A falta de ar que o alimenta

Quando há medo de repetir erros do passado

Fernanda La Ruina
Sep 6, 2018 · 2 min read
https://www.pensador.com

Hoje ele me disse tanto e tanto que não me cabe. Não me cabe julgá-lo, não me cabe deixá-lo, não me cabe nada mais do que sorrir e dar a ele todo amor que guardei na panela de pressão que dava conta de tanto e tanto. Todo o contentamento que trazia em palavras ainda não ditas e que já falavam tanto.

Clarice fala sobre ter de haver medida ao amor e aos sentimentos. Algo deveria caber em e não apenas caber a. Você me entende? Esse seria o mundo dos sentimentos. Quem o definiu assim? Uma ucraniana brasileira ou uma personagem criada por ela? Justo ela, filha do fogo, dizendo-nos que haveria de haver medida ao que sempre foi e é imensurável.

“Não acho q exista medida”, disse ele. “Há amor desmedido. E nesse amor nos tornamos medida um do outro.” Alguém me soaria mais lógico torto e me doaria palavras mais minhas do que ele naquele momento? “Minha escala não me serve mais. E a sua me parece desajustada”, afirmou aquele a quem meus ouvidos e olhos se direcionavam com tamanho espanto, por me ver espelhada em alguém que soava oposto complementar; um tipo de aquário sem água a guardar leões.

Duvidando de tamanha eloquência incoerente, já que eu ouvia o que não via, questionei. Ele, sem temer, prosseguiu: “Pq não cabe no meu passado. Nisso há que se definir novas métricas. E nos redefinir.” Seríamos nossas novas medidas. Ele dizia com uma mente de ar que não falava de um peito sem água e tão afoito. Eu amava o que ele queria ser — e me via, de certa forma — e ainda questinava o que percebia.

Pareceu-me que ele quis dizer que havia em si um amor tamanho que mal cabia dentro de alguém que se acostumara a dar pouco. Ele fazia planos, em tão poucos dias, tirados de um livro de vida inteira. Dizia que não queria filhos, mas caso eu os quisesse os teria e os frutos meus seriam seus maiores amores. Amores de ar enganam, mas eu ainda o ouvia enquanto seguia falando de seus medos aos meus ouvidos brandos.

Ele temia que erros antigos se acometessem e eu fosse o seu fracasso. Questionei-o sobre o porquê de tal medo. Eu disse a ele, em outras palavras, que nossas métricas e instrumentos eram novos, recém comprados, limpos e sem marcas de outros usos. Não há o que temer. Nossos erros e centímetros tortos serão outros. Eu cria nisto como cheio de ar meu pulmão crê na falta de ar que o alimenta.

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Fernanda La Ruina

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Poesia não versada sobre o banal e o belo. Catarses para o seu deleite. Escritora, linguista, aprendiz de roteirista. Parcerias: fernandalaruina@gmail.com

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