Mariana Staudt
Jul 18 · 7 min read

Para nossa alegria, memes são uma forma de expressão. Se em algum momento foram apenas humor, hoje, de nenhuma maneira, podemos afirmar isso.

Eles têm o poder de transmitir pensamentos, sentimentos, expressões e acontecimentos. Sim, você pode ficar bem informado acompanhando memes. Mesmo rindo (ou às vezes querendo chorar tamanha a realidade representada), ficamos sabendo de fatos políticos, resultados esportivos, situações engraçadas em um evento de música ou qualquer outra coisa que você imaginar.

Não duvide da capacidade memística do povo da internet e, claro, do brasileiro, que já nasce com a criatividade e a habilidade de rir de si mesmo correndo nas veias.

Por ter uma linguagem extremamente popular, é acessível a todos e pode ser considerado, inclusive, um dialeto próprio. Afinal, quem nunca comentou — ou não se sentiu capaz de opinar — com apenas uma frase de um meme memorável a história que seu amigo contou?

A junção tão simples entre imagem e texto, inclusive muitas vezes de forma tosca e com erros gramaticais, possui um poder de representar opiniões e de ditar conversas. Ou você sabe do meme do momento ou ficará de fora no papo do bar ou até no trabalho.

Há quem ache besteira, mas esse assunto é sério, tanto que em 2017 a Universidade Federal Fluminense criou o projeto #MUSEUdeMEMES, dedicado à preservação da memesfera brasileira. Antes disso, em 2009, o YOUPIX lançou a Memepedia, a primeira enciclopédia de memes do Brasil. Fora vários outros estudos e pesquisas que se dedicam a entender mais dessa cultura.

Só li verdades

Mas afinal, o que é um meme?

Segundo o estudo “In meme we trust”, 85% dos brasileiros costumam curtir memes na internet. Então, primeiramente, vale explicar que memes são virais, mas nem tudo que é viral é meme. O conteúdo viral repercute em seu formato original e sobrevive por um determinado tempo. Já o meme é reciclável e adaptável.

Você pode descrevê-lo como imagens engraçadas, sátiras de algum acontecimento recente, representações de uma situação bizarra, montagens criativas para criticar ou apoiar algo. Bom, não existe uma definição universal e, às vezes, é até um pouco difícil de explicar. Mas de acordo com o #MUSEUdeMEMES, meme “é um fenômeno típico da internet, e pode se apresentar como uma coleção de textos, imagens, comportamentos difundidos, desafios ou memórias compartilhadas”.

A expressão criativa e coletiva é a essência do meme.

Os memes desvendam várias nuances e também podem ser entendidos como uma nova forma de letramento midiático.

Esse tipo de conteúdo nascido na internet é ressignificado à medida que se espalha. Muda o texto aqui, adiciona um personagem ali (quem não ama um crossover?). Uma mesma ideia é mixada para transmitir várias ideias em situações diferentes, disseminando-se naturalmente em toda rede.

Seja para explicar melhor os fatos — de crises políticas a casos de celebridades — ou para emitir uma opinião sobre eles, é que o meme nasce. Simplificar um momento, que nem sempre dá para explicar com palavras. Fato esse que só aumenta a capacidade de viralização.

Olokinho meu

Normalmente, associamos meme à humor. O que não está errado, já que doses de ironia, sarcasmo e deboche fazem parte do que ele é. Em função disso, existe um certo descaso e uma compreensão equivocada, atribuindo o meme à cultura inútil, ao besteirol e à perda de tempo.

O meme não é só uma brincadeira de gente jovem e, além de um grande valor cultural agregado, carrega reflexões sobre temas da atualidade relevantes para toda a sociedade. São manifestações culturais capazes de influenciar inclusive os meios de comunicação mainstream.

Com a quantidade de informação e conteúdo que somos bombardeados diariamente, nem sempre conseguimos acompanhar tudo que está acontecendo no mundo. Pare para pensar em quantas vezes, depois de um dia intenso de trabalho, você chegou em casa e se deparou com boa parte da sua timeline compartilhando um mesmo meme e foi atrás descobrir do que se tratava. Fragmentos ou a síntese de um acontecimento são cada vez mais instigantes e interessantes. Não por acaso, 75% das pessoas já souberam de uma notícia política através de um meme.

Senhora? Senhora?

Que o meme faz parte das nossas vidas, não há dúvidas. Sua origem, porém, é um tanto difícil de precisar. É sabido que o termo surgiu na década de 1970, cunhado pelo geneticista Richard Dawkins, a partir de estudos genéticos sobre unidades de evolução cultural capazes de se autopropagar (qualquer coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma).

Nos moldes em que conhecemos hoje, já com a ideia de conteúdos atrelados ao alcance de público, foi nos anos 90, nos primórdios da internet doméstica. De lá para cá, o conceito de meme se estabeleceu e se adaptou ao mundo digital.

Foram, então, os jovens da Geração Z (nascidos entre meados dos anos 1990 e 2010) que impulsionaram a cultura do meme. Para a geração digital, comunicar com meme é algo natural, independentemente da temática. Muitas pessoas têm galerias prontas com frases e memes prontos para serem utilizados.

Mas não pense que apenas jovens, que já nasceram na era do smartphone, que consomem memes. A memeficação é um fenômeno sem distinções de público-alvo. Veja só:

Pessoas que responderam “sim” para a pergunta: Você costuma curtir memes?

95% — 16 a 22 anos

91% — 23 a 29 anos

89% — 30 a 35 anos

84% — 36 a 45 anos

75% — 46 a 66 anos

Segura esse forninho

Apesar de crises econômicas, políticas, sociais e pessoais, o brasileiro sabe se divertir. Os memes funcionam como pílulas de alívio para conseguirmos enfrentar tantos problemas. Aliás, 75% das pessoas acham que o meme ajuda a aliviar o stress do cotidiano. Ou seja, não há 7x1 que impeça o brasileiro de rir da própria desgraça.

Além disso, o meme já é, praticamente, patrimônio cultural do país. Em 2016, aconteceu a #PrimeiraGuerraMemeal entre Brasil e Portugal, a primeira batalha digital internacional registrada na história, tendo como campo de batalha o Twitter (que, a propósito, é onde nascem 99,9% dos memes).

A disputa teve como pivô a autoria do meme “in brazilian portuguese we don’t say”, que fez sucesso em 2015 ao fazer trocadilhos entre expressões inglesas e brasileiras. Entretanto, usuários brasileiros descobriram a conta “In Portugal We Don’t” e acusaram Portugal de ter roubado nosso meme — além de nosso ouro e pau-brasil há mais de 500 anos.

Indignados com o plágio, foi dado início à Guerra Memeal, com a criação de diversos memes em resposta à cópia dos portugueses. Os brasileiros comemoram a vitória quando o perfil @inportugalwe desistiu e apagou a conta no Twitter. Mas sim… De lá pra cá, mais algumas guerras de memes entre os dois países aconteceram.

Em tempos de vidas instagramáveis, com excesso de filtros e vidas perfeitas, a ironia dos memes permite os desabafos da realidade. O meme é tão contemplativo, que você pode tirar sarro de políticos, celebridades, mas principalmente dos dramas coletivos e de si mesmo — 46% das pessoas compartilham memes que traduzem seus problemas pessoais.

“Ah, não sou só eu!”. É o valor da sinceridade que gera união. Juntos e Shallow Now.

A comunicação instantânea de referências cruzadas é o que molda essa cultura digital e tão brasileira.

Memes não são bobagem!

São ferramentas que ajudam a expressar o que as pessoas sentem ou pensam e não sabem muitas vezes como verbalizar. São narrativas que dão conta de acompanhar as demandas efervescentes da atualidade, além de gerar uma sensação de pertencimento às “piadas internas da internet”.

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Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Mariana Staudt

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@mari_staudt | Jornalista que trabalha com marketing digital. Ariana que acredita em um mundo melhor.

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