A banalidade do mal

Resenha da segunda temporada de Fargo

Este texto faz parte do Dossiê Fargo. Leia também a resenha da primeira temporada.

Na segunda temporada de Fargo, o mal está disseminado de tal modo que fica difícil lhe atribuir apenas um nome.

A primeira cena traz um jogo de encaixes semelhante aos trechos de filmes que vemos em Ave, César! (2016), último lançamento dos Coen. Na tela, lemos o título Massacre em Sioux Falls, seguido de “Estrelando: Ronald Reagan”, o ator que se tornou governador e depois presidente dos Estados Unidos. Ao fundo, em p&b, há um campo de batalha. A câmera desliza até encontrar aquele que parece ser o único sobrevivente, um índio de rosto pintado e cocar na cabeça. A ação é interrompida e um homem, que parece ser o diretor do filme, se aproxima do índio para lhe dizer que estão esperando por Regan. Enquanto aguardam impacientes, o diretor, visivelmente constrangido, tenta puxar conversa e diz ao índio que soube que aquele era o verdadeiro local em que aconteceu o tal massacre de Sioux Falls: “Acho que trezentos homens do seu povo morreram aqui há uns cem anos”. O índio dá de ombros e responde: “Eu sou de Nova Jersey”. O diretor insiste, desajeitado, falhando em estabelecer um laço: “Olhe, eu sou judeu, conheço o sofrimento, pode acreditar”. Como se estivéssemos em uma anedota, o judeu oferece um cigarro ao índio, enquanto Regan não vem.

A cena, tão trágica quando divertida, é uma bela antecipação do que veremos nessa temporada de Fargo, que traz um olhar ainda mais ácido sobre a história norte-americana. Um trecho real do discurso do presidente Jimmy Carter intitulado “crise de confiança” é exibido: “É uma crise que atinge o coração, a alma e o espírito da vontade nacional. Podemos ver essa crise nas dúvidas crescentes sobre o significado de nossas vidas e na perda de um propósito. A erosão da nossa confiança no futuro ameaça destruir a vida política e social dos Estados Unidos da América”. Em meio ao discurso, outras imagens do país em 1979 ocupam a tela. Naquele ano, a crise do petróleo iniciava um novo capítulo com a revolução islâmica no Irã. Além disso, a Guerra do Vietnã havia terminado recentemente, as feridas permaneciam sangrando. Esse é o contexto histórico que nos aguarda pelos próximos dez episódios, que se dividem entre Minnesota, dessa vez na cidade de Luverne, Dakota do Norte, em Fargo, e Dakota do Sul, em Sioux Falls.

Formalmente, essa é a temporada que mais se destaca das demais. A fotografia e a edição estão primorosas, são recursos narrativos que compõem a estrutura dessa trama com ares novelescos, de personagens e mortes numerosas. Na primeira temporada, Lou (Keith Carradine) menciona um episódio terrível ocorrido em Sioux Falls: “Se empilhassem os corpos, seria possível chegar ao segundo andar”. Por esse spoiler, podemos antever o que teremos pela frente: é a esse massacre que vamos assistir.

Como no filme e também na temporada anterior, primeiro conhecemos os bandidos. A disputa entre irmãos, antes vivida por Lester e Chaz, ressurge no coração da família Gerhardt. O caçula Rye (Kieran Culkin) reivindica uma posição na hierarquia dos negócios familiares: “Jamais serei alguém além de um garoto de recados”, reclama para Dodd (Jeffrey Donovan), o primogênito mal encarado. Dodd apenas lhe diz, claramente insultado: “Você é um Gerhardt!”. Entendemos que o sobrenome deveria bastar, que estamos diante de um clã mafioso à moda antiga. Mas Rye não parece convencido: “Isso é como Júpiter dizendo a Plutão: ei, você também é um planeta”.

Enquanto Dodd e Rye discutem, o índio Hanzee Dent (Zahn McClarnon), recuado, observa em silêncio. Ele é o braço direito de Dodd e um dos personagens-chave dessa temporada. Entre Dodd e Rye, temos Bear (Angus Sampson), o irmão do meio. Filhos de Otto (Michael Hogan) e Floyd (Jean Smart), a família está às voltas com empreendimentos obscuros na área de transportes. Logo descobrimos que os Gerhardt têm um concorrente incômodo: um grupo do sul que está determinado a anexar o seu território, causando prejuízo. Otto recebe a notícia furioso e, enquanto a família discute à mesa, no plano de fundo há outra personagem de traços indígenas, dessa vez uma mulher que cozinha silenciosamente. Não é preciso ser o espectador mais atento para perceber que existe uma outra história sendo contada nas entrelinhas.

Quando o patriarca sofre um derrame, a família entra em colapso: quem assumirá o lugar de Otto no comando? Rye, alheio aos últimos acontecimentos, perambula pela cidade arrumando confusão. Envolve-se com o comércio de máquinas de escrever automáticas, que são apresentadas como a própria encarnação do futuro (“Nunca o amanhã esteve tão próximo”). Seduzido pelo discurso do comerciante, Rye decide investir na loja, renegociando por conta própria a dívida de jogo que o proprietário tem com a sua família. Para isso, teria de interceder junto a uma juíza para descongelar as contas bancárias. É aí que a confusão começa, ou ao menos se avoluma.

Rye segue a juíza Mundt (Ann Cusack) até a The Waffle Hut, uma lanchonete de Luverne. No estacionamento, cheira cocaína e se lembra do insulto do irmão horas antes. Desconcertado, entra no local e acaba confrontando a juíza. Podemos dizer que o encontro não sai como esperado e, após outra das referências bíblicas da série — a juíza lhe conta a história da retidão de Jó, que resistiu às provações do diabo, e lhe pergunta: “Se o diabo não conseguiu convencer Jó, como você pretende me convencer?”. Rye fica de olhos arregalados, não consegue acompanhar o raciocínio. “Você é meio burro, não é?”, pergunta a juíza, duríssima, transformando em palavras os nossos pensamentos. Depois, tira um inseticida da bolsa e lhe dá três segundos para desaparecer ou irá “esmagá-lo como um inseto”. Digamos que Rye não reage bem e temos um banho de sangue. A sequência é trágica, mas cinematograficamente deslumbrante.

Quando Rye sai da lanchonete para terminar a matança, acaba vendo luzes estranhas sobrevoando o local. Uma vez que esteja machucado, sob efeito de drogas e tendo acabado de cometer uma sequência de crimes, seria justo assumir que a aparição poderia ser fruto de um delírio. Mas, mais tarde, a série volta a fazer referência a objetos voadores não identificados. Antes de supor que Noah Hawley tenha ido longe demais, vale retomar os noticiários de 1979, com relatos de pessoas que teriam avistado objetos estranhos e luminosos no céu. Aqui, Hawley parece estar propondo uma questão intrigante sobre o que é a reconstrução histórica de um período, e o quanto a própria história com H maiúsculo tem de fantasia ou, ao menos, de elementos fantásticos.

Confuso, Rye acompanha as luzes e acaba indo parar no meio da estrada, onde é atropelado por um carro. Sua cabeça se choca contra o vidro da frente, abrindo um buraco no para-brisa. O corpo fica parte dentro da cabine, parte pendurado sobre o capô. Não vemos quem dirige. O carro para por um instante e depois segue viagem, levando Rye consigo.

Na cena seguinte, estamos na casa dos Solverson: Molly ainda é uma menina e Lou, um policial estadual, nessa fase interpretado por Patrick Wilson. A mãe de Molly, Betsy (Cristin Milioti), é uma dona de casa inteligente e afiada, uma mulher pequena de olhos vivazes que enfrenta sua própria batalha contra um câncer agressivo. Seu pai, Hank Larsson (Ted Danson), é o xerife local. Nesse núcleo, estão concentrados os mocinhos da temporada. Descobrimos que existe uma ancestralidade na retidão de Molly e compreendemos melhor a sua versão crescida.

Então somos apresentados também a Ed Blumquist (Jesse Plemons), um açougueiro de ambições modestas. Na pequena loja em que trabalha, uma garota, Noreen (Emily Haine), lê compenetrada. É difícil ignorar o contraste entre a brutalidade do lugar e a delicada imagem da moça com seu livro, tão deslocada do cenário. Mais tarde, descobrimos que Noreen está lendo O mito de Sísifo, ensaio de Albert Camus. Esse, aliás, é o título do terceiro episódio da temporada. A referência se torna mais explícita conforme a série se desenrola. Nesse ensaio, Camus apresenta sua filosofia do absurdo, justamente o que Carter parece querer combater no discurso mencionado.

Para Camus, o ser humano vive em busca de sentido, unidade e clareza em um mundo ininteligível e desprovido de Deus. Compara a falta de sentido da existência humana à jornada de Sísifo, da mitologia grega, que, por ofender os deuses, recebeu um castigo: todos os dias, deveria rolar uma grande pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rolaria de volta até o ponto de partida. Em um capítulo do ensaio, Camus analisa a obra de Dostoiévski sob essa perspectiva.

Mais do que Camus, é difícil assistir a Fargo sem pensar no senso de humor de Dostoiévski e na grande questão metafísica que sua obra se propõe a examinar, sintetizada em um trecho de Os irmãos Karamazov: se Deus não existe, tudo é permitido? Como escreveu Freud em Mal-estar na civilização, a resposta poderia ser: enquanto a virtude não compensar nessa vida, a ética pregará em vão.

Em outro momento, Noreen e Betsy conversam sobre o livro. A garota conta a Betsy que, para Camus, a consciência da morte e da finitude humana torna a vida absurda. Betsy, de cama, embora fragilizada, continua uma rocha: “Bem, eu não sei quem é esse Camus, mas suponho que ele não tenha uma filha de seis anos”.

Enquanto os bons e os maus estão delimitados com alguma clareza, no meio do caminho temos Ed e sua esposa, a cabeleireira Peggy (Kirsten Dunst). Peggy parece ecoar a personagem de Frances McDormand em Queime depois de ler (2008), Linda Litzke, funcionária de uma academia que quer fazer uma cirurgia plástica e não poupa esforços para atingir seu objetivo. Peggy e o marido estão guardando dinheiro para comprar o açougue onde ele trabalha. Enquanto Ed parece estar satisfeito, a esposa acumula revistas pela casa, sonhando com outras vidas, e está obcecada pela ideia de fazer um seminário chamado Lifespring. Ela aposta, com convicção, que o tal seminário vai ajudá-la a ser a melhor versão de si mesma. Uma espécie de otimização de recursos para atingir a plenitude.

Outras críticas ao modo de vida americano vão sendo costuradas ao roteiro: Ed fala sobre o sonho de se tornar o seu próprio chefe, enquanto a família Gerhardt ovaciona o pai de Otto, Dieter, que teria imigrado da Alemanha apenas com uma caixa de engraxate, e dessa caixa teria construído um império. Uma versão do mito do self-made man. Ninguém parece se importar que esse império envolva negócios ilegais, drogas e assassinatos. O que vale é o discurso do homem que triunfa sobre as adversidades por mérito próprio. A lógica neoliberal contagia as personagens em diversas esferas, como Peggy e seu anseio produtivista direcionado à própria identidade, além de seu lado acumulador (as revistas que vão tomando a casa, os papéis higiênicos roubados do salão onde trabalha, formando um estoque no lavabo).

Como Linda no filme dos Coen, Peggy está obstinada em sua jornada e, embora tenhamos dois núcleos de vilania profissional (representado pelos Gerhardt de um lado e, de outro, pela máfia de Kansas City), é a ambição de Peggy que funciona como gatilho para a violência de proporções épicas que veremos a seguir. Podemos pensar que o pacto fáustico nessa temporada se dá entre Peggy e o marido. Para protegê-la e proteger o sonho de ter uma família, Ed acaba indo mais longe do que deveria.

De maneira atrapalhada, o casal acaba se colocando entre os grupos mafiosos, um pouco como Llewelyn (Josh Brolin) e Carla Jean Moss (Kelly Macdonald) em Onde os fracos não têm vez. Mas, embora amadora, Peggy se revela, em alguns dos melhores momentos da temporada, uma mulher muito perigosa. Seus episódios de descontrole rendem algumas das cenas mais divertidas da história. Em certo momento, Dodd, o primogênito dos Gerhardt, chega a dizer a Ed: “Você tem uma mulher-problema. Eu sei como é porque elas têm me perseguido a vida toda. A ironia é: não se pode viver com elas, não se pode transformá-las em comida de gato. Pessoalmente, não consigo ver qual é a graça em todo esse falatório e mudança de humor e falta de raciocínio lógico, que a sua mulher não tem de jeito nenhum. Os machos da espécie possuem o potencial da grandeza. Veja os reis de antigamente: Napoleão, Kublai Khan, Sampson. Gigantes feitos de músculo e de aço. Mas essas mulheres, até nos filmes bíblicos você vê isso, Dalila e Sherazade… vou dar a minha opinião pessoal aqui: acho que Satã é uma mulher”. Enquanto isso, vemos Peggy rastejando como uma cobra e enfim dando motivos a Dodd para formular essa hipótese.

Não parece acaso que tenhamos um trio de minorias políticas nos centros de vilania dessa temporada: Peggy, uma mulher; Hanzee Dent, um índio; e Mike Milligan (Bokeem Woodbine), um negro, que representa a facção do sul. A temporada traz uma bela amostra de como a ficção pode dialogar com tais temas sem se render a um discurso que achata a complexidade das relações humanas.

O massacre em Sioux Falls é uma vingança brutal de Hanzee Dent não apenas contra a família Gerhardt, mas também contra a história americana. Já Peggy tenta se valer do discurso feminista para justificar seus atos a Lou: “Eu sou uma vítima também. Fui vítima antes”, fala sobre a dificuldade de ser mulher e do desejo de ser alguém por si mesma, independente das expectativas alheias. O sequestro da pauta dos movimentos políticos é uma discussão bastante atual. Lou, sensato como a filha Molly na primeira temporada, interrompe e coloca os acontecimentos em perspectiva: “Pessoas morreram, Peggy”. Ela reage com um olhar cansado e parece se dar por vencida. O discurso da vítima seria válido em outros contextos, mas sabemos que não é uma carta que Peggy poderia usar com justiça aqui.

E Mike Milligan, antes censurado por Lou em um dos ótimos diálogos da série sobre o “destino manifesto” — doutrina imperialista do século 19 que pregava a ideia de que os americanos tinham sido eleitos para civilizar o continente (“Você está dizendo que o capitalismo é o problema?”, pergunta a Lou. “Não, a ganância. Fazer disso tudo ou nada”) — , após o triunfo sobre os Gerhardt, acaba se autoproclamando rei.

Esperando por sua fatia do bolo do império, Mike é promovido a um cargo burocrático junto à área de contabilidade, designado a uma sala minúscula, com horário de trabalho das 9 às 17h em que horas extras são bem vistas por uma gerência que premia iniciativa. Habituado à violência de campo, que o chefe chama de “infantaria”, Mike não consegue esconder o desânimo. O chefe, de terno e gravata, censura seu visual caubói, que destoa do novo cargo: “Arrume algo cinza, com risca de giz, camisa branca, uma gravata de verdade. E corte o seu cabelo. Os anos 70 acabaram, pelo amor de Deus”.

Contrariado, Mike argumenta, nostálgico, que nos velhos tempos, quando alguém conquistava um lugar, era diferente. A ironia é que, durante toda a temporada, ele foi o porta-voz do futuro, um entusiasta do progresso. Nas cenas finais, passa a flertar com o passado. “Quer os velhos tempos? Vá trabalhar em uma mina de carvão. Isso é o futuro [diz o chefe enquanto aponta para o cubículo munido de uma máquina de escrever automática, possivelmente do mesmo modelo que encantou Rye no início da temporada].” E completa: “O quanto antes perceber que só há um negócio que resta no mundo, o negócio do dinheiro, apenas uns e zeros, melhor vai ser para você. (…) Não estou falando em colecionar cabeças arrebentadas, estou falando de lucro e prejuízo. Infraestrutura.”, então informa que alguém do recursos humanos irá encontrá-lo para que preencha alguns formulários, e terá direito a plano de saúde e aposentadoria. Por fim, como um último golpe, sugere que Mike aprenda a jogar golfe: “É onde todos os negócios são fechados hoje em dia”. Mike, um romântico do crime, acaba sendo engolido pela sua institucionalização. É esse o único império que lhe espera: a corrupção sistêmica.

Quando Hannah Arendt escreveu sobre o que chamou de banalidade do mal, defendeu que o mal não pertence a uma categoria ontológica ou metafísica, não estaria ligado à essência ou natureza do ser humano. De maneira simplificada, para Arendt, o mal é político e histórico, manifestando-se onde há espaço institucional para tanto. A vulgarização da violência corresponderia ao esvaziamento de pensamento crítico, vazio onde a banalidade do mal se instalaria.

Como contraponto a esse vazio, temos o círculo de Lou Solverson, um oásis de ternura, uma pequena bóia a que podemos nos agarrar em meio ao maremoto de sangue. Lou sugere uma nova interpretação de Camus e do mito de Sísifo ao se referir à ideia de família: “É a pedra que todos nós empurramos. Nós a chamamos de nosso fardo, mas, na verdade, é nossa salvação”. Lou tem algo do xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), em mais uma referência a Onde os fracos não têm vez.

A falta de um vilão do estatuto de Lorne Malvo é sentida e há especulações sobre possíveis imprecisões e desdobramentos inverossímeis (Hanzee Dent teria se transformado no Sr. Tripoli, o chefe dos negócios em Fargo da primeira temporada? Como seria possível?), mas parece que a série brinca com o que chamamos de raciocínio lógico, sempre apontando para falácias e paradoxos. Na terceira temporada, um sobrenome compartilhado gera muita confusão. Estabelecer relações frágeis de causa e consequência fica na conta do espectador que quer ligar todos os pontos e tem dificuldade de aceitar que nem todas as perguntas têm resposta.

É impossível dar conta do número de referências e entrelinhas que cada temporada de Fargo oferece. Por mais extensa que seja uma análise, muito será perdido. Mas se parecia difícil honrar o filme dos Coen, e depois a primeira temporada de Fargo, Noah Hawley conseguiu criar aqui algo completamente novo, um capítulo à parte do livro História dos crimes verdadeiros no Meio-oeste, que Hawley introduz como elemento narrativo no episódio “The Castle” (O Castelo): cada temporada da série seria um capítulo desse livro, contando uma história diferente em fatos, mas com uma essência comum.