A Ditadura foi o Lulismo dos nossos pais e avós

Vernizes do tempo e a nostalgia que fazem muitos ignorarem a história

Manifestações pelo Impeachment da Dilma Rousseff em 2015 (Arquivo pessoal/Flavio Barboni)

Nas inúmeras discussões sobre o retorno do militarismo com pessoas mais velhas, que resultou na eleição de Jair Messias Bolsonaro como o 38° Presidente do Brasil, sempre ouço o discurso: "naquele tempo de Regime Militar a população tinha emprego, não tinha violência e nem corrupção". Nostalgia pura é bobagem?

Esse vídeo atribuído ao suposto diretor de jornalismo da Globo, Carlos Henrique Schroeder, falando sobre o período diz tudo:

O vídeo é parte da pós-verdade que tem dominado as campanhas com força nas últimas eleições mundiais (o cidadão no vídeo NÃO é o verdadeiro Schroeder), mas serve para embasar este texto.

Durante a campanha presidencial de 2018, a candidatura petista bateu estaca na nostalgia recente. O sentimento de "como éramos felizes" se baseava na estabilidade econômica dos dois mandatos de Luís Inácio Lula da Silva e do primeiro de Dilma Rousseff.

No período de 2003 a 2014 a população comprou carro, casa, eletrodomésticos, formou os filhos, ascendeu à classe média. O custo disso (corrupção, endividamento, aumento do custo da máquina pública etc) não vem ao caso.

Foi a era do pleno emprego, em que as taxas giravam entre 4%, estrato esse que geralmente representava pessoas em busca de novas oportunidades e não de desempregados de fato. O Brasil se tornou a sexta economia e chegou a apresentar crescimento de mais de 7%.

Para quem mudou de vida - 35 milhões em dez anos, segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República - o período dos governos do PT foram memoráveis, mesmo que ao final, essa camada da população tenha sido a principal responsável pela derrocada atual do partido em todos os âmbitos.

(Arquivo pessoal/Flavio Barboni)

Brazilian Way of Life

No começo da década de 1970, o Regime Militar que sustentava o presidente Ernesto Geisel provocou sensação semelhante aos contemporâneos.

O período conhecido como "Milagre Econômico" apresentou crescimento anual entre 7% e 13%. Milhares de empresas se estabeleceram no país, as que aqui já estavam ampliaram postos de trabalho.

Selo comemorativo do tricampeonato mundial de futebol, um símbolo do “Milagre Econômico” (Wikimedia Commons)
Surgiram gigantes nacionais, principalmente na construção civil, algo muito semelhante às campeãs nacionais que se fortaleceram no governo petista.

A família do meu pai, recém-chegada do Sul de Minas Gerais, e a da minha mãe, da divisa de São Paulo com o Mato Grosso do Sul, lembram que ao chegar no ABC Paulista, não faltava emprego.

Logo após o trabalho, veio o carro, a geladeira, calças jeans, óculos Ray Ban, cigarros Marlboro, refrigerantes e até a televisão. O boom da construção civil e da indústria fez o preço dos materiais de construção reduzir, o que ajudou a todos os membros da família conquistar a casa própria. Era a verdadeira realização do Brazilian Way of Life!

Meus pais me contam (e se você perguntar para os seus, é provável que eles confirmem a mesma história) que era tranquilo andar à noite, de madrugada, sem se preocupar com a violência urbana.

Existiam muitas dificuldades, possivelmente muita corrupção e, sim, problemas de violência e pobreza, mas certamente houve evolução. Assim como durante 2003 e 2016.

No meio da década de 1970, o roteiro que derrubou Dilma Rousseff, o PT e o esquerdismo levou à derrocada do Regime Militar - apesar do ritmo mais lento, já que o Brasil só voltou às mãos de civis em 1985.

Desfile militar em 1968, na Avenida Presidente Vargas, no Rio (Wikimedia Commons)

Os movimentos contra a Ditadura foram fortalecidos pela mesma população que se beneficiou do período de bonança. Um paralelo com a situação atual.

E hoje, 2018, o Regime Militar e todas as suas consequências sociais e violações ficaram mais "brandos" com os vernizes do tempo.

Apesar de ser difícil entender, pois muitos de nós não vivemos aquela época, é possível compreender a sedução por uma candidatura militar, que carrega o ranço e temores típicos da Guerra Fria, desengajada com direitos civis, mas alinhadas a pautas como segurança pública e propriedade privada.

Os motivos da nostalgia certamente são diferentes dos tempos petistas. Em termos de condições de governo, é impossível comparar uma época democrática como a que vivemos durante os anos 2000 (claudicante, sem dúvidas) com um regime ditatorial.

Durante o petismo, não houve tortura, desaparecimento de presos políticos, chacinas, atentados, perseguições a manifestações, censura e outras violações aos diretos humanos e políticos. O Congresso era aberto e o povo podia escolher seus candidatos, criar novos partidos, o direto à expressão era garantido, enfim, uma verdadeira democracia.

A semelhança entre os momentos históricos é APENAS pelo apego à nostalgia, o desejo de trazer "aqueles tempos, sim, que eram bons"...

Porém, o acidente estratégico do PT (e do projeto do candidato Fernando Haddad) é que ainda vivemos os resquícios do governo petista.

As memórias ainda são muito vivas, há muita documentação disponível, terreno farto para fake news e para reinar a pós-verdade em uma população desejosa por mudanças e desesperadas por soluções finais e salvadores da pátria.

Talvez daqui 30 ou 40 anos, nós faremos um movimentos em prol do retorno do petismo, com os vernizes cobrindo ressaltando todos os acertos e embaçando os erros do período de Lula e Dilma.