores filmes brasileiros de todos os tempos, mas hesitei em ver na época e acabei não vendo, enfim… MEU DEUS! Que filmão! Não tenho palavras pra expressar o que você pode absorver de reflexão sinistra e crítica social desse filme, sério.

Análise

A característica mais destacada do filme no meu ponto de vista foi seu poder de captar uma reflexão social e metáforas que podem ser estabelecidas a temas super atuais.Temos alegorias alusórias a agitações sociais, tangenciando áreas como religião, imprensa, e até mesmo o empresariado, as quais vou desmembrar agora.

“Zé do Burro” é um fenômeno criado pela imprensa, genuinamente um homem simples que ainda naquela época (1962) já era relatado como um exemplo raro de pessoas que são inflexíveis e zelam por promessas cumpridas, com um vigor religioso que só se isolando em zonas rurais sem muito contato com a malícia e corrupção urbanas seria possível manter intacto. O choque dessas duas culturas tornou a adaptação ainda mais incrível pra mim.

O “bonitão” é a figura que, usando o filme como metáfora pra vida, é o empurrãozinho do mal, quando tudo que pode dar errado, dá errado (sem spoiler, quem ver, entenderá).

Metáfora

Algumas figuras são centrais no filme e geraram em mim as maiores reflexões: A figura do padre (religião) e da imprensa (repórter/editorial), os capoeiristas e as candomblecistas (marginalizados) e os homens do bar e da poesia (comércio).

O padre representa a falta de flexibilidade (questionável ou não) da instituição igreja católica diante da cultura miscigenada do Brasil. Em momentos o problema da “posição oficial da igreja” se coloca acima até da questão em si (Zé do Burro e sua promessa) e a Bahia é o melhor cenário possível para representar este fenômeno.

É interessante observar que a crítica teológica do Padre me parece razoavelmente fundamentada, assim como as alegações das religiões europeias e sua marginalização dos cultos afro-brasileiros. O grande problema é a falta de fundamento teológico para a quase fusão entre igreja-estado, que não só no filme como na realidade, acaba por tornar outras expressões culturais marginalizadas e/ou sem um lugar na sociedade.

O papel da imprensa foi o de criar o “ Novo Cristo” que na mente de muitos acabou por suprir carências, que ainda nos dias de hoje tentam suprir com ídolos pop, políticos e esportistas. A mídia rapidamente capitalizou com a história do “Zé do Burro” , se apropriando e aproveitando do mesmo, não interessando muito o desfecho de sua história, mas sim o quanto e por quanto tempo ela seria lucrativa.

É incrível a forma como o filme capta o poder de influência da mídia na sociedade e como ela tem poder de moldar a forma como os fatos são lidos, ou melhor ela PRODUZ FATOS, CONTA HISTÓRIAS E AS VENDE COMO VERDADE, sem tanto compromisso assim com o receptor, aliás, se preocupando mais com a Manchete do que com o conteúdo (nenhuma novidade) e o amplo acesso a notícias no dia de hoje só fez piorar o quadro: A tendência é a criação de manchetes cada vez mais apelativas para chamar atenção do leitor.

Os capoeiristas e as candomblecistas na minha interpretação representam o povo refém das macro-instituições e carentes de figuras representativas que possam expressar suas vontades, recebem da mídia a figura do “Zé do Burro” como aquele que vai solucionar esses problemas e a recepciona como bandeira .

Quantas vezes vemos uma trajetória pessoal ser absorvida por uma classe que se identifica com a história contada e da poeira se cria um novo ídolo que por muitas vezes frusta as expectativas? Ao próprio Jesus Cristo que tinha o maior plano de salvar a humanidade em termos eternos foi oferecida essa figura de redentor político e figura convulsionadora de multidões a curto prazo e mão armada e o mesmo negou, sabendo não só da efemeridade dessas convulsões como também da magnitude de seu legado, o resultado todos sabemos..

Os comerciantes representam todos aqueles que tentam e conseguem capitalizar com situações adversas, aqueles que vendem lenços na época de tragédias, aqueles que filmam uma desgraça iminente na intenção de viralizar na internet (sem fazer muito pra impedi-la enquanto podem) enfim…

Não me sinto confortável para analisar o papel das mulheres neste filme, mas se alguém tem uma reflexão legal pode responder aqui mesmo, não que não mereça destaque, me impressionaram muito e dão pano pra manga, mas não consegui traduzir muito bem.

Enfim, a ingenuidade “como todos nós deveríamos ser” do protagonista me lembrou muito o personagem Forrest Gump, e eu acredito que esse filme tem um poder sintetizador tão grande quanto o colega estadunidense em captar o espírito representativo da cultura de um país (no caso o Brasil) : Um território onde a mídia, o Estado através do poder coercitivo, a religião através da sua influência e tradição e a população não muito a par das macro-disputas se interrelacionam, com a corda, claro sempre arrebentando para o lado do povo.

Frase destaque

“Garanto que agora o padre vai abrir a porta da igreja, não há quem não tenha medo da imprensa”.

Credenciais

Oscar 1963 (EUA)

Festival de Cannes 1962 (França)

Festival de Cartagena 1962 (Colômbia)

  • Vencedor do Prêmio Especial do Júri.

San Francisco International Film Festival 1962 (EUA)

  • Vencedor (Prêmio Golden Gate) nas categorias:
  • Melhor Filme.
  • Melhor Trilha Sonora (Gabriel Migliori).

nassoroliveira

Provocando sobre o que me provoca.

Nassor Oliveira

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Cientista Político I Colaborador na Revista Subjetiva e Editor na Revista Marginália. Instagram: @nassoroliveira

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