A frieza da gente

Quando simplesmente nada mais faz sentir.

Registro feito pelo fotógrafo paulistano Edu Leporo para um projeto incrível que você também pode conhecer clicando aqui.

São Paulo anda num frio ardido que tá complicado. Hoje de manhã coloquei minhas 4 blusas mais quentes, uma por cima da outra, e sem me preocupar com qualquer estilo ou combinação da moda, tomei coragem, vesti a toquinha de lã comprada em Campos do Jordão e saí de casa, na esperança de que toda essa quantidade de tecido me protegesse de alguma coisa.

Vencido o vento da rua, que parece ter sido treinado para invadir as camadas e mais camadas de casaco, abri o Facebook antes de começar a rotina diária de escrever, editar, etc e tal, e vi pelo menos 5 relatos de pessoas amigas — jornalistas — relacionadas a moradores de rua e suas mortes ocasionadas pelas baixas temperaturas. A maior parte dessas pessoas estava na calçada, com uma ou duas blusas, provavelmente doadas, mas não foi o suficiente; na madrugada paulistana, convulsionaram até não sentirem mais nada.

Morreram, se não literalmente, mas quase lá, congelados.

Parei pra pensar, então, que nem se o mundo inteiro vestisse meus quatro casacos daria para suprir a frieza da gente, essa indiferença ou distanciamento que criamos diante dos demais seres humanos a ponto de apenas nossa vida, única e simplesmente ela, ser notável. Importante. Digna.

Precisamos parar de achar que está tudo certo. E que “já tem gente o suficiente fazendo caridade pra gente se mobilizar”. Até isso já fui obrigada a ouvir por aí.

Refleti sobre mim mesma antes de falar sobre os outros cagando regras e estimulando toda a comunidade civil a se mobilizar diante dos moradores de rua e suas mazelas. Achei, então, que o meu relato pessoal sobre São Paulo pudesse fazer diferença na vida de vocês e talvez ganhe algum sentido, nesse cenário atual, se compartilhado por aí. Segue abaixo.


Nasci e morei 17 anos em Santos, litoral paulistano. Lá, ricos e pobres andam próximos — talvez pelo tipo de entretenimento do povo, talvez pela praia ou talvez pelos morros, que se mostram presentes desde a chegada de qualquer turista pela Serra do Mar. Há muitas favelas, muitas enchentes, muitos pequenos furtos, é claro, como qualquer cidade turística que se preze, mas a minha realidade sempre foi de conforto e atenção. Em Santos, estudei em um famoso colégio de elite com gente que nunca precisou se importar com um colchão fofinho ou com um chuveiro quente ao final do dia. Uma banalidade nada banal, dessas que ninguém, de fato, para pra agradecer. Fiz duas graduações em uma universidade particular, trabalhei e estudei durante todo esse tempo por São Paulo e desde que coloquei os pés na Praça da República, pela primeira vez em 2004, notei um número bastante alarmante de moradores de rua — e de gente que claramente fazia alguns serviços informais para tentar (sobre)viver.

Eram crianças, adolescentes e senhoras. Bebês sendo amamentados na sarjeta. Quase todos descalços, com a roupa do corpo, judiados pela rotina, descabelados, sujos, com um olhar vazio e sem rumo. Durante meu horário de almoço, por pelo menos 6 meses, passei a conversar diariamente com um grupo de crianças entre 5 e 13 anos, que tentava encontrar clientes que desejassem engraxar seus sapatos. Lembro de todo mundo fugir deles como se tivessem alguma doença. E aquilo me comovia tanto, que eu gastava praticamente todo o meu vale refeição em McDonald’s para os cinco mini engraxates que cruzavam meu caminho todos os dias; eu não conseguia ser indiferente aos pedidos, aos sorrisos e às mordidas de satisfação de quem não sabia a hora da próxima refeição. Aquelas crianças vibravam com as surpresinhas do McLanche Feliz, como toda a criança deveria ter o direito de vibrar de vez em quando, e me fazia feliz fazer os outros minimamente felizes. Comecei, então, a tentar realizar um mini movimento para que aquelas pessoas fossem ajudadas de outras formas — com roupas, calçados, artigos de higiene ou qualquer que fosse a necessidade do meu mais novo grupo de amigos, mas entre um e outro colega constrangido com o meu pedido, apenas 2 ajudaram de fato. Com roupas e brinquedos de seus filhos já adolescentes.

Vale lembrar que nesse período, eu trabalhava na Secretaria Municipal De Habitação e, diariamente lidava com realidades ainda piores que a dos pequenos engraxates, mas o curioso é que só eu, ainda não entendi bem o por que, parecia me importar. As pessoas, no meu departamento, me chamavam de louca. Falaram que não era adequado que uma jovem como eu criasse intimidade com “esse tipo de gente” — e que agora, que eles sabiam onde eu trabalhava, ficava mais fácil exigir as coisas. Que eu poderia ser assaltada, perseguida, que eu poderia ser mais uma boa samaritana que viraria estatística. E que eu era tola em acreditar que eles não eram marginais viciados em drogas, sem caminho de volta.

Não dei ouvidos.

Insisti em ajudar aquelas pessoas até que, um dia, fazendo o mesmo caminho de sempre, fui informada pelo porteiro do Edifício Martinelli que o prefeito fez uma “desinfestação” nas áreas históricas do Centro — era assim que eram chamadas as ações de remoção de moradores de rua para os tais abrigos municipais. Como se fossem barata. Como se a eles não fosse permitido o acesso às vias públicas, uma educação de qualidade, um pedaço de papelão, que fosse, para deitar embaixo da marquise.

E eu mudei de emprego. Uma, duas, algumas muitas vezes. Mas nunca deixei de pensar naquelas pessoas que sequer tinham sobrenome. Marquinhos, Guilherme e Washington, que não sabiam escrever. Que não tinham certeza da data do próprio aniversário. Que haviam tido suas casas desapropriadas (por pessoas como eu, olha só!) pela própria prefeitura que deveria protegê-los. Que não sabiam quem era o pai, não tinham contato com a mãe e que se alimentavam porque uma vizinha, mais abastada, doméstica, ficava com dó e lhes dava as sobras.

Marquinhos tinha 5 anos e seu sonho era ganhar um par de tênis de jogador de futebol. Esse eu realizei. Entretanto, hoje me ocorreu que talvez fossem os meus meninos um dos tais da sarjeta. Congelados. Sem meia, casaco ou cobertor. Que se não fosse o dia deles hoje, talvez amanhã, ou depois, quem sabe? Ainda temos muitos dias até o fim do inverno. Ou pior: talvez já tenha chegado o encontro precoce de um deles com o destino fatal de todos nós, a morte. Uma pena.

E termino esse relato dizendo que mesmo depois de 12 anos morando em São Paulo, simplesmente não consigo não me importar. Não fui acometida pelos preconceitos em relação a quem não teve de onde se levantar, não sou, ainda, movida pela indiferença. Sempre que possível ainda pago McLanches Felizes por aí, e, da última vez, foram 12 de uma vez para um outro grupo aflito de fome. E que deveríamos parar de reclamar do frio — que é implacável a todos — mas muito mais cruel com alguns.

A gente pode fazer muita coisa pelo outro. E eu juro, nem é preciso de tanta coragem pra isso.

E que se o clima não ajudar, ajudemos como for possível, a internet já deu uma forcinha. Afinal,#MoradorDeRuaTambemSenteFrio.

E você pode começar por aqui.

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