Éramos Rivais Muito Antes da Esquerda e da Direita

Fomos polarizados durante a vida toda — só demoramos para perceber isso

De 2013 pra cá, você obrigatoriamente escolheu se a política de esquerda tem mais a ver com aquilo que você defende ou se é na de direita que encontra ideais mais parecidos com os seus. Não adianta dizer que você é isento; nesse âmbito, ficar em cima do muro significa optar pelo lado que estiver vencendo — o que não o livra de ser xingado por ambos.

E de onde é que vem toda essa polarização? Bom, pra início de conversa é importante lembrar que as brigas com colegas de trabalho e os desentendimentos em reuniões familiares não começaram quando “o gigante acordou”.

Formamos grupos rivais muito antes disso. Na infância, eram os clubes do Bolinha e da Luluzinha. Depois, na adolescência, a segregação por gosto musical e, daí pra frente, só ladeira abaixo: o diferente não passa — e se passar, é com ressalvas.

Durante a vida toda, nos unimos a grupos de pessoas que pensam como a gente, incluem e excluem os mesmos parâmetros, consagram e condenam os mesmos comportamentos. Isso torna bastante difícil a pluralidade de ideias — senão impossível.

Não é como se fosse obrigatório concordar com tudo e todos, mas será que precisamos mesmo tapar as orelhas e fingir que não estamos escutando o que os outros dizem?

Existe aí uma questão narcísica — nós damos preferência àqueles que se parecem conosco — mas não é só disso que o problema se trata. Parte da culpa vem do fato de sermos filhos de uma pátria majoritariamente monoteísta e, por isso, acostumados a um tipo de pensamento extremamente dualista. A ideia é a seguinte:

Se existe apenas um Deus e nele há tudo o que há de bom, então ao Diabo — o outro lado — só podemos atribuir o que é ruim. Essa razão binária é reforçada e perpetuada em nossa cultura independentemente de crenças individuais. Para enxergá-la, basta reparar que, sem perceber, passamos a vida julgando tudo o que vemos: desde pequenos, o certo e o errado parecem sufocar todas as nuances, e logo passamos a catalogar as coisas em pastas com etiquetas que nunca serão questionadas. Isso vai nos distanciando de quem pensa diferente e unindo a quem tem opiniões semelhantes. Tomamos partido muito antes de conhecer esquerda ou direita.

O que mudou?

O ponto é que, nas dualidades mais comuns, ainda há saídas: o eclético não briga nem com o roqueiro, nem com o sertanejo; o agnóstico deixa os ateus e os crentes em paz; Botafoguenses não dão nem bola para Fluminenses e Flamenguistas se pegando a tapas.

A política, por outro lado, não nos deixa escapatória. Além de ser complexa demais para a neutralidade, ela é uma pauta que afeta a todos, não apenas a quem se preocupa com ela. Soa como novidade porque, há alguns anos, ainda encontrávamos com certa frequência aqueles que acreditavam que falar sobre política não levava a absolutamente nada. A politização — fenômeno de passar a conhecer e discutir essa pauta — só atingiu as massas depois das manifestações de 2013, quando o povo sentiu que era possível incomodar os poderosos por meio de protestos—ainda que, naquele momento, apenas uma pequena parcela de manifestantes soubesse realmente o que estava reivindicando.

A partir dali, a política deixou de ser um tabu. As pessoas pararam de dizer que era bobagem tratar desse tópico e passaram a debatê-lo com família e amigos; de repente, todos criaram opiniões próprias sobre o assunto.

E o que acontece conosco quando, inseridos numa cultura que reforça a postura taxativa, de ordem dualista e razão binária, passamos a formar nossa própria opinião a respeito de algo? Sim, nós afastamos aqueles que pensam de maneira diferente da nossa e nos unimos a quem tem ideias semelhantes, reduzindo tudo e todos a dois lados bastante familiares: o certo e o errado.

Ao nos conformarmos com a ideia de polos opostos, sem aceitar nenhum intermédio entre eles, não há debate que possa nos salvar de nossa própria ignorância. Pois sim, já éramos rivais muito antes da esquerda e da direita; mas agora somos também por causa destas.