A caneta da NASA

Lucas Carneiro Neves
May 8 · 2 min read

Dizem que o homem passou mais ou menos 15 anos estudando para chegar à Lua. Embora eu torcesse pelos soviéticos, quem ganhou a corrida espacial foram os norte americanos, que levaram Neil Armstrong até os arenosos terrenos desse satélite misterioso, para que lá cravasse a bandeira estadunidense e proferisse a célebre frase “um pequeno passo para o homem, um grande salto para humanidade’’.

Quanto tempo teria gasto Armstrong na construção dessa frase? Teria ele improvisado ou lido milhares de falas de Churchill, Roosevelt e Luther King?

O astronauta afirmava ter concebido a frase enquanto descia a escada, segundos antes de finalmente tocar o solo lunar. Todavia, em entrevista recente, seu irmão Dean, afirma que Armstrong teria mostrado sua ideia dias antes para um companheiro de missão. O outro astronauta, após ouvir atentamente as ensaiadas palavras, teria dito ‘’fabuloso’’.

Duas versões, nenhuma certeza.

Eu, pessoalmente, duvido de seu improviso. Do jeito que são os americanos, o astronauta deve ter passado mais de 60 horas da monótona viagem, olhando o papel em branco em busca de algo cinematográfico. Gosto de imaginar Armstrong em sua cápsula, mirando o caderno vazio, com bolinhas de papel amassado flutuando pela cabine, um whisky na mão esquerda e a caneta apreensiva na mão direita. Não descarto nem a possibilidade do astronauta ter ordenado um caminho mais longo, ganhando assim um tempo na sua corrida pela inspiração ‘’bora, dar mais uma volta que o texto ainda não tá legal!’’.

Há três meses não vejo a mulher que amo. O que direi eu quando enfim chegar o momento? Improvisarei algo ou ensaiarei como Armstrong?

Provavelmente, me deixe levar pelo momento e, paralisado pela alegria, comente uma coisa banal. Algo sobre seu corte de cabelo ou sobre a pequena cicatriz que ela possuí no lábio inferior, que só é possível enxergar quando ela sorri — ah! Quanta poesia tem essa menina.

Talvez, embora menos provável, ensaie algo. Passe noites em claro lendo Bandeira decorando um poema que seja romântico e delicado, como pede o momento. Se os trapezistas passam a vida inteira ensaiando para se atirar nos braços de seus companheiros, por que não posso eu, ensaiar para me jogar no colo da amada?

A verdade é que o tempo está passando e não há como dar mais uma volta ou pegar um caminho mais longo. Estou em plena galáxia, vendo o enorme satélite plúmbeo se aproximar e logo descerei a escada e flutuarei pela gravidade que só quem ama consegue sentir. E aí, o ar se tornará raro e os movimentos se tornarão lentos e tudo, ensaiadamente ou de improviso, será verdade e todos saberão que o nome dela é Lua.

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Lucas Carneiro Neves

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Cronista e fotógrafo.

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