PERDER

Ninguém que perder nada, espera. Peso, isso quem tem mais do que deve sempre que perder. Eu quero um pouco, uns 10kg, o resto troco por massa muscular. Mas quando a questão é material, daí sim, ninguém que perder.

Um casal precisa diminuir seus custos, o carro refinanciado era o corte a ser feito, mas o modelo e as condições do veículo não contribuíam para uma negociação rápida. A ideia era vender, quitar a dívida, e comprar um outro de valor menor.

O tempo passando, a próxima parcela batendo na porta, na busca por uma alternativa o anúncio “COMPRO SEU CARRO COM DÍVIDA” saltou nos classificados. Uma ligação, fotos e dados enviados via WhatsApp, em menos de uma semana… negócio fechado.

Aquele casal estava finalmente aliviado, as coisas pareciam estar melhorando, as contas diminuindo, o novo negócio do marido indo bem, a empresa da esposa passando por uma reformulação a economia de um modo geral parecia estar dando uma reagida.

O comprador apresentou um boleto, que dava como quitado o financiamento, os valores e dados batiam, tudo certo. Dois dias se passaram e a financeira ligando cobrando a parcela do mês – espanto. Tinha dado um “problema” no código de barras.

Passaram-se duas semanas até a perda total de contato com o comprador. Neste meio tempo ele estava negociando um Celta, valores, financiamento… e quitação do boleto? “Estou viajando mas amanhã na primeira hora farei o depósito”.

Alguns dias antes a ficha já tinha caído, mas nenhum dos dois queria assustar o outro sem ter a certeza, tinham caído em um golpe. Aquele cara simpático, que veio ver o carro acompanhado da esposa, que sabia onde o casal trabalhava e morava, gordinho gente boa…

Sumiu com o carro, tendo uma procuração assinada, sem deixar um único real. Era uma picareta de marca maior, safado, sem vergonha, vagabundo, ladrão que não utiliza de violência. Sua arma? A inocência, ausência de maldade, de uma família honesta.

Muitos vão dizer “mas como que foram cair?”. O marido costumava falar a mesma coisa quando ouvia estórias parecidas. Mas hoje ele sabe bem, o que é preciso, como é possível e constrangedor passar por algo assim.

A lição maior, nesta experiência, não foi em relação a uma negociação de um carro. Foi sentido na pele a dor de perder algo material, e assim perceber, onde verdadeiramente está o coração, ao que estamos apegados, onde depositamos a confiança.

É fácil falar que desta vida nada se leva, o difícil e seguir na vida sem aquilo que te levam.

Um B.O. foi aberto, o seguro não cobre estelionato, a dívida continua, tem o carro pra pagar mas não para andar. Ficou uma ponta de esperança, a transferência para outro não será possível, que em algum lugar um polocial iluminado consiga recuperar o carro roubado.

Pra encerar, um dos maiores clichês dito por tias e pais:

“vão-se os anéis e ficam os dedos”.