É melhor ser um polvo sozinho a viver infeliz pra sempre

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Ao criar uma conta no Tinder, o aplicativo, conectado com o Facebook, possui a opção de mostrar ao público as páginas que você curtiu, como uma espécie de curadoria de ‘’áreas de interesse’’.

Dessa maneira, ao dar o seu precioso like para um indivíduo palatável no app, além da barba, barriga de gominho, abraço na árvore ou no tigre adormecido, seja lá qual for o seu gosto, você também pode justificar o match para si mesma ou para a sociedade com os tais interesses em comum.

De forma bastante óbvia, quanto mais genéricas as páginas curtidas entre vocês (“Brasil”, “Facebook”, “Mark Zuckerberg”), maior é o abismo entre a sua personalidade e a do crush, e maiores são as chances da conversa não sair do ‘’oi, tudo bem, não uso muito isso aqui, tá frio hoje, né”.

Já se os likes compartilhados forem em páginas de política, movimentos sociais, séries e filmes, na pior das hipóteses, mesmo que a cerveja esteja quente, o papo no primeiro encontro tende a fluir melhor. Dizem. (Não uso muito isso aqui.)

Além dos outros fatores que auxiliam muito na busca, como os amigos em comum e o que cada um descreve na própria bio, um bom ponto de partida são mesmo essas páginas que curtimos espontaneamente, sem a intenção de criar um perfil gostável pra ninguém. É o tipo de coisa que diz mais sobre nós do que imaginamos ou controlamos, e precisamos desse tipo de afirmação para confortar nossas próprias cabecinhas bem criadas, preocupadas com o perigo de falar com estranhos na internet.

“Ele não é só um desconhecido na multidão, com 26 anos e com um gato no colo sentado numa rede. Gosta de cachorros de peruca e odeia food trucks gourmet, só pode ser uma boa pessoa.”, pensamos nós. (Ou só eu?)

Um comportamento parecido ocorre no filme “The Lobster” (2015), que se passa num futuro próximo onde os habitantes de uma cidade fictícia não podem viver solteiros, sendo este um destino triste, e em último caso, até mesmo perigoso, como ilustra a cena do solitário engasgado com uma azeitona sem ter quem o faça uma Manobra de Heimlich que seja.

Para escapar dessa condição e encontrar a suposta felicidade, os viúvos e solteirões buscam O Hotel, serviço que junta pessoas sozinhas em diversas atividades como dançar e nadar para que possam se conhecer, se apaixonar e ficar juntos, esperamos, para sempre. Caso não consigam encontrar ninguém no período de tempo pré-determinado, serão transformados em um animal à sua escolha, daí o nome do filme.

O curioso está no respaldo para os romances acontecerem, quase seguindo uma lógica matemática para as relações humanas que a história parece criticar nos dias de hoje: se fulana e eu mancamos, somos míopes, sangramos pelo nariz ou até mesmo nos encontramos desprovidos de sentimento, seguimos o cálculo e somamos compatibilidade mais interesse, chegando assim até a felicidade incondicional. Só dá errado se você subtraiu o que não devia ou esqueceu de pular uma casa.

Longe dos aplicativos de paquera e filmes cabeçudos, no lado de cá dos relacionamentos reais, sabemos que gostos em comum são interessantes, mas não fundamentais para manter uma relação viva e respirando. Mesmo assim, vemos o tempo inteiro casais que tentam a todo custo transformar o outro no um, sem conseguir entender que personalidade e opiniões diferentes foram o que o trouxeram até aqui, afinal. Aprender coisas novas é a melhor parte de qualquer interação humana, mas querer que a outra parte vista a sua pele à força não é.

Vivemos um momento em que ficar sozinho parece tão ruim que forçamos compatibilidade e interesses em comum onde eles não existem e nem precisariam existir. Somos parecidos com o personagem do filme que cogita machucar o nariz todos os dias, pelo resto da vida, só para sangrar acompanhado e nunca mais só, quando muitas vezes seria melhor apenas aceitar seu destino e virar um polvo solitário no oceano.

Polvos são inteligentes, conseguem resolver problemas e encontram saídas para labirintos, mostrando-se muitas vezes mais engenhosos do que muitos seres humanos.

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