6 maneiras de ser expulsa de uma cidade

Sobre leis de Murphy, viagens, imprevistos e desesperos

Galileu, que nasceu e estudou em Pisa, disse uma vez: “Duas verdades nunca se podem contradizer”. Minhas duas verdades não contraditórias para essa história são:

  1. Mala pesada não combina com chuva;
  2. Nada combina com nada quando tudo dá errado.

Para explicar o cenário: eu havia ido visitar um casal de amigos na Irlanda e aproveitamos para fazer uma programação mochileira para conhecer outros países. Na parte italiana do roteiro o plano foi: fazer check-out do hotel em Roma pela manhã e ir até Pisa para visitar a Catedral, a Torre e o Battistero. Como as três atrações ficam na Praça dos Milagres, não havia como dar errado.Tudo simples. Tudo fácil. Tudo certo. Mas….nada como o esperado.

Vamos agora a duas questões:

A mala: Passaria o dia com minha mala pequena, pesada e sem rodinhas.
O tempo: Dizem que para quem está viajando não tem tempo ruim. A pessoa que disse isso pela primeira vez nunca caminhou numa Pisa chuvosa com uma mala sem rodinhas.

Chovia. E chovia muito. Chovia tanto que quando o trem chegou na estação de Pisa a vontade era de ficar lá esperando o horário da volta. Mas ir para lá sem ver a Torre e, mais ainda, sem tirar a clássica foto seria como aquele papo batido de ir para o Rio de Janeiro e não ver o Cristo.

A foto tinha que sair, então, chegando na Praça dos Milagres (onde estão as principais atrações), percebi que nada era como eu imaginava. No lado direito, várias barraquinhas de souvenirs. Resolvi que lá seria O lugar de proteção contra a chuva e para posar para a foto (eu e todos os turistas daquele dia tomamos a mesma decisão).

De repente, lá estava eu, me espremendo numa das barraquinhas com o sorriso já congelado e movimentando o braço de acordo com as instruções que eu ia recebendo: mais pra direita, mais pra esquerda, pra cima, não tão pra cima.

A chuva continuava caindo e era um dia frio de inverno. Sabe quando começa a cair um temporal e as pessoas se espremem no ponto de ônibus procurando um cantinho que não molhe tanto? Era assim que eu estava, somada com o fato de que ao mesmo tempo em que era espremida, meu braço ficava levantando e abaixando, indo e vindo. Mentalmente eu comecei a odiar toda a ideia. Internamente senti a bexiga pedir socorro, a cabeça a latejar e um calor que me fez tirar o casaco.

Fotos tiradas, para comprar o ingresso para subir a Torre teríamos que atravessar a Praça. Como estava chovendo, meus amigos saíram correndo. Eu até tentei correr por uns 5 segundos, mas decidi que jamais chegaria inteira até o outro lado e voltei às barraquinhas de souvenir.

Protegida da chuva e ajudando os turistas a tirarem suas fotos, eu já estava me conformando que minha visita à Pisa se resumiria a ficar dando instruções de movimentação do braço. Resolvi aproveitar meu tempo ali e comprar uma mini Torre para minha mãe e um ímã para minha coleção. A partir daí, tudo desandou em 6 etapas:

1 — Abri a mala para colocar minha compra entre as roupas, para protegê-la. Apalpando minha bagagem, senti que minha roupa estava molhada. Olhei minha mala por baixo e vi que estava encharcada. Minha vontade era de sentar e chorar. Olhei ao redor e quando vi que não havia lugar seco que eu pudesse chorar em paz, lágrimas escorreram.

2 — Decidi que eu precisava me acalmar para visitar a Torre e a Catedral, afinal, “quando voltarei para cá”? Como tudo que é ruim pode ficar pior, quando comecei a atravessar a praça a alça da mala escapou e ela caiu numa poça. Ouvi um grito vindo de longe, mas não dei bola.

3 — Achei um cantinho coberto do lado de fora da Catedral. A essa altura estávamos — a mala, as roupas, eu e minha bolsa - ensopadas. Foi aí que eu me dei conta que faltava algo em mim. Como num flash, me vieram à mente os gritos que eu ouvi e avistei a barraquinha de longe. Meu casaco havia ficado lá. Minha cabeça começou a doer mais, o estômago a roncar e, de uma hora pra outra a bexiga encheu no nível máximo (incrível como vontades fisiológicas aumentam em situações de desespero).

Contei minha história para um grupo de turistas. O desespero estava estampado em mim e eles se prontificaram a cuidar da minha mala enquanto eu buscava meu casaco.

4 — Casaco em mãos e de volta à mala, subir a Torre havia virado questão de honra. Determinada, cheguei ilesa na bilheteria. Lá, acabei me encontrando com meus amigos e fomos para a fila do ingresso. Abri minha bolsa para pegar o dinheiro e senti que a parte de dentro estava grudenta. Meu hidratante havia vazado INTEIRINHO pela bolsa, e, o pior, melecado completamente meu estojo para lentes de contato (meu único estojo naquela viagem). Se eu estava com uma cara péssima, a atendente estava pior ainda, especialmente depois de ter pego um dinheiro um pouquinho melecado do hidratante. Apesar disso, foi ela quem a falou a melhor coisa que eu ouvi naquele dia: “malas e bolsas devem ficar no guarda-volumes”.

Já mais aliviada, fomos para a fila da Torre. Ao entrar, ouvimos a explicação do guia e subimos os quase 300 degraus. Não sei se foi pela inclinação da subida, ou por todo o stress, mas a dor na minha cabeça piorou.

Ironicamente, lá em cima da torre inclinada voltei a encontrar meu eixo. Sabe aquela sensação de missão cumprida? Pois é, respirei e até esbocei um sorriso. Comecei a andar pela Torre para ver a cidade do alto e senti meus pés boiando num lago nas botas que eram para ser impermeáveis. Meu sorriso sumiu e a nuvem negra voltou a pairar em mim.

5 — Depois da Torre, tínhamos um pouco de tempo ainda para a Catedral. Eu estava na porta procurando meu ticket quando encontrei o que sobrou dele no bolso do meu casaco: como ele estava molhado, o ingresso acabou rasgando. Um rapaz que cuidava da entrada não queria me deixar entrar. Implorei e fiz sinal para minha bolsa, minha bota, meus cabelos, minha roupa e para o céu (numa tentativa desesperadora para que ele entendesse que não fui eu que mandei a chuva). Ele entendeu. Assim, dentro da Catedral pensei que poderia encontrar paz. Respirei. Fui tirar minha máquina fotográfica da bolsa (melecada) e meu remédio para dor de cabeças caiu. Caiu, saiu deslizando e sumiu. Até hoje deve estar perdido por lá.

Conta a história que Galileu, aos 17 anos, estava assistindo a uma cerimônia na Catedral de Pisa quando observou um lustre que oscilava no teto. Controlando o tempo pelos seus próprios batimentos cardíacos, verificou que o intervalo entre cada oscilação era sempre o mesmo, não importando a amplitude do movimento. Repetiu a experiência mais tarde e sugeriu que essa característica do pêndulo poderia tornar os relógios mais precisos. Se hoje eu tivesse que descrever a Catedral, não conseguiria. A única coisa que lembro é que as veias na minha cabeça pulsavam enlouquecidamente. Se eu fosse Galileu, seriam as batidas na minha cabeça que controlariam o intervalo das oscilações.

6 — Cansada física e emocionalmente, dando por encerrada a visita à Pisa (e agradecendo aos céus pelo momento de ir embora), fomos ao ponto de ônibus para voltarmos até a estação de trem. Como boa samaritana, ajudei uma senhora com dificuldade para subir o degrau do ônibus. Fomos as últimas a subir e paramos bem próximas à porta. Minha mala estava esmagada num canto e eu, cansada, fechei os olhos exausta, com fome, dor de cabeça e já sem bexiga. De repente, senti um peso na minha bolsa: era a senhora mexendo nela. Puxei a bolsa com toda minha força e bati meu cotovelo no vidro. A porta estava aberta ainda e a senhora desceu correndo do ônibus.

Naquele momento o pouco de dignidade que me restava foi embora e aproveitei para desabafar todas as emoções presas em mim. Assim, numa cena de ópera italiana, comecei a xingar a senhora. Ela estava na rua, me xingando também. Num desabafo geral, xinguei a senhora, a mala, a vendedora da bota, os souvenirs, meu cotovelo, Galileu, todo mundo envolvido na construção da Torre, a chuva, o ônibus, o hidratante e a Catedral por ter engolido meu remédio pra dor de cabeça, tudo ao mesmo tempo.

E foi assim que deixei Pisa: sem conseguir cumprir todo o roteiro, com mala e roupas molhadas, bolsa melecada por dentro, pés numa lagoa, com fome, frio, cabeça latejando, bexiga estourando e com o cotovelo doendo.

É também de Galileu a frase “Quanto menos alguém entende, mais quer discordar”. Bom, eu entendi muito bem e sou obrigada a concordar que Pisa, naquele dia, não me queria ali. Mas só pra constar: um dia — de verão, calor e sol — eu volto pra lá =)

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