Quando a banda volta a passar pela avenida

Nem sequer entendo como cheguei à circunstância de falar sobre o que eu quero falar nessa carta. Porque não existe um motivo específico, e se existe, é fútil como o simples fato de não desapegar de ter os pares vendo-me como o desconhecedor cultural do século XXI. Mesmo sem admitir, acredito que por isso troquei a chave das músicas que cantavam no fone de ouvido para coisas originárias dessa terra que meus pés pisam agora.
Mas falar desse assunto me toca com muito fervor, principalmente por ter essa personalidade orgulhosa e medrosa, optei hoje pelo mais alto nível de composição e paixão artística que pude encontrar na lista de músicas brasileiras da minha memória.
Obviamente cheguei ao Velho Francisco, me admirei e encantei de novo com aquele mais puro e lindo apanhado das mais profundas e belas poesias que aparecem em todas as suas canções, das Valsinhas aos sambas tão cariocas, como é esse brasileiro, apaixonado pelo Fluminense, e de olhos tão azuis.
E não tardou a eu chegar no caminho mais antigo da universalidade da música na minha febril e obsessiva mente, de quando ainda tinha bochechas róseas e olhos do profundo medo do mundo que sempre andou lado a lado comigo. Eu me recordei de já saber a letra daquela linda canção, tão brasileira, desde tão pequenino, e do teu orgulho de me ver cantando ela, tão portuguesa como só você.
Porque impreterivelmente as poesias do Chico me lembram do seu rosto e de como você olhava para mim. Acredito que tantas vezes sem entender o que eu era, desse meu jeitinho estranho, discordando de mim inúmeras vezes com certeza, já que sei que sua teimosia era singular, mas sem nunca me deixar ver que tinha dúvidas sobre o que pensava de mim.
Você só quis sempre me mostrar amor e eu sempre imaginei que isso vinha do fato que não importa por onde andei, você sempre viu em mim aquele menininho loirinho de bochechas róseas. A criança que era muito mais nova do que os primos da família e o irmão mais velho, não tinha muito onde ela ficar então cantar musiquinhas perto da vovó sempre foi uma opção bonita.
E o velho Chico nos deixou essa música, que é tão gostosa de cantar, que eu tão pequeno não precisava me importar com o que Buarque queria dizer com aqueles versos. A única coisa que eu entendia era que estávamos cantando canções de amor.
Engraçado que não sei se diretamente por isso, mas minha memória hoje de ti não se desvencilha de lembrar de canções de amor. Me lembro de ainda criança pensar, na simplicidade da minha cabeça infantil, que eu tinha sempre que pensar em coisas de amor para ti. Afinal a mamãe tinha o papai, e você estava tão sozinha porque o homem que tinha escolhido para ti, tinha te abandonado.
Por isso eu nunca o perdoei, não por ainda ter uma raiva, essa eu abdiquei, não quero mais nutrir, mas porque por ti queria manter as canções de amor e não suportava te ver tão sozinha como as vezes parecia estar. Mas era ingenuidade da minha parte achar que você não saberia se virar, você se virava muito bem tão antes de eu sequer vir ao mundo.
Ainda menina saiu da terra de Macedo de Cavaleiros com sua mãe e suas irmãs, eu sei que perdi grande parte da história, afinal ela aconteceu antes de eu nascer. Mas da parte que eu me lembro, eu te vi sendo tão mãe das suas irmãs, as vezes até ao ponto de incomodar as suas filhas por certo.
Era visível que você não tinha sequer tempo para ajudar todo mundo, afinal por nenhum dia da sua vida você parou de trabalhar. Mas com a sua simplicidade, ajudou tanto a tudo e a todos, porque você fazia valer esse valor da vida de dar um jeito de fazer aquilo que você queria, que mesmo que não fosse perfeito, era real.
Foi só muito mais tarde que eu notei o grande valor daquele jeito singular que conseguia cuidar dos netos que ficavam contigo de férias na praia. É triste que somos sempre muito crianças quando memórias tão boas acontecem no presente para nós, parece que quase de propósito, para que não possamos aproveitar aquela felicidade com plenitude.
Ou talvez não, na verdade o que deve acontecer é o contrário, quando crescemos e aprendemos a interpretar o mundo, perdemos a habilidade de sermos felizes com as simplicidades. Mas crescer faz parte da vida e foi importante o dia em que passei a ter a capacidade para entender sobre o que cantava o velho Francisco.
Te digo que continuou sua imagem estar juntinha de mim toda vez que ouço e interpreto Chico, como no dia em que no carro com a minha mãe entendemos mais a fundo pela primeira vez a canção Tanto Mar. Esse dia foi engraçado porque, mesmo que a letra não referenciasse nada que fosse relacionado à sua pessoa diretamente, simplesmente por ele cantar sobre o seu e nosso velho Portugal, pensei muito em você.
Acho que minha mãe pensou muito em você esse dia também, até porque se de alguém herdei tantos traços dessa minha única e peculiar personalidade, em grande parte foi dela, e algum dia de você, na linha genética que caminha por nós. Também acredito que por sermos tão parecidos, mamãe e eu, ela deve também quando lembra de ti, lembrar da infância.
Acredito que você nem sabia o talento que tinha com crianças, por isso foi tão grande como avó, certo? Até como bisavó, afinal eu estava lá e vi você brilhar nessa função, mesmo com todos os percalços que foi essa história para ti, você não admitiu até o último dia, mas amou que a sua bisnetinha veio no momento em que veio, porque você queria aquela chance e aproveitou bastante, conforme eu acredito que mereceu.
E para mim, continua gostoso lembrar de você desse jeitinho carinhoso e amoroso, porque para mim você foi só amor. Mesmo que tenha falhado com outras pessoas na sua vida, comigo você foi perfeita, sem errar nem uma única vez.
Afinal, quando eu fui criança ingênua você me deu amor, quando eu fui moça triste e rosa triste, você me deu amor, quando eu fui marcha alegre e lua cheia, você me deu amor. No final você sabia bem a letra, e deve ter cantado ela inúmeras vezes quando estava a toa na vida.
Você soube me ensinar que basta o amor te chamar, o bonito do amor é que ele volta a passar como a banda e para mim está passando já há vinte e cinco anos na minha mente quando penso em ti. Eu sei que esse amor vai passar por toda a minha vida, junto de suas belas canções de amor.


