A capa do meu Facebook não é sobre mim

É sobre minhas dores

E minhas dores não sou eu

É bem simbólico a capa do meu Facebook ser um muro. É a minha tentativa de me proteger de mais dores.

E diferente do Muro Pequeno do murilo araújo, o meu muro é bem grande na real. Ele me isola e me dá uma falsa sensação de proteção.
E como eu tenho uma forte tendencia a dicotomias (explicada no meu texto sobre nuances emocionais), eu tendo ao isolamento pós consecutivas situações abusivas.

E porque eu digo falsa sensação de proteção?
Porque quando eu me isolo, quem abusa de mim sou eu mesma. É o auto abuso perante os abusos que sofri.
Eu internalizei que estar em dores é um ser e não um estar.

Mas a culpa não é minha. E se você está se identificando com esse texto: a culpa não é sua!

Graffit de Marcelo Eco

No texto Homens dão medo, a Ericka Moderno Rocha diz:

Nos sentimos completamente impotentes porque sabemos que até as mais sutis violências são (ou serão) vistas com naturalidade pelas demais pessoas da sociedade, serão questionadas e terão que ser provadas como legítimas, seja para outros homens, mulheres, amigos ou até mesmo para o sistema jurídico. Todo o testemunho e relato de medo (ou de praticamente qualquer coisa) que sai da boca de uma mulher é questionável, questionado e acometido de uma neurose que se definiu ser inerente ao nosso gênero. Somos loucas, exageradas, somos mentirosas sem escrúpulos desde nascença. Não somos passíveis de confiança nem ao olhar de outras mulheres, que, muitas vezes, se dizem amigas fazendo um desserviço. Querem se misturar aos seus agressores e agredir também, num mecanismo para se sentirem aceitas quando mal sabem que também são vítimas.

Esse texto da Ericka me representa muito. Ele é a explicação das motivações que levaram pessoas a me violentarem. Mas nem de longe é uma justificativa.

É aquela máxima de que explica mas não justifica.

E mesmo que saibamos que é um problema estrutural, e que isso tem sim que ser levado em conta, o que também não podemos esquecer é que violências são cometidas por pessoas e não apenas por estruturas. Ser estrutural não anula a responsabilidade das pessoas de cometerem violências.


A frase:

Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.

é atribuída ao Freud. Mas eu não tenho certeza se é dele mesmo. Porém, ela não deixa de ser muito boa e simbólica para o tema desse texto: um muro que se sente vidraça mas que quer ser de ferro.

Eu fiz um muro por me sentir vidraça, mas por conta das violências que sofri preciso ser de ferro.

Mas eu não sou de ferro. Nem tão pouco sou vidraça.

O muro que construí, e que tenta me proteger, é reflexo de muitas dores e medos de mais dores. Uma forma que tento explicar pras pessoas é usando a metáfora de queimaduras. É como se meu corpo praticamente todo estivesse com queimaduras de terceiro grau, e qualquer coisa que me toque me gera muita dor.

A frase do muro pode parecer agressiva. E é, também.

Não to aqui pra ser gostosa nem acolhedora

é uma resposta ao machismo
é uma resposta a dor
é um sintoma
é um grito de desespero perante o massacre estrutural
é um pedido para pararem de pisar em mim

“Eu estou me esforçando para crescer. Por favor não pise em mim! Obrigada.” — Imagem retirada daqui

No texto Instante, o Rodrigo Goldacker diz:

Quando eu me escrevo, eu estou me matando. Tudo que hoje sou, ao me definir sendo, ao nomear, instantaneamente deixo de ser. Cada definição passível de ser dita sobre mim, ou sobre qualquer coisa, deixa de representar o presente no exato instante no qual é proferida. Define, se muito, o passado. Mas a definição altera o presente ao ser dita; ela deforma o que já é pela consciência desse ser, ela permite a partir disso que se sejam coisas novas. Nunca nenhuma palavra passa incólume a mudar quem a escuta. Nunca nenhuma descrição passa sem alterar o que descreve.

E é isso que estou tentando fazer aqui nesse texto. Matar o que me define hoje, e a partir dessa definição, que é a própria morte da mesma, ser alguma coisa nova, algo menos toxico, destrutivo e amargo. Algo que não me deixe na apatia, sem força pra mudar o sintoma.

Porque eu estou dores, não sou dores.


Se você se identificou com esse texto, quero compartilhar os 6 pontos importantes para lidar com uma crise que um amigo, Rodrigo Goldacker, me disse em um momento bem difícil pra mim. Espero que te ajude também, porque me ajudou muito.

1. você não tem que se culpar por não ter conseguido

2. embora você vá se sentir mal por isso, você não precisa se ver como inferior por isso

3. não é porque isso é fácil pra outras pessoas que invalida seu esforço, ou sua dificuldade

4. você tentar já é um puta avanço e não é na primeira vez que a gente consegue um monte de coisa na vida: dirigir, escrever

5. sente primeiro, pensa depois. respira fundo, sente o que tá sentindo, se permita chorar, se permita ouvir seu silêncio, respire fundo, tente se acalmar com emoções, não com pensamentos

6. outros dias bonitos para tentar virão. um passo de cada vez é melhor do que dar saltos

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Thanks to New Order - Redação

Ana Paula Fernandes

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