As Birras e a sua Prevenção

Maria Inês Loio
NeuroGime
Published in
3 min readApr 1, 2020

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Durante esta fase em que os pais e as mães passam 24 horas por dia com os filhos, educar passa a ser um emprego a tempo inteiro. Para além de todos os desafios aqui impostos, ver a criança a desenvolver novas capacidades é uma conquista muito gratificante.

A reiteração das birras provoca tensão na relação entre pais e filhos e torna-se difícil controlar os comportamentos opositores da criança, levando a uma perda de controlo das próprias emoções no adulto. Contudo, a repetição e a intensidade das mesmas depende apenas da resposta e da reação dos pais. A resposta desadequada a estes comportamentos pode levar à intensificação da birra.

É importante deixar claro que as crianças pequenas não possuem maturidade para aceder a processos cognitivos que permitem lidar adequadamente com situações stressoras ou com frustrações. A criança recorre à birra para chamar à atenção e para manipular o adulto. Posto isto, as birras ocasionais não são um motivo de preocupação, mas sim uma oportunidade para aprender.

Estas birras podem manifestar-se através de comportamentos extremos como choro, berros, pontapés e até comportamentos auto-lesivos como atirar-se para trás, suster a respiração ou provocar o vómito.

É essencial que estes comportamentos sejam evitados e para isso, devemos ter em conta diversos fatores:

  • Confirmar se a criança sente sono ou fome;
  • Objetos como telemóveis e brinquedos que não sejam adequados à idade devem ser postos num lugar que não esteja à vista da criança;
  • Deve-se avisar a criança que alguma mudança irá ocorrer com alguma antecedência de forma a não a apanhar de surpresa (por exemplo: “daqui a 10 minutos terás de desligar o telemóvel porque vamos sair”)
  • Deve-se dividir o pedido/ordem que fazemos em tarefas pequenas e específicas (por exemplo: em vez de dizer “arruma a roupa”, devemos dizer “apanha 5 peças de roupa do chão antes de jantar”)
  • Podemos oferecer ajuda para algum comportamento que desejamos seja mais simples de realizar (vem fazer os trabalhos de casa, traz o caderno aqui para a mesa que eu ajudo-te”)
  • Devem ser oferecidas escolhas, de forma a dar uma sensação de controlo que não existe (“Nós vamos sair de casa, queres calçar os sapatos verdes ou as botas castanhas?”);
  • Dar elogios entusiastas logo após o comportamento pretendido, seguido de um toque/beijinho. O objetivo do elogio é criar hábitos como a repetição do comportamento.

O momento heureca de Seligman chegou (…). Enquanto limpava as ervas daninhas do jardim com a filha de cinco anos, Nikki, ele ralhou com ela por atirar ervas ao ar, ao que ela respondeu: “Papá, lembras-te de como eu era antes de fazer 5 anos? Dos três aos cinco anos, eu passava a vida a choramingar. Choramingava todos os dias. No dia em que fiz cinco anos, decidi que ia deixar de choramingar. Foi a coisa mais difícil que alguma fiz. E se eu consigo deixar de choramingar, tu também consegues deixar de ser tão resmungão”. Segundo Seligman, a Nikki acertou em cheio e, de repente, deu conta de que educar a Nikki não consistia em corrigi-la quando choramingava, mas sim em ampliar a sua força maravilhosa.

Excerto do livro “A ditadura da felicidade — Como a ciência da felicidade controla as nossas vidas” de Edgar Cabanas e Eva Illouz

Para que haja um controlo do comportamento, tanto das crianças como dos pais, é sugerida a criação de um diário de monitorização das birras, por forma a que as estratégias usadas para o controlo desta situação possam ser adaptadas e, assim, a eficácia das mesma, tenha alterações positivas.

Neste diário, é importante utilizar uma tabela que tenha os dias da semana (como uma agenda) e que tenha diversos pontos de registo, como:

  • Descrição de cada birra;
  • Duração;
  • Fatores desencadeadores;
  • Local;
  • Estratégias utilizadas para controlo;
  • Eficácia;
  • O que aconteceu depois.

Embora as birras sejam consideradas normativas no desenvolvimento da criança, é importante recorrer a um profissional quando estas aumentam muito a frequência, quando a criança causa danos físicos a si própria ou aos outros e quando os pais não conseguem lidar com estes comportamentos sozinhos e necessitam de uma ajuda exterior.

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Maria Inês Loio
NeuroGime