Um Cisco

Existe algo mais romântico do que cisco no olho?
Impossível!

- Espera, espera, espera!
Amor, um cisco…
- Deixa eu ver?
Ambos param e se encaram.
Ele de olho fixo nela.
E ela com apenas um olho aberto,
o espera com uma expressão de me salve, amor.
Há uma aproximação por parte dele.
A boca,
aquela que tanto beija,
aquela que é a porta dos sentimentos vindos da alma,
se direciona ao olho.
Está errado:
boca com boca, olho com olho, é o correto.
Mas a moça parece não se incomodar com a inversão de pares.
Está feliz, está segura.
O rapaz,
que com as mãos segura a cabeça da amada,
puxa o fôlego e faz um biquinho.
Beijará o olho?
Está errado, já disse.
Ele persiste e assopra.
Firme e contínuo.
Nem agressivo, nem passivo.
No ponto.
Um mundo frenético de piscadas é dado
e um sorriso corre o rosto da moça.
Parece satisfeita.
Como se o ar vindo dos pulmões dele
fosse algo diferente de CO².
Como se fosse um vento mágico.
Algo que faça toda a diferença.
E faz!
Ela lhe beija e agradece.
E dessa vez boca com boca.
Ele sorri triunfante sentindo-se o Super Homem.
Não importa o problema,
ele estará ali para salvá-la.
Dão-se as mãos e seguem seu caminho.
Felizes e apaixonados, seguem seu caminho.

Eu, de dentro da solidão do meu carro, parado no trânsito caótico das 18h,
presencio essa personificação do amor.
Amor que vem dos primórdios, que sobreviveu a internet e que ainda se mostra vivo nos recônditos das megalópoles.
O amor puro,
da divisão,
do estender a mão,
do querer bem,
do eu te amo.
Amor que, talvez, para o universo não seja nada.
Nem mesmo um cisco.
Mas que, talvez, para ela faça toda a diferença.
E faz!