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A contemporânea loucura de Hamlet

Impressões empíricas sobre a peça Hamlet, da Armazém Cia de Teatro.

Com 30 anos de estrada, a Armazém Cia de Teatro está com o belíssimo espetáculo Hamlet em cartaz no Centro Cultural São Paulo, de 28 de setembro a 14 de outubro. A peça retrata a clássica tragédia de Shakespeare, escrita em meados de 1599, numa roupagem contemporânea, crítica, política e extremamente vigorosa.

A história de Hamlet é a história da destruição de uma ordem estabelecida. A destruição de um tempo em que o consentimento coletivo (e inconsciente) à manipulação está em toda parte e ao redor de todos. Hamlet (a personagem) é o agente provocador da destruição desta ordem. E Shakespeare, pra quem desconhece, é um genial dramaturgo recém-descoberto, com algumas coisas urgentes a dizer sobre a guerra, sobre a loucura do mundo e sobre nossos líderes políticos modernos. (release)

O enredo é conhecido, mas vale à pena lembrar: Hamlet encontra o fantasma do pai, que revela ter sido assassinado pelo seu irmão e atual rei da Dinamarca, Claudius. O jovem príncipe cai numa profunda melancolia e decide se passar por louco. Numa festa do reinado, Hamlet chama alguns atores para encenar uma peça, com o intuito de mostrar a todos a verdade sobre a morte do seu pai. Mais tarde, num ato desesperado, Hamlet mata Polonius, conselheiro de Claudius e pai de Ofélia, por quem o príncipe tem uma intensa paixão. Ofélia entra em colapso após a morte do pai e comete suicídio. Laerte, irmão dela, desafia Hamlet para um duelo de espada. A espada usada por Laerte é envenenada. Após o duelo, morrem Laerte, Hamlet, Cláudio e Gertrude. “O resto é silêncio”, pronuncia Hamlet ao final dos trágicos acontecimentos.

A peça já foi adaptada, reformulada e revisitada de variadas formas, nas mais diversas mídias, ao longo dos 400 anos de sua existência. No teatro, então, recebeu incontáveis tratamentos — cada um encontrando, à sua maneira, um jeito de mostrar a dramática loucura do príncipe, sua intensa paixão por Ofélia, além das várias leituras políticas e sociais que a peça busca retratar desde sua origem. Por essa razão, Hamlet é uma história que dificilmente perderá relevância, não importa quanto tempo passe.

A adaptação da Armazém Cia de Teatro parece reconhecer tal característica acrônica da história. Talvez por isso, faça questão de mesclar passagens refinadas e rebuscadas (como o monólogo “ser ou não ser — eis a questão” ou a frase “poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”) com falas informais, piadas, xingamentos e expressões cotidianas, que dão um toque de humor à encenação.

Embora haja momentos de risada, esta não é uma peça leve. Na verdade, trata-se de uma tragédia funesta, interpretada com intensidade por um grupo de atores que se entrega com veemência a todos os papéis que interpretam. A paixão pela dramaturgia transborda os poros, e fica evidente nos gestos e nas emoções trabalhadas ao longo da atuação. Mesmo quando há uma mudança rápida de personagens, os atores incorporam cada um deles por inteiro, sem deixar brechas para qualquer ambiguidade.

(…) a questão determinante para a companhia segue sendo a arte do ator. Busca-se para o ator uma dinâmica de corpo, voz e pensamento que dê conta das múltiplas questões que seus espetáculos propõem. E a encenação caminha no mesmo sentido, já que é o corpo total do ator que a determina.

A excentricidade desta montagem também aparece na escolha dos atores para interpretar os personagens. Quem dá vida ao Hamlet, por exemplo, é a atriz Patrícia Selonk. Uma escolha audaciosa, mas que reflete as misturas de gêneros atualmente tão presentes nas produções artísticas da contemporaneidade.

Hamlet está no centro da encenação. Ele é o primeiro a entrar em cena, e já o conhecemos tendo a visão do falecido pai, que aparece num videografismo nas vidraças montadas no palco. Este encontro estabelece a justificativa da loucura de Hamlet e lança seu objetivo inicial: vingar o assassinato do pai.

No decorrer do espetáculo, vamos conhecendo os outros personagens e suas atribuições. Sendo assim, orbitando a melancolia e falsa loucura do jovem príncipe, estão: Claudius, irmão do falecido e atual rei (Ricardo Martins); Gertrudes, ex-cunhada e atual esposa do rei (Isabel Pacheco); Ofélia, amante de Hamlet (Lisa Eiras); Laertes, irmão de Ofélia (Jopa Moraes); Polonius, conselheiro e pai de Ofélia (Marcos Martins); e Horácio, melhor amigo do príncipe (Luiz Felipe Leprevost).

Trágica, política e quase cômica, o Hamlet da Armazém provoca diferentes emoções, questionamentos, sensações. Com mais de duas horas de espetáculo, os atores não economizam energia — dão tudo de si, hora chorando desesperadamente e gritando até explodir, hora rindo junto com a platéia quando fazem piadas e brincadeiras. Tudo, é claro, como parte do contexto da história. Este espetáculo consegue lançar, com maestria, críticas à nossa sociedade contemporânea, sem perder o compasso da ficção encenada no palco.

— “Hamlet” é uma peça infinita, aberta a múltiplas leituras. Mas na nossa montagem a política é o epicentro, porque nesse jogo o que existe é uma usurpação do poder — afirma Moraes. — A partir daí entram em cena questões como verdade, representação e a corrupção de um sistema político. Num momento em que falamos de corrupção, pós-verdade, isso também se encaixa no mundo do Hamlet, porque ele reage aos conluios do reino, assim como não aceita o papel que é imposto a ele nessa corte. Contra isso, assume o papel do louco, para provocar. Criamos um Hamlet que aposta na ferocidade do personagem. Embora ele faça parte da ordem, ele se torna o grande provocador da destruição dessa ordem. A ruína vem de dentro.

Os elementos do palco também são peculiares nesta apresentação. O único componente fixo é uma vidraça da altura do palco, que serve de telão para a aparição do fantasma do pai de Hamlet; uma separação de cômodos ou ainda, numa interpretação empírica, como uma passagem de capítulos na história. Os outros poucos itens — cadeiras e poltronas; mesa com metrônomo, papéis e whisky; e um microfone com pedestal, eram constantemente movidos pelos próprios atores ao longo da peça. Se há um contra-regra, é muito. Tudo é organizado pelos atores. Todos os diferentes personagens ganham vida na voz, nos trejeitos corporais e no figurino deste excepcional grupo de artistas. Deste modo, o cenário se configura mais como um suporte, do que como algo essencial para a encenação.

Uma das coisas mais gostosas do teatro é que ele não é um trabalho engessado, fixo, conclusivo. Em um filme ou série de TV, há encenação, mas há também edição, montagem, tratamento de imagem e tudo mais. No teatro, cada espetáculo apresentado parece novo, é capaz de ressignificar atuações, trazer diferentes maneiras de vivenciar uma mesma história. Esta capacidade de reformular a si mesmo o tempo todo se dá, muitas vezes, pela liberdade que os atores têm de improvisarem, de rirem mesmo quando “não deviam”, de quebrarem a quarta parede e inserirem a platéia na ação dramática. Neste espetáculo, muitas vezes fiquei me perguntando quais atuações e quantos elementos dali vieram de ideias improvisadas que brotaram ao longo dos ensaios.

Outro detalhe especial do teatro é que se trata de um trabalho extremamente físico, corpóreo. Para além das interpretações sociais e políticas, este espetáculo também nos insere numa história que aborda questões intrínsecas do ser humano — e melhor, interpretada por humanos. Essa sensação de intimidade nos convida a rir, chorar, sofrer, até mesmo enlouquecer junto com os personagens. Vivenciamos com Hamlet seu declínio de melancolia para pura loucura; somos cúmplices do assassinato de Polônio; sentimos a dor de Ofélia ao perder sua família; e proferimos em conjunto a intensa raiva do rei Claudius com toda aquela situação. Tal encenação carnal pode, por vezes, assustar, cansar, pesar demais — talvez daí a necessidade de ter um intervalo um pouco antes dos atos finais.

Trazer uma história clássica para a contemporaneidade pode ser um grande desafio, mas a Armazém Cia de Teatro cumpre esta missão com vigor e excelência. Não acompanhamos somente a história de Hamlet, mas também sentimos a paixão dos atores pela dramaturgia, a versatilidade que eles têm de interpretar papéis diferentes em uma e outra cena. Ao fim do espetáculo, depois de passar por tantas emoções diferentes e compartilhar isso, ainda que indiretamente, com todos na sala, a única coisa que nos resta é levantar e aplaudir forte em uníssono.