LITERATURA

A caminho de uma FLIP obscena de tão lúcida

A 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) homenageará Hilda Hilst

Na manhã do último dia 05/06, Belita Cermelli, diretora geral responsável pelo Programa Educativo, Mauro Munhoz, diretor geral, e Joselia Aguiar, a curadora da FLIP lançaram a programação da edição de 2018, o que dá início à contagem regressiva para o evento, que acontece de 25 a 29 de julho.


A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) acontece anualmente, desde 2003, e é realizada pela Associação Casa Azul, homenageando, a cada ano, um nome da literatura brasileira. O evento já está consolidado no calendário nacional como um dos principais festivais literários do Brasil e da América do Sul e inspira diversas iniciativas semelhantes, ao longo de todo o ano, em várias partes do país. Para a cidade de Paraty — RJ, cujo calendário não para, a festa é uma das grandes frentes de atuação do comércio e, sobretudo, da cultura local.

Em 2018, a FLIP terá, pelo segundo ano consecutivo, a curadoria da jornalista Joselia Aguiar e homenageará a escritora paulista Hilda Hilst. Uma coisa dificilmente aconteceria sem a outra. Joselia foi a curadora da edição de 2017, que homenageou um escritor negro e marginalizado pela literatura mainstream, Lima Barreto, e que marcou o festival como o mais representativo de sua história, com o maior número de pessoas negras e com o maior número de mulheres palestrando. A FLIP deste ano é apenas a terceira de 16 edições a ser comandada por uma mulher e a homenagear umA escritorA. Três de dezesseis. Antes de Hilda, Clarice Lispector (2005) e Ana Cristina Cesar (2016) estão no rol de homenageadas.

É sintomático que o evento tenha dado uma guinada na direção das discussões mais intensas do atual momento do país quando seu orçamento encolheu à sombra dos efeitos da instabilidade financeira. Tendência que, como era esperado, persiste este ano, em que o orçamento do evento, de acordo com seu diretor geral, sofre novo reajuste. Em coletiva de imprensa para lançamento da programação, a curadora do evento informou que já há 17 mulheres e 16 homens com presença confirmada na programação principal e que a presença de pessoas negras é a mesma da de 2017, girando em torno de 30%. No entanto, Joselia buscou destacar que, diferentemente do ano passado, não espera que esta seja a principal manchete acerca da FLIP 2018. Segundo a jornalista, ano passado esse destaque fez sentido, considerando a homenagem a Lima Barreto, mas não pode ser a primeira coisa que se diga sobre os autores que comporão a programação.

“A FLIP [do ano passado] ficou conhecida como a FLIP das mulheres e dos negros, mas a gente sabe que os autores querem ser conhecidos como autores, querem falar de Literatura“, comenta Joselia.
Joselia Aguiar, curadora da FLIP 2018. Foto: João Bertholini / Reprodução FLIP

A postura se alinha com o tom da curadoria deste ano, que, num equilíbrio entre contraposição e harmonia com a edição anterior, tenderá a ser mais intimista tematicamente falando. Influenciada pela homenageada, a programação orbitará assuntos como amor, sexo, morte, divino, finitude, transcendência, escuta, som, monólogo, vozes e dimensões corpóreo-erótica e místico-religiosa.

Estruturalmente falando, no entanto, esta não parecerá ser uma edição necessariamente enxuta. Depois de uma reformulação das possibilidades de parceria, a FLIP de 2018 terá mais de 20 casas parceiras, com programações paralelas espalhadas pelo centro histórico de Paraty. A concentração, como de costume, será na Praça da Matriz, com um sentido mais artístico e com a volta do auditório da matriz. Confira a programação completa clicando aqui.


Hilda de Almeida Prado Hilst

Nascida em 21 de abril de 1930, em Jaú — SP, Hilda era filha única por parte de pai e tinha um irmão por parte de mãe. Em 1932, seus pais se separam e Hilda, com sua mãe e irmão, muda-se para Santos. Aos 18 anos, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo do Machado), onde conhece Lygia Fagundes Telles, escritora e grande amiga. Antes de se formar, em 1952, publica dois livros, Presságio em 1950 e Balada de Alzira em 1951.

Presságio VI

Depois da leitura de Carta a El Greco, do escritor grego Nikos Kazantzakis, Hilst se retira da vida agitada de São Paulo, em 1964. Segundo o presidente do Instituto Hilda Hilst, Daniel Fuentes, a escritora percebeu que era preciso abrir mão da vida “mundana e cercada de festas” para produzir sua obra. Passando a morar próximo de Campinas, a escritora constrói um recanto chamado Casa do Sol (1966), hoje sede do Instituto Hilda Hilst e criado para ser um espaço de inspiração e criação artística. Hilda faleceu aos 73 anos, em 2004, deixando uma obra imensa (clique aqui para ver a lista) que, pouco a pouco, vai sendo descoberta por quem ela mais queria: o público.

“Eu vi que só escrevendo pornografia é que eu seria comentada. Por isso que eu escrevi a Lori Lamby. O que é muito engraçado, né?!”, Hilda para o documentário Hilda Humana Hilst.
Fonte: Reprodução FLIP

Hilst teve sua obra reconhecida por seus pares e pela crítica, mas era o reconhecimento do público que a angustiava. Ou melhor: era o baixo reconhecimento do público. Apesar de brilhante, a literatura hilstiana nasce complexa e, por que não dizer, difícil. Sabe aquela história de que a disposição para a leitura, hoje em dia, é baixa? A situação não era tão melhor há alguns anos. Irritada, a escritora se lançou numa fase obscena (ou pornográfica ou erótica), desafiando o mercado editorial, a crítica e, sobretudo, os leitores. A trilogia O Caderno rosa de Lori Lamby, Cartas de um sedutor e Contos d’escárnio — Textos grotescos foi a parte central dessa fase, com outros títulos, como A obscena senhora D., que chocaram o país que até hoje tem medo de falar honestamente sobre sexualidade e corpo.

Foi o momento em que a paulista decidiu dar ao mercado editorial, como diz em entrevistas, uma banana, partindo para o que seria, a princípio, uma escrita de massa, mas acabou se revelando uma nova maneira de dizer o complexo, afinal era ela. É dessa fase, a última de Hilda, fruto do cansaço da escritora com o encalhe de seus livros no Brasil (uma vez que a obra ia bem no exterior) e elogiada em segredo por críticos que não tiveram a coragem de publicar os elogios em seus espaços nos jornais, que surge a provocação do título deste texto — A caminho de uma FLIP obscena de tão lúcida. Cabe a ressalva lógica: nem só de obscenidades se fez a obra de Hilda Hilst, “que fez sua literatura em torno de temas como o amor, a morte, Deus, a finitude e a transcendência”.

Fato é que, de tantas das predições que a “obscena senhora” fez, a que diz que sua obra seria “descoberta” 10 ou 20 anos depois de sua morte (em 2004) é uma das que se pode observar acontecer. Algumas de suas obras, das quais muitas foram publicadas pelo editor Massao Ohno, foram relançadas pela Editora Globo em 2005 e, este ano, estão ganhando novas edições pela Companhia das Letras. Em 2015, na 22ª edição do Projeto Ocupação, do Itaú Cultural, a escritora surge na exposição Ocupação Hilda Hilst, cujos registros podem ser vistos nessa playlist. A seguir, encerro este texto com uma lista de vídeos sobre Hilda Hilst que usei como referências.

Pelo Instagram do blog pessoal #SerLinguagem, compartilharei alguns momentos do caminho até a FLIP. :)
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