A cultura precisa encontrar a morte

para lidarmos melhor com a Vida

A cultura que respiramos oferta um mundo pronto, em que a principal propaganda é a de que você não precisa, não deve, e não pode atuar sobre ele porque já está concluído. É uma perspectiva que te coloca como mero figurante transitando numa realidade intocável que se define pelo que dizem sobre ela.

São assim fabricadas as expectativas, vendendo modelos de vida, de “bem viver” e de “ser feliz” já pré-formatados, como pacotes de programas ou fôrmas segundo o que esperam de você. Sua aceitação pela Sociedade é uma permissão concedida que reclama correspondência. Qualquer parâmetro desviante é marginalizado, jogado à margem. E essa própria concepção de uma Sociedade, não como organismo social produto da diversidade, mas como entidade uniforme, é fruto dessa busca por moldes que possam garantir aceitação e pertencimento num mundo líquido em que coisas, pessoas e relações se fizeram descartáveis.

Esta aceitação individual e a busca pela correspondência aos modelos, favorece o isolamento de si mesmo e do outro, ou pelo outro. Tudo isso revela uma cultura que busca não viver riscos e desvios e que por isso tenta tornar previsível a realidade tentando determinar seus resultados.

Tais comportamentos são sutis e estão também inculcados no dia a dia de forma quase imperceptível. Reflita, por exemplo, sobre a timidez que te trava de interagir com alguém que você desconhece. Ou a característica que você reparou que te fez desviar, mesmo o olhar, para evitar o contato que a imaginação previamente te desenhou na mente. São medos, culpas, impressões, impulsos e repulsas, todos frutos de preconceitos construídos ao longo de muito tempo e estabelecidos em nossas mentes, que são comuns e por isto mesmo, vistos como naturais.

Este modo de vida moderno também é uma espécie de consumo. Consome-se o presente. E a campanha nas entrelinhas prega que é preciso viver intensamente o que existe agora, porque é dual o resultado: ou se existe, ou não se existe. Eis que há aí uma negação velada.

Negação aponta fuga e medo. Assim pode-se observar que a inexistência (ou chame de irrelevância) é o maior medo e a grande fuga que ficam evidentes nos comportamentos modernos. O medo do amanhã faz com que se tente replicar no hoje o mesmo dia de ontem. A constatação que ressalta desta análise é de que a nossa cultura não nos prepara para lidar com os ciclos de vida.

Um ciclo de vida se faz com nascimento, crescimento, reprodução e morte. A cultura moderna enaltece o nascimento e o crescimento, e não sabe lidar nem com a reprodução, nem com a morte, o que leva consequentemente à negação.

É preciso aqui partir tentando entender o que se nega.

O que é, então, a reprodução?

Reproduzir é permitir que um ente completamente novo e único venha ao mundo. A base da concepção reprodutiva sexual é a criação de um ser e organismo novo, único e diferente dos seus progenitores que permanecem no mundo com suas identidades. A reprodução no ciclo de vida, neste sentido, é a multiplicação pela criação.

Da mesma forma, sempre que nós aprendemos uns com os outros, a dinâmica envolve esta multiplicação criativa ao qual pode se ter como analogia a reprodução sexual. Na aprendizagem duas pessoas interagem cada um com sua própria “bagagem” de conhecimentos, inteligência, memórias, traços característicos, produzindo conhecimento novo tanto pra um quanto pra outro.

Cabe pontuar que aprendizagem se difere do ensino essencialmente por esta dinâmica de interação, que apresenta duas conotações diferentes para o mesmo termo “reprodução”. Aprendizagem pode ser vista como reprodução no sentido de multiplicação pela criação, enquanto Ensino é reprodução no sentido de réplica, cópia ou clone.

Hannah Arendt, uma filósofa moderna, no texto chamado “A crise na Educação”, se expressou muito bem a este respeito ao tratar da educação como um modo de introduzir as crianças no mundo e de assim permitir que o mundo se conserve em transformação. A educação é sempre um modo de aprendizagem quando permite a continuidade da mudança. A aprendizagem, portanto, é essa reprodução (no sentido de criar) que recorrentemente em nossa cultura se nega.

Foge-se desta reprodução porque sua prerrogativa básica em qualquer dos casos é abrir-se à interação com o outro, o que implica em se expor e confiar. E tais posturas foram ensinadas como ameaça por muito tempo, na prática, pela ideia de que o outro vai usar o que é “meu” em seu próprio benefício para ganhar ele com isso e me privar do ganho; ou que ele irá “me passar a perna”, “me dobrar” ou se aproveitar de mim de alguma maneira. Mas o principal está sob a ideia de que reproduzir é reduzir os meios e os recursos de sua própria sobrevivência. Sob este viés, o mundo é uma arena agressiva em que se vive uma permanente disputa, competição, realizando algo como as matanças da cadeia alimentar animal em que aparentemente não há recursos para todos, o que torna a “morte” do outro um contentamento pra mim, dada esta lógica de escassez.

Mesmo se olharmos literalmente, esta negação da reprodução parece refletida na reprodução sexual propriamente dita. Não que seja em si um problema, mas é aqui um indicador o fato de que nestes tempos modernos o número de filhos por casal declinou acentuadamente, tendo dentre as possíveis razões como raiz tais medos e inseguranças, reflexos de um mundo dinâmico, cíclico e com riscos aos quais não se está disposto a lidar.

Sob um outro ângulo, observe como existe esse comportamento no que envolve empresas e profissionais. O medo e a fuga de reproduzir é profundo. Os profissionais e as empresas já nascem — para os primeiros, ao se formarem — concebendo um crescimento contínuo, perpétuo. Não é concebível para empresas e profissionais nem a reprodução, nem sua “morte” (leia-se erros, declínio, ou o que se entende como fracasso).

O medo à reprodução no âmbito da empresa — que vai ser correspondido de diversos modos pelo profissional — fica claro quando:

  1. a postura é arduamente competitiva para acumulação, maximização e metas de lucro que sobre-posicionam a empresa a alguma necessidade humana importante, por menor que seja;
  2. a informação e o conhecimento são trancados de todos, mesmo dos próprios envolvidos, com cláusulas de sigilo ou omissões de planos e informações;
  3. a aprendizagem e a livre interação para o intra empreendedorismo autônomo de qualquer um é implicitamente proibida, praticamente abolindo a criatividade não relacionada ao que se enquadre nas metas e parâmetros da empresa, (embora mesmo qualquer padrão criativo incomoda);
  4. a hierarquia delimita a interação, a mobilidade (e quase a respiração) tornando as pessoas meras peças funcionais obedientes exclusivamente ao programa de comando e controle, eliminando desvios;
  5. qualquer possibilidade de conexão em rede ou criação de outras empresas pela iniciativa dos próprios funcionários é vista com total desconfiança e erradicada;
  6. qualquer ideia de aproximação e interação com outras instituições ou empresas que realizam o mesmo tipo de trabalho (os chamados concorrentes) é abominável a não ser que exista transação de interesses.

Quanto ao que se pode contra argumentar, referente às empresas, criar filiais não indica reprodução no sentido de criação de ente novo. A filial vive em função da sua Matriz. A filial é uma réplica, uma cópia de sua matriz, embora possua características próprias, não é um ente novo, porque obedece ao máximo a um programa pré-definido, mesmo tendendo sim a se individuar, não por um desejo ou intenção da matriz, mas como consequência cultural. Referente aos profissionais, de forma semelhante, gerenciar (ou liderar) por meio de comando e controle, manipulação ou autoritarismo de hierarquia não favorece a aprendizagem, pelo contrário, prega o ensino, a reprodução no sentido de cópia ou imitação. “Veja Steve Jobs. Seja, aja e faça como Steve Jobs.” Este tipo de idealização cria Salvadores (mitos) e busca extrair, encontrar, ou copiar “fórmulas” prontas.

Permitir efetivamente a reprodução, nos dois âmbitos, tanto no âmbito da empresa, quanto do profissional é empoderar pessoas (funcionários ou clientes) a empreenderem dentro da própria estrutura da empresa com liberdade. É permitir a livre interação para aprendizagem sem fronteiras de convivência. Isso faria da empresa algo como uma árvore, gerando novos frutos, empreendimentos em rede aos quais são sustentados pela distribuição dos recursos, imprimindo à árvore maior dinâmica numa auto modificação com o mundo. E faria do profissional um empreendedor dentro da concepção de Empreendedorismo líquido, aquele que volta seu foco de ação para a Vida vislumbrando-a como o modelo de negócios e não mais uma única ideia, concebida para ser eterna e infalível e por isso cristalizada como um fóssil no tempo.

Sobre o tema, segue um texto em que abordei o assunto ainda superficialmente:

Reproduzir nunca será ameaça, sobretudo se valorizarmos a diversidade e originalidade do outro, preservando sua capacidade de agir por si mesmo ante a realidade que apenas lhe apresentamos, isto é, sem impor quaisquer condições ou contornos a seu modo de ser no mundo. Quanto mais pessoas em convivência a entender e transformar o mundo, mais ele se torna habitável.

Das menores às maiores coisas, percebe-se um medo e fuga cultural desta reprodução, pois como posto acima, ela implica em abrir mão do que posso ter à mais pra mim, das garantias, da segurança, de mais possibilidades de sobreviver, para então ceder ao outro que entra no mundo em questão. Quem neste sentido reproduz, arrisca-se à morte pela falta do necessário, arrisca-se ao inexistir, o maior dos temores a que não se deve nem pensar. O medo de “morrer” em vários sentidos é perceptível. A morte culturalmente na sociedade só pode ser encarada quando se morre alguém de verdade. Do contrário, evite mesmo pensar.

É também por não lidarmos bem com a morte que somos imediatistas. Talvez por este medo gostamos tanto de mitos ou de mitificar as coisas e pessoas. É uma tentativa de permanência. O desejo de fugir à morte, quando alguém a venceu pelo sucesso e se imortalizou pela lembrança, numa “jornada do herói”.

Lamentamo-nos pelos que “se foram” santificando suas características e transformando-se os fatos para ocultar o que era humano demais e não permitir a identificação com as nossas próprias fragilidades. Talvez porque isto nos lembre que nós também somos mortais e que fatalmente iremos encarar as quedas, “a morte”, por diversas vezes. Nesse ponto, conceber que um dia vamos fracassar — aliás, pra ser exato, fracassaremos muitas vezes na vida — é justamente inconcebível (com o perdão da redundância).

O que é, então, a morte?

Essa pergunta é interessante e pode ser explorada de outro modo: O que vem depois da morte?

As concepções religiosas em sua maioria são unânimes em um ponto: a vida continua, porém em outra dimensão, seguindo o processo natural de ciclo em que um se fecha, ao passo em que outro se abre. Nada se perde, tudo se transforma — a frase de Lavoisier vai se encaixar bem ao nosso pensamento.

A morte então é transformação; mas não é, de nenhum modo, inexistência.

Não há aqui como uma constante somente a mudança. Outra também é a constante: a evolução. Pois não há Existência sem progresso. Não há ciclo sem renovação. Não há sentido sem multiplicação do que é bom. Não há Vida alguma sem continuação.

Se existe um Sentido para a Existência, uma razão maior de existir é “fazer a Vida”. Multiplicar a vida e seu potencial progressivamente é como uma Lei inderrogável.

E é instintiva a compreensão de que viver nos faz, em algum nível, melhores que ontem. Ainda que em níveis imperceptíveis para o outro, alguém aprendeu mais pela experiência que viveu, por mais que se relute nos caminhos do mal e da autodestruição, a aprendizagem não cessa. Neste sentido, embora para uma visão superficial se possa dar passo atrás, não se pode defender que o multiverso não demonstre como resultante a Evolução, uma vez que somos parte da obra evoluída, seres inteligentes, ante a concepção de um ontem primitivo, impovoado, ou menos vivo. Um ciclo introduz outro, mais elevado na ordem do progresso.

Interessante que é justamente os ciclos de vida — nascer, crescer, reproduzir, morrer e o seu recomeço — que elevam a Vida e que a faz contínua, eterna e progressiva. São os ciclos que fazem da impermanência, interminável, pois é a mudança propriamente dita. É do nascimento à morte que as coisas se transformam, mas é na renovação cíclica que elas fazem sentido, ao continuar.

Mas há de se admitir a dificuldade de ver. Há um apego à necessidade de que se comprovem as coisas. O ser humano moderno delimita a Verdade e a própria Existência ao que ele compreende, embora não tenha ele em absoluto nenhum acesso a outra que não seja sua própria perspectiva.

Tratando da comprovação de um modo literal, pra dar um exemplo, o simples olho físico humano não capta um mínimo do que existe em termos de comprimentos de onda (e toda cor é um comprimento de onda), e ainda assim prefere se fechar apenas às coisas que somos capazes de enxergar, negando a possibilidade da existência de todo um multiverso de dimensões que interpenetram a nossa. Há muito mais incompreensões na vida do que o contrário. Ainda assim, muitas pessoas determinam o fim em si mesmas, isto é, que só pode ser real aquilo que eu conheço e explico.

Por isso tantos vivem a fuga, o medo da morte (no amplo sentido ao qual neste texto abordo), ou a fuga de se “pensar a morte”. E é muito comum que isto crie culpas. Auto culpa (remorso) por não conseguir manter o passado, ou o “culpar o outro” (rancor) quando por este outro o passado se foi.

Esse comportamento, hoje ainda comum, revela o materialismo de conduta que traz prejuízos, porque obviamente não condiz com a realidade integral, mas é como uma resposta que tem sua origem no passado.

A trajetória histórica da Humanidade nos últimos tempos construiu evento a evento o ponto culminante de um movimento pendular. Na Idade Média, também conhecida como Idade das Trevas, uma instituição trancou longe das pessoas o conhecimento e infligiu a opressão se apropriando e corrompendo ideias libertadoras para fazê-las objeto de domínio com o uso do medo e da culpa. A resposta progressiva depois de um longo hiato martirizante iniciou-se com o Renascimento e sequenciou-se pela Reforma Protestante, Iluminismo, Movimentos de Independência, Revolução Científica, Revolução Industrial, Revolução Tecnológica. Com a mesma força com que fomos afastados do conhecimento, o conhecimento foi adotado como quase uma religião, algo que teve sua importância libertadora, mas que também encarcera num excesso de materialismo, que se incorporou nos comportamentos sociais e que agora também precisa ser contrabalanceado para enfim atingir um equilíbrio.

Tal materialismo excessivo forjou uma cultura com foco exclusivo na instrução, nas garantias, nos resultados, nas comprovações, algo que não melhora a convivência, porque a instrução, a técnica vazias não constroem virtude; somente a convivência melhora a convivência.

E há também um sentimento de vazio entre as pessoas por este não envolver com o que não se pode assegurar. O sentimento de vazio na realidade é uma resposta interna que diz: “não há vazio”. É uma resposta interna a um posicionamento vazio, ao vazio de sentido opcional, determinado pelo próprio indivíduo. Eu defino que nada que foge à minha compreensão pode ser real, assim, a primeira coisa que determino como ilusória é a minha própria vida, pois me apresenta a maior das incompreensões traduzidas nas perguntas: Por que estou aqui? Por que nasci? Quem sou eu? Qual o meu papel? E por fim, eu decido que do que não controlo, me afasto, assim, isolo-me no individualismo para fugir da imprevisibilidade que é o outro.

É importante que isto mude — e isso está mudando — com a descoberta do humano como um ser espiritual, um ser interdependente, que não é uma vida casual pra se encerrar num nada sem razão. Isto se faz, na prática, num senso de espiritualidade ao modo de cada um, que vai representar um resgate ao “emocionar”, parte tão fundamental para a aprendizagem. Isso vem sendo observado no crescimento, por exemplo, da religiosidade, que une diversas visões religiosas e a não-religião no sentido de um Humanismo como resultante.

Também, é importante romper com os modelos. Inovar a si mesmo no contato com um multiverso de pessoas a se descobrir. Quebrar expectativas. Ser quem eu sou, em qualquer lugar, abandonando máscaras, definindo princípios. Não aceitar, se mover, ou viver por modelos de vida, mas fazer sua a vida, demonstrando que não somos figurantes, mas protagonistas a efetivamente transformar o mundo, do pouco, a partir de atitudes, quando o melhor exemplo é a conduta, não os resultados.

É preciso cada um assim assumir-se responsável pelo mundo e atuar, no seu simples jeito de ser, mais cotidiano, rotineiro e mundano possível, mostrando aqui mesmo a disposição para a aprendizagem, para repartir, para presentear, para conviver, para superar e se manter sereno em qualquer circunstância, em meio a qualquer tipo de cenário, seja uma realidade turbulenta, ou confusa, algo que demanda guardar o otimismo de quem vê além da “morte” das coisas, sem precisar literalmente ver.

A melhor resposta à incerteza do futuro é a certeza de que os fracassos, as quedas e as perdas são coisas itinerantes, mas que podem não mais abalar seu estado de serenidade quando se compreende que eles são parte do caminho, expressam uma lição de contraste que me permite sobressair a minhas fragilidades. Reconhecendo os lados de mim mesmo, é o modo que eu me torno mais certo de Quem Eu Sou e menos instável, assumindo minha posição e designando quem sou no mundo a partir da minha convicção pessoal do que decidi ser para o mundo.