A ansiedade e o voo leve de uma borboleta amarela

Ou: Como observar uma borboleta me fez perceber que podia abraçar e ‘despedir-me’ do pânico

Personagens cutucam-me em busca de mãos para digitar suas histórias. Às vezes estou parada no metrô observando o vai-e-vem urbano de São Paulo e, de repente, sou interpelada por uma criança do interior do país, que me chama lá no fundo e dispara a falar sobre descobertazinhas diárias de sua vida. Ou estou em casa andando de um lado ao outro enquanto ajeito as coisas e encontro-me com um idoso sedento para contar sua história.

Desse modo, ao conviver com essas “pessoas”, histórias que (quem sabe?) estão por aí — ou poderiam estar — vou me entendendo pouco a pouco. Há muito de mim em tudo isso, tanto na criança quanto no idoso. Escritores se doam um pouquinho em cada rabisco. Mas hoje vim aqui contar um pouco sobre uma mulher de 29 anos, que se mudou para a ‘cidade grande’ em busca de… bem, do que mesmo?, de qualquer coisa que seja nomeado “sucesso” por aí e, de um tempo para cá, vem indagando muitíssimo sobre o que é importante, o que ela quer etc.

Que fique claro: ela não quer passar “lição de moral” e nem soar pragmática, contudo achou importante contar sua história (uma pequena partezinha dela, claro). Sem mais suspenses, porque já ficou evidente que essa mulher sou eu; porém, poderia ser você, certo?

O que peço é que você leia este relato com paciência, pois não estou muito acostumada a escrever este tipo de texto, me soa estranho. Mas, espero que ele possa ser tão leve quanto pesado, na medida necessária por você neste exato momento.

A borboleta amarela e a filosofia da felicidade

Dia desses, uma borboleta amarela passou perto de mim, voando sem pretensões, lindamente, e me chamou a atenção. Estava lendo na beira da piscina, mas logo desviei o olhar assim que aquelas asas brilhantes passaram por mim. Achei de uma delicadeza tão arrebatadora, que me permiti apenas contemplar, mais nada. A história poderia acabar por aqui, porque foi apenas isso o que aconteceu naqueles instantes.

Porém, enquanto ela passava de um lugar ao outro, de uma cadeira ao guarda-sol, lembrei-me de que Rubem Braga certa vez escreveu exatamente sobre uma borboleta amarela que ele vai seguindo e, então, destrincha uma crônica das mais lindas (ele era mestre no gênero, não é?).

Até aí, você pode pensar, o que tem isso? Pois bem, o que quero contar aqui é que, naqueles minutos, percebi que estava simplesmente ocupada em olhar uma borboleta pequena e amarela, além de poder sentir os impactos que um inseto despertou em mim e em outro escritor no mundo. Simples assim.

Naqueles instantes, eu havia seguido o voo não só literalmente, mas ainda metaforicamente. Transportei-me inteira para a coisa mais preciosa do mundo: o presente.

E quando falo de presente — do aqui e agora — sinto como se estivesse fazendo uma meditação (e não é isso mesmo que se trata?). Aliás, utilizo essas duas palavras como um mantra em minha vida há cerca de dois anos.

Aqui e agora, aqui e agora, aqui e agora. Fui salva por esse mantra.

O pânico na minha vida

Era fevereiro de 2017 quando tive uma das viroses mais fortes da minha vida. Estava na aula da minha pós-graduação e, de repente, meu intestino deu um grande nó, saí correndo e, puf, começou uma luta entre tempo X espaço X corpo. Mal chegava na sala, já tinha que voltar ao banheiro. Meu estômago parecia pesar 800 quilos. Percebi que não poderia mais ficar ali ouvindo um gentil professor repassar seu conhecimento durante horas, por isso pedi ao Paulo para que fosse me buscar. Precisava ficar em casa.

Acontece que fevereiro é mês de carnaval — pelo menos foi naquele ano. Assim, alguns bloquinhos brotavam nas ruas da Vila Madalena, onde estudava, o que gera trânsito e congestionamentos… Quando estava no carro, tentando chegar em casa em confronto com filas quilométricas de veículos, acredito que tenha sentido um grande e irracional pavor pela ideia de passar mal ali, sem conseguir sentir conforto.

E no meio do meu caminho veio um ataque do pânico.

Ataque do pânico aos 27 anos

Um ataque forte que me fez perder o controle sobre o meu corpo. Não sentia as pernas, os braços, minha barriga pulava. Hiperventilei, assim minhas unhas ficaram azuis. Quando chegamos ao hospital mais próximo (enfrentando o tráfego que parecia interminável), tiveram de me colocar numa cadeira de rodas e, então, entrei pela emergência.

Quem já teve um ataque do pânico sabe o que isso significa. É a coisa mais pesada porque você pode passar, é a certeza da morte em vida. Pois eu só conseguia pensar que estava morrendo, questionava-me se já havia avisado ao meu parceiro de que gostaria que meus órgãos fossem doados.

Eu tinha 27 anos, exames em dia, era véspera de carnaval, havia sido promovida no trabalho, estava fazendo pós-graduação, morava em um apartamento lindo com uma pessoa que amava, sempre tive apoio incondicional dos meus pais… E estava entrando no hospital com o pensamento fixo de que enfrentava a morte. Por quê?

Na situação extrema (pois, para piorar, deixaram-me sozinha numa sala de espera para atendimento), tive de retirar forças de “algum lugar”, então consegui respirar com mais tranquilidade, tentando me concentrar na vida enquanto buscava alguém no corredor que pudesse me fazer companhia (talvez para que eu não morresse sozinha). O Paulo teve de ir fazer minha ficha… E não aparecia. Tudo é muito nebuloso durante um ataque de pânico, não dá para saber há quanto tempo estamos naquela situação.

Em algum ponto do meu próprio caos, comecei a respirar de maneira profunda (havia começado a fazer yoga há pouco), a mentalizar coisas boas, fazer algo parecido com oração, mas era difícil pensar em uma frase completa naquele momento. Por fim, pela própria característica do quadro clínico, que é passageiro, fui melhorando.

Mas o choque que dá quando você percebe (eu descobri sozinha, minutos depois de já estar melhor, aos prantos) que teve um ataque é surreal. Eu não acreditava que isso poderia ter acontecido comigo: logo eu, alguém tão calmo? Nem um pouco ansioso, tão controlado? Por quê?

É… Como a gente não se percebe às vezes, né?

Todo o ano de 2017 foi uma espécie de contração. Quer dizer, já vivia esse movimento há algum tempo (ainda não sei quanto), mas em fevereiro eu cheguei ao ápice.

Apesar disso, hoje posso dizer que o primeiro e único ataque do pânico na minha vida me serviu de gatilho para ‘acordar’, de certa maneira, a fazer buscas muito profundas, uma tentativa de me ouvir e de me respeitar, movimento que vem me guiando até hoje. E vai me acompanhar para o resto da vida, tenho certeza. Com momentos de contração e outros de expansão, claro, nada é estático.

E o que a borboleta tem a ver?

E a borboleta amarela? Bem, contei sobre isso porque sinto que foi ela que me fez sentir que precisava (e que queria) falar sobre todo esse meu processo publicamente, houve um insight.

Naquele momento de contemplação, consegui sorrir de forma muito real, sabe? Sem mexer a boca. De maneira muito verdadeira e íntima. Entendi que eu me sinto mais segura. Eu vivi um instante de felicidade, um momento de graça. Naquele momento, consegui “perdoar” meu ataque e, finalmente, após quase dois anos, consegui agradecer por ele.

Calma, não digo que isso foi bom, que em algum milésimo de segundo conseguirei desejar isso para alguém. Não. Não desejo para ninguém, é péssimo. O ideal, claro, é a gente não deixar chegar a este ponto, não podemos nos deixar doentes. Contudo, hoje consigo perceber a importância desse “movimento” que me fez olhar para mim sem desejar mais máscaras.

Havia paralisado por minutos, perdi o controle total do meu eu. E por não querer nunca mais que algo assim ocorra novamente, busquei entender como fui parar ali… Até chegar ao voo leve de uma borboleta.

O processo duro e penoso do autoconhecimento

Vale lembrar que não é de uma hora para outra que conseguimos fazer isso. Perdoar-nos (mesmo quando não existe culpa! Doenças mentais e psicológicas são doenças), entender o que você tem etc. exige muito de nós. Dá um trabalho danado, requer nossa paciência e a empatia daqueles que estão mais próximos de nós.

É processo longo, de muitas hesitações, muitas lágrimas, muito medo, muita dor, muita insônia. Fiquei por meses dormindo picado, acordando com o coração acelerado, dando pulos na cama. Por noites, eu precisava que o Paulo me desse a mão e dormisse bem próximo. Alguns dias, enquanto trabalhava na redação, por exemplo, sentia chegar algum ‘sintoma’ de uma doença terminal e, assim, chegava à conclusão nada racional de que estava prestes a morrer.

Nessas horas, respirava e tentava continuar. E eu sei que nem sempre é possível “continuar”, apenas sobrevivemos.

Quem é você?

Nos últimos dois anos, tenho focado em tentar me entender, me conhecer (o que nunca irá ocorrer 100%, eu sei). Já no início dessa busca sem fim, percebi que estava assumindo algumas características que não eram intrínsecas a mim, outras que não me cabiam mais, a maioria imposta a minha personalidade por outras pessoas.

E a gente vai acreditando e abraçando rótulos. Foi assim que assumi que, não, nunca fui tão calma; posso sim ter engolido muito sapo e fingido que não “estava vendo”, mas no fundo eu estava com raiva, decepcionada, traumatizada, dolorida. Não! Eu não sou uma pessoa tão dependente como imaginava, faço muita questão do meu espaço e me dou bem com isso… E assim por diante.

Questionei-me da cabeça aos pés. Entrei em parafuso com algumas demandas, revisitei sonhos que negava há anos, enfrentei defeitos, assumi qualidades. Refleti sobre escolhas que estava fazendo há mais de 10 anos — e, finalmente, falei em voz alta (de verdade) para que eu pudesse escutar: “estou fazendo mais coisas do que é saudável para mim!”.

Entendi que assumir tantos compromissos poderia parecer “lindo” (e realmente aquelas atividades eram todas importantes, não é demérito), mas estava me fazendo esquecer do que realmente importava. Levei à consciência de que a agenda lotada muitas vezes gerava a “admiração” de conhecidos, o orgulho e a vaidade dentro de mim… Mas, a pergunta é: e daí?

Eu havia ficado doente por causa de um estilo de vida que não me permitia ter nenhum fim de semana sem compromissos profissionais. E quando tinha tempo livre, sentia-me culpada (ai, tanta culpa!). Estava trabalhando 12 dias, até 21 dias seguidos, liderando uma equipe de 10 pessoas que também trabalhavam à exaustão — e ainda estudava inglês, espanhol, português, para o curso do MBA. Também havia começado o yoga, o blog, adotado duas gatas e… era companheira do Paulo, filha dos meus pais, irmã da minha irmã, amiga dos meus amigos. Como continuar com tudo isso?

Você que me lê pode pensar: ué, só parar algo, né?

Sim. Era só parar algo. Mas não é tão fácil assim convencer alguém que está na roda viva da vida a tirar peso dos ombros. Eu acreditava que seria alguém muito “menor” caso tirasse algum compromisso da minha “to do list”. Agir, ser útil, multitasking (a grande ilusão do nosso século). Uma mulher de fibra, poderosa, independente. Feminista, capaz de conquistar o mundo. Claro, talvez seja o que ‘nosso mundo’ exija de nós, sempre querendo comprovar algo. Mas, novamente pergunto, e daí?

A yoga e o perdão em mim

Fui levando tudo isso por mais um ano. Graças ao yoga e à prática de meditação (que nem é tão disciplinada até hoje, e se tornou uma das metas de 2019), consegui SOBREVIVER, respirar, sobreviver, entender a minha ansiedade, sobreviver. Eu estava MUITO ansiosa. E ansiosa do jeito doentio, não da maneira que utilizamos para descrever o estado de ânimo gerado por expectativas.

Acima de tudo, com o yoga eu aprendi a me perdoar (ou ao menos tentar). Perdoar-me aos pouquinhos, nas coisinhas pequenas que passam despercebido, que vamos nos cobrando, colocando na nossa “gavetinha mental”… E que nos fazem explodir em algum momento. Você, provavelmente, sabe do que falo.

“Sou ansiosa, ai meu Deus, sou a pior pessoa do mundo”. Epa, sim, eu sou ansiosa, não gosto disso, mas quero mudar e vou buscar as ferramentas que possam me ajudar.

“Tenho medo de bater a cabeça, de cair… Como sou fraca e medrosa”. Espera aí, Ana Lis, você não precisa se forçar a fazer a invertida de yoga que tanta deseja, pode levar mais uns anos para conseguir e está tudo bem. Paciência. Respeite seus limites.

“Não gosto de academia, todo mudo ao meu redor é fitness”. Ok, nada de errado com isso. Continue a fazer caminhadas, a alongar, a fazer essa prática de asanas poderosas… Um dia, quem sabe, você vai puxar ferro?

“Odeio minhas orelhas, queria ter coisas diferentes em mim”. Por que você acha isso? Desde quando odeia elas? Elas te fazem ouvir o mundo! Mas, se não gosta, não as mostra… e tá tudo certo! Você não precisa ser perfeita para ser… perfeita.

Entende? Coisinhas mesmo, que parecem bobas, mas que nos faz nos odiar. Eu me cobrava (cobro) MUITO.

Aprendi também a acender incensos. E cheguei ao meu mantra e nunca mais o deixei: aqui e agora.

Café derramado (e a busca pela terapia)

Apesar do yoga, ainda estava vivendo uma vida cheia de coisas, coisas demais que acumulavam poeira. Que traziam uma “poeira mental e emocional”.

Até que um sábado de manhã (de novo, um sábado!), enquanto preparava um café para mim, minha irmã e o Paulo, derrubei a água quente toda em mim, na pia e no chão. Derramei todo o café na cozinha (e era o segundo dia seguido que isso acontecia)… Então, chorei copiosamente. Lembro-me de ter falado para a Lila: “eu não consigo ter o controle nem do meu café! Imagina da minha vida?”.

Carinhosamente, minha irmã me ouviu e me incentivou a buscar ajuda de uma psicóloga. Nesse mesmo dia, peguei o contato indicado por um amigo e enviei uma mensagem pedindo ajuda, contando um pouco a ela dos meus motivos para procurá-la. E foi a melhor coisa que fiz por mim em 2018.

Comecei as sessões no fim de janeiro de 2018. Minha psicóloga, a Solange (gosto de pensar nela como Sol), trabalha na linha do psicodrama, algo muito novo, que não conhecia. O interessante (que foi para mim, claro, não que funcione com todo mundo) é que ela trabalha muito o AQUI E AGORA, sempre observamos o corpo, tentamos entender esse ‘eu’ de maneira completa e integrada.

Com a terapia unida ao yoga, consegui fazer coisas que seriam inimagináveis para aquela Ana Lis de fevereiro de 2017. Viajei sozinha por dias, subi no topo de um vulcão, enfrentei viagens de avião (que ainda trabalho muito, mas tenho pavor…), formei na pós, conversei com o Paulo — o que levou à decisão conjunta de que deveríamos nos casar ‘oficialmente’, parei com as aulas de inglês… e pedi para sair do meu trabalho, que estava me consumindo muuuuito.

Apesar de ter sido uma das decisões mais difíceis da minha vida profissional e pessoal, o que é inteligível, pois imagine o que pode significar a saída de um emprego estável, em frente de casa em plena São Paulo, com um salário que pagava minhas contas, deixar o cargo de editora de editorias importantes (como política, internacional e economia) durante um cenário histórico, nas vésperas das eleições presidenciais? É, foi difícil aceitar que não queria mais.

Foram necessários meses, quase um ano inteiro de terapia para que pudesse tomar tais decisões, abraçar-me à coragem e aceitar a possibilidade de fazer tudo isso sem ser irresponsável. E sendo muito autêntica.

Uma pausa: este não é um texto para motivar ninguém a desistir de coisas, muito menos quero aplausos por sair do meu emprego, das aulas de inglês e tudo o mais. Também sei que essas soluções só foram possíveis por causa de privilégios e boas condições sócio-econômicas que tenho. Tenho consciência de que nem todo mundo pode fazer isso. Ademais, nem todo mundo sente o mesmo, passa pelo mesmo! Todos nós temos diferentes histórias, estilos de vidas, trabalhos… No meu caso, o meu emprego estava me exaurindo e eu quis mudar de rumo profissional, certo?

Colecionando perguntas

E chegamos a janeiro de 2019. Tantas coisas novas, tanta mudança.

Com a sensação de ser tão leve quanto aquela borboleta (e tão pesada quanto um rinoceronte), venho contar tudo isso a vocês. Especialmente pelas coisinhas pequenas mesmo, do cotidiano. Coisinhas que tento aprender a apreciar como tira-gostos.

Compartilho minha história e me exponho porque acho que todo mundo deveria poder olhar uma borboleta amarela com tamanha intensidade. Por causa da perda total de controle sobre minha mente e meu corpo, em um sábado de manhã, decidi que iria me ouvir. O que é, afinal, que a Ana Lis mais interior está gritando?

Sabe, acredito que nós estamos o tempo todo falando em nosso interior, mas somos surdos.

Se tenho respostas? Não muitas. Nunca vamos saber algumas coisas. As perguntas são sempre mais numerosas e mais presentes. Talvez elas sejam mais importantes, inclusive. Porém, sigo na busca de entender-me, conhecer-me. E sei que isso é “para sempre”, certo?

Apesar de continuar sem saber exatamente “para onde vou”, tenho (um pouco mais de) leveza na alma hoje. Claro que carrego tristezas, medos e decepções. Muitas, aliás, já que a gente vai é colecionando tudo isso. Mas sinto-me mais segura, mesmo sabendo que há muita onda forte para me atingir nesse ano (haja motivações para ansiedade…).

Por fim, queria partilhar que me sinto bonita depois daquela borboleta amarela. Sim, levo mais beleza em mim.

E quem não se torna mais extraordinário quando observa uma borboleta amarela e sente, enfim, completude?

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A todos que sofrem de ansiedade, síndrome do pânico ou depressão, esse texto é para vocês.
Tente buscar ajuda profissional. Se estiver difícil, fale com alguém próximo sobre o que você está sentindo. Não tenha vergonha nem medo. Acredite, faz toda a diferença.
Um dia, eu desejo de todo o coração, você também irá sorrir ao ver o voo leve de uma borboleta.