A desumanização das mulheres no fascismo emergente

Foto: Mídia Ninja

Uma das últimas carreatas do candidato do PSL à presidência chamou atenção por vídeos divulgados com músicas que insultavam e menosprezavam as mulheres feministas e de esquerda. Uma das comparações era entre a mulher de esquerda e a de direita, esta última, para os eleitores e para o candidato, é “mais bonita e limpa”. Não vou entrar aqui nos detalhes dos adjetivos humilhantes usados para classificar feministas e nos bordões despejados pelos eleitores durante a passeata. O que me fez perceber o problema ainda mais fundo é a facilidade com que essas pessoas desumanizam a mulher, ou como o fato de uma mulher não corresponder aos padrões de feminilidade a torna desumana, indigna de direitos, de respeito.

A tentativa de ofender as mulheres que se colocam contra o candidato e suas ideias fascistas não teve impacto quando chegou aos grupos de feminismo, pois estamos justamente lutando para romper os estereótipos de gênero e retomar a liberdade do seu corpo. A problemática não é essa. A questão é mais séria do que parece.

A questão é objetificar o sexo feminino, torná-lo propriedade pública para bradar sobre seu corpo em público com um bando de homens, e então minimizar esse corpo, rebaixar e humilhar os corpos das mulheres feministas, de esquerda. Isso beira à violação. Isso é violação. Expor corpos de determinadas pessoas, expor um grupo violando seu corpo com palavras, subjugar e humilhar este corpo.

Ainda, falavam que, como nós não nos encaixamos em determinadas características atribuídas forçadamente como femininas, como nós não servimos para o consumo masculino, para o deleite da sociedade e para a sexualização, então nós não servimos. Nós não merecemos a vida. A escolha. A liberdade. É isto que esse ato e as propostas desse candidato representam. Mulheres que não estão dentro da feminilidade nem que minimamente, que não sorriem quando apanham, que não são gentis quando são abusadas, que não são educadas porque devem ser, que se colocam como cidadã, como ser humano, essas mulheres não merecem respeito. Essas mulheres merecem ser rechaçadas, humilhadas, pois são menos do que seres humanos.

Na sociedade que vivemos hoje, incentivar o ódio contra o gênero feminino é totalmente violento. Incentivar o racismo com os números que temos bem na nossa frente, é genocida. Eleitores e simpatizadores dessa ideologia perigosa puxam os gatilhos do feminicídio, rasgam nossa roupa nos estupros e continuam rodando a engrenagem que nos mata todos os dias. Além de termos nossos direitos conquistados com muito sangue questionados e ameaçados, também sofremos tal exposição e objetificação em um ato do próprio candidato à presidência, e ninguém está aqui para nos proteger, para calar quem grita pela violência. Concordar com esse acontecimento e ainda continuar seguindo esse homem depois de todas suas declarações é desumanizar todas as mulheres, suas filhas, suas irmãs, suas mães, suas parceiras. Mas pelo visto elas também não são tão importantes quanto o vosso poder e desejo de poder, de dominação e violência.

O que o candidato do PSL e seus eleitores fazem é desumanizar-mos. Expor nossos corpos como questão pública e tentar nos tornar sujas, impróprias. E eu não aceito ser exposta e tratada como menos do que humana, nós não aceitamos e nem aceitaremos. Mais uma vez, nos unimos e fizemos por nós. Também deixo aqui minha profunda vergonha dessas pessoas que me desumanizam, que falam do meu corpo como se fosse rua, aberto para olhares e indagações num microfone em cima de um pódio com tudo o que representa violação para mim. Sou humana, e me torno mais mulher a cada dia, mulher minha.