A decadência de Lula não é pra ser comemorada: é pra ser pensada

Vendo a fala do Lula, só consigo pensar em como é impressionante a falta de aprendizado. Desde 2005 a forma de lidar com as notícias sobre corrupção é a mesma: espanto, ranger de dentes, bravatas, choro, ameaças, frases feitas, e uma insólita pose de vítima, de marido traído.

Não se pode dizer que o povo não lhes é simpático. Ele aceitou essa versão dos fatos uma, duas, dez vezes. Mas chega uma hora que até o mais crédulo dos pais fica ressabiado quando a filha aparece grávida mas conta “que não sabe como isso foi acontecer”.

A verdade é que já vimos políticos (especialmente do PT) adotando o mesmo script vezes demais. Mesmo se não nos lembrarmos totalmente no momento, aquela sensação de um dejavu amargo fica na boca.

Genoino, Dirceu, Vaccari, Silvinho Pereira, Delúbio, Delcídio, André Vargas, Gleise, Dilma e o próprio Lula (além de outros que não me vêm a memória agora) representaram esse mesmo papel, repetidas vezes, sempre parecendo surpresos com o fato de que, enfim, aqueles atos que praticaram ERAM SIM, corrupção, e não uma maneira unortodoxa de defesa dos mais pobres.

A história está cheia de heróis que se sacrificaram em prol de um ideal. Gente que foi cravejada de balas, que se apartou da família, que levantou suas vozes. Gente foi assassinada, passou fome, foi presa, viveu verdadeiros pesadelos para serem ouvidos, e por isso são reconhecidos como mártires hoje em dia.

Vendo Lula falar, me passa a impressão de que ele se vê como essa gente. Parece que ele tem de si a imagem de alguém que aceitou o fardo dos hoteis 5 estrelas, lanchas, sítios, tríplexes, lençóis de linho egípcio, cerimônias de beija-mão e puxadas bíblicas de saco EM PROL DO POVO. Como se tivesse aceitado sujar sua alma imaculada apenas para favorecer os mais fracos. Que usou da influência que tinha para conseguir cargos e desvios só e tão somente porque o projeto do PT era muito importante para o país.

E pior que isso, quer que todos nós acreditemos que a corrupção deles é intrínsecamente diferente da corrupção dos outros, como se essa dicotomia fizesse algum sentido.

Sinto muito, mas para um povo que experimentou uma pequena melhora na vida nos últimos anos e agora está vivendo o pesadelo de voltar à condição anterior, essa ideia não cola. Aliás, não cola nem para um Suíço. Ninguém acredita no sacrifício de luxo.

Não tenho dúvida que, em comparação, Lula possa ter embolsado menos grana que outros. Na verdade, para os fins de seu projeto (se tivesse dado certo), ele não precisaria de mais grana. Lula queria ser Rei (e foi), depois mandar na Rainha (e quase conseguiu), Rei de novo (e conseguiria) e então, viveria sua velhice perpetuamente como um Yoda nacional. Um caso único de unanimidade inteligente. Me espanta a ingenuidade desse plano. Tem tubarões maiores e mais ameaçadores que nadam por essas águas a mais tempo que ele, e vocês sabem: malandro é o tubarão, que já não tem pálpebra pra poder dormir todo dia de olho aberto.

Tivessem aproveitado a primeira oportunidade para mudar atitude, o PT estaria muito mais forte hoje. Ou a segunda, a terceira, a quarta. Mas a essa altura do campeonato, Lula pode chorar, bravatar e fazer pouco dos procuradores que o denunciam. E ainda que seus advogados sejam muito bons e o mantenham fora das grades, o estrago em sua imagem e na do partido está feito. Enquanto não mudar, de eleição em eleição, o PT vai diminuir e, vejam que ironia, como aqueles que ele diz que defende, vai morrer de inanição.

Não há nenhum motivo pra comemoração. O PT é talvez o único partido com cara de partido que nasceu no Brasil desde a redemocratização. Tinha ideologia, tinha base, tem militância. Não resistiu à essa doença chamada poder.

Pra usar metáforas futebolísticas, que Lula gosta tanto, talvez o melhor no momento para o PT seria um humilde rebaixamento a uma liga inferior, para ver se consegue voltar a jogar de igual para igual com os times grandes. E se consegue, de uma vez por todas, voltar a ganhar sem precisar comprar o juiz, mesmos que outros comprem.

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