Thiago de Loreto
Jul 20 · 3 min read

A felicidade virou lei e você precisa transgredi-la

Photo por: Rob Swystun — Creative Commons

“Estou numa fase de compor músicas infantis”, disse Chico Buarque antes de cantar João e Maria. A letra é baseada, segundo o autor, em uma conversa de crianças, com recheio de realismo mágico à lá Gabriel García Márquez, e embalada pela melodia originalmente composta pelo maestro Sivuca.

Quando escutei tal frase, logo me lembrei da infância que tive em Porto Alegre, agitada e cômica, entre o futebol e as brincadeiras de rua, e aceitei minha completa incapacidade de ter um diálogo filosófico como propõe a música. Eu era uma criança sem expectativa de virar rei, bedel ou juiz, e nem desejava enfrentar batalhões de qualquer etnia que fosse. Tampouco teria um cavalo que só falasse inglês, porque, veja só, se hoje em dia eu mal me comunico na língua de Shakespeare, imagina há vinte anos. Coitado do animal, ficaria sem um amigo para conversar e, provavelmente, pastaria longe de mim.

Mas nem tudo na letra de Chico está assentado na fábula poliglota ou no fantástico mundo infantil. Em certo ponto, ele canta. “E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz”, trecho que exibe não só os desejos de brincar e de amar, próprios da infância, mas também mostra a sinuca de bico em que vivemos hoje. A gente se obrigou a ser feliz o tempo inteiro e, peço desculpas aos entusiastas, isso não tem nada de lúdico.

Pouco a pouco, deixamos de aceitar a tristeza como nosso acessório de fábrica e, portanto, negamos um sentimento intrínseco ao ser humano. Acho que a criança da música era boa em criar leis e, devo confessar, se os outros feitos também forem reais, teria medo de vê-la conversar com o cavalo.

Não, não podemos deixar crianças criarem uma lei tão séria. Tenho o direito de sentir tristeza e não abro mão. Entretanto, deslizo a tela do celular, futrico no computador com movimentos incansáveis, para cima e para baixo, e só vejo sorrisos, festas e gente impecavelmente elegante e bonita. Cadê a tristeza dessa gente? Será então que todos meus amigos, conhecidos e familiares estão imunes às tristezas? Qual vacina eles tomaram? Todos seguem a lei, só pode ser isso. Então, penso eu, sou um transgressor do código penal da letra do Chico Buarque? Perdoem-me, João e Maria, mas vocês não podem me obrigar a ser feliz o tempo inteiro, posso argumentar diante do juiz no intuito de diminuir a minha pena.

Na falsa vitrine das redes sociais, nos deleitamos ao consumir o conteúdo da vida alheia, sempre sedenta por mostrar momentos felizes — se possível, com festival de stories, diariamente -, e acabamos por relegar os momentos de tristeza, de solidão e de reflexão interna, todos fundamentais para o desenvolvimento da vida, para a saúde mental e para entendermos o que vale a pena no universo caótico que nos cerca.

Definitivamente, sou contra essa lei, não gosto dos seus efeitos colaterais, embora goste muito da música.

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Thiago de Loreto

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Literatura | Jornalismo | Porto Alegre-RS

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