A ESPIRAL DE AVENA E OS PERIGOS DO CONSENSO

Não há nada de mais em não conhecer a teoria da Espiral de Silêncio, proposta em 1977 por uma cientista política alemã chamada Elisabeth Neumann. Mas numa conversa sobre Ciência Política, se você não conhece essa teoria, por favor, não admita. Não confesse. Você pode sentir uma sensação terrível de isolamento, já que todos os analistas ao seu redor saberão o que Neumann quis dizer. E sim, é exatamente isto a Espiral do Silêncio, que nove entre 10 estudantes de Comunicação Social estudam no primeiro período: alguém que se cala para não sofrer.

A ideia principal da teoria de Neumann é a de que existe uma opinião dominante — o que, vá lá, não é tão fora da realidade assim. Digamos que, em futebol, por exemplo, a opinião dominante seja…ser Flamengo (opinião da qual partilho). Em assim sendo, os (poucos) torcedores, por exemplo, do Botafogo, pela teoria de Neumann, pelo medo de isolamento, não expressariam sua paixão por temer (ops) desgastes. A tendência assim é que outros torcedores do Botafogo também se calem, passando a impressão de que o Flamengo é realmente unanimidade, e que todos compactuam com isto. E tem mais: na teoria proposta por Neumann, quanto menor é o grupo, maior é o sofrimento social de quem ousa expressar a opinião.

Da parte do silêncio, a teoria não se aplica aos torcedores do Botafogo, haja vista que se trata de torcida barulhenta e apaixonada. Já a parte do sofrimento social, bem, neste ponto Neumann acertou, já que torcer pelo time de General Severiano se tornou um calvário comparável a grandes e longas travessias pelo deserto sob um sol escaldante.

Mas sigamos em frente, pois vamos tratar aqui é de uma vítima do Fla-Flu das Redes Sociais e que, por uma mera distração, saiu da Espiral do Silêncio, e acabou sendo alvo da reprimenda de quase todos seus amigos.

Raphaella Avena é uma jornalista, publicitária e DJ carioca de 34 anos que ganhou notoriedade nas redes sociais antes de ganhar ainda mais fama nas noitadas cariocas comandando as carrapetas. Ruiva, cara de muito mais nova, com tatuagens cobrindo o braço, defensora dos direitos de gays, lésbicas e trans, quem conhece Avena pensa: está aí uma eleitora do PSOL ou do PC do B, quiçá PT.

Sim, isto também é pré-conceito. E sim, estamos acostumados a manter na memória os estereótipos. Só que quem conhece Avena se choca: ela é de direita. E isto basta para sentirmos horror e nos afastarmos dela.

Bom, não senti horror depois de 10 minutos de conversa. Me contou que defende o direito de gays adotarem crianças. Defende o direito de gays se casarem. É a favor da redução da maioridade penal para casos em que menores cometam crimes contra a vida. Mas diz que não acredita em redução da maioridade penal para menores que cometam crimes contra o patrimônio, para meninos de rua. “Estes precisam é de visibilidade social”. E eu: “hã?”. Visibilidade social era um termo da esquerda. Mas Avena não é de direita?

Há pouco mais de um mês, Avena resolveu aceitar convite de amigos e ser pré-candidata a vereadora pelo Partido Social Cristão, o mesmo de Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. E, por outro lado, o partido que tem coligado com a Rede de Marina Silva em algumas cidades do interior paulista. Quando Avena tomou esta decisão, quase 80% de seus amigos, principalmente os gays (que eram muitos), a abandonaram. Pergunto a ela se não é meio incoerente ser amiga de tantos gays e entrar no PSC.

- Olha, o PSC tem uma proposta de modelo econômico liberal, com menos Estado, com um Estado mais eficiente. Mas é saudável que, quando falamos de direitos individuais, haja várias opiniões, várias discussões. Se você for ver, a maioria dos partidos rejeita esta pluralidade — me diz ela, depois de ressaltar que os amigos mais próximos permaneceram com ela.

Mas doeu em Avena a execração pública:

Sim, o post acima teve dezenas de comentários, curtidas, compartilhamentos. Avena nega as acusações de que o partido “dissemine a homofobia”.

- Eu não teria entrado para o partido. E posso garantir que não há sentido em se acusar os Bolsonaros de homofobia. A briga deles é contra ensinar crianças de seis anos sobre sexo, apenas isso — explica. — Mas a execração pública não foi o que mais me doeu. O que mais me doeu foi a traição de quem me conhecia de perto e de repente me julgou oportunista com os gays — diz. Avena tenta explicar isso tudo há semanas.

O problema é que contra a Espiral do Silêncio, existe um Carrossel de Barulho, ou seja, os ex-amigos não deixam que ela explique o posicionamento. Já sofreu vários ataques nas redes sociais. Tudo o que ela escreve recebe comentários hostis — e muitas vezes recebe xingamentos nos vídeos. Ressalte-se: Avena não roubou, não matou, não defendeu nenhum ladrão, é uma pessoa comum, com ideias e conceitos do que pode tornar a vida do brasileiro melhor. Formada em Jornalismo e com pós-graduação em Jornalismo Político e Roteiro de Cinema, ela se vê diante de uma situação curiosa: tentando se defender daqueles que ela sempre defendeu.

A reação contra Avena, claro, a deixa preocupada com relação à candidatura. Mas ela diz que não vai desistir. Teme pelo Rio pós-Jogos Olímpicos e acredita em poder contribuir, com projetos que melhorem o dia-a-dia, que gerem emprego e renda e facilitem a vida dos cariocas — tanto dos cariocas humanos quanto dos bichos. “Tenho três gatos adotados e quero adotar cachorros”, diz.

À parte as questões sobre Bolsonaro e Feliciano, que evidentemente dividem opiniões, é importante fazer um alerta contra o Consenso na área de política. O historiador Robert Gellately lançou, há alguns anos, seu espetacular livro Apoiando Hitler, no qual desmistifica a tese de que o regime da Alemanha era 100% ditatorial — e desmistifica também a tese de que o alemão médio desconhecia os campos de concentração. Na verdade, o que se construiu na Alemanha de Hitler foi um grande consenso para que os nazistas chegassem ao poder. Devemos rejeitar, é claro, ideias que impliquem em segregar pessoas, seja por que motivo for — por orientação sexual, cor da pele, opção religiosa. Mas ao mesmo tempo, é mister que nossa sociedade tenha as condições de discutir todas as formas de gestão e administração da coisa pública, para que não se crie consensos perigosos. E, por favor, não estou chamando ninguém de nazista, abomino o reductio ad Hitler.

Mas não podemos esquecer no que resultaram as espirais de silêncio na Alemanha de Elisabeth Neumann uns 40 anos antes de sua teoria aparecer.