A geopolítica mundial e a revolução dos bichos

O livro de George Orwell e sua relação com a eterna crise da humanidade

Representação de um dos clássicos da literatura atemporal. Fonte: Uol imagens.

Tenhamos em mente um mundo ideal: a mídia, corroborando com seu múnus público, é um dos braços direitos do povo contra o totalitarismo estatal, exercendo sua atividade em prol do bem comum. Todavia, em nossa distópica realidade, temos que um dos mais importantes institutos de direitos difusos, especialmente o da informação, encontra-se completamente aparelhado ideologicamente. Tendo isso em vista, não é surreal notar, por exemplo, tamanha ocultação da verdadeira situação de países como o da Venezuela.

Segundo pesquisas a população venezuelana perde em média 11 kg por ano. Em busca de sobrevivência muitos arriscam a vida cruzando fronteiras a pé como única opção restante. Esse fato não ocorre somente em Estados onde a arcaica utopia comunista ainda impera. A crise humanitária nas fronteiras é algo presente, mas a mídia insta em noticiar aquele presidente pentelho dos Estados Unidos como um maluco que quer construir muros para resolver o problema. Não há sequer uma pessoa que vá a Europa hoje em dia e não note que há algo diferente acontecendo. Lixo, muita gente islã e sensação de insegurança são alguns dos pontos principais a serem mencionados.

Parece que muitos não entenderam bem aquela queda lá em Berlim, e ao invés de exigirem melhorias dos próprios países reclamam com os outros por estarem controlando seus recursos e sua população. Não resta a menor dúvida de que a mídia é sustentada por suas narrativas. A comunidade internacional instou por reconhecer Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela e o regime chavista de Nicólas Maduro parece cair de podre. Contudo, China, Rússia e outros países ainda apoiam essa barbárie, reconhecendo el usurpador como o verdadeiro presidente.

Muitos creem piamente nessa conversinha de soberania nacional, não fazendo ideia de que a calamidade pública em níveis globais enfrentada por aquele país se chama: SOCIALISMO, ou, segundo Guilherme Boulos, candidato à presidência pelo PSOL EM 2018, uma democracia à esquerda.

Como diriam os Eclesiastes, tudo é vaidade. A vontade de potência mencionada por Nietzsche me parece a base para a incessante busca de poder, mesmo que isso signifique corroborar com ideologias opressoras onde o que muda é apenas o pólo ativo da coerção. Não custo a indagar de onde vem a audácia ao se predisporem sob o futuro de milhões de pessoas utilizando meios que tornam o próprio povo hipossuficiente — de recursos e informação. Ao perceber essa clara tentativa de destruição do que os seres mais nobres estão construindo há mais de 2 mil anos nessa terra, faço tal qual o mercador de Veneza e invoco a lei contra esses bárbaros.

Tudo é fugaz nesse mundo. Se eu não tivesse os olhos adoentados dava-me a compor outro Ecclesiastes, à moderna, posto NADA deva haver moderno depois daquele livro. Já dizia ele que nada era novo debaixo do sol, e se o não era então, não o foi e nem será nunca mais. Tudo é assim contraditório e vago também.
Machado de Assis, Memorial de Aires.

No fim, o oprimido se torna o grande opressor que tanto lutou contra e vice-versa. A série Trotsky do Netflix demonstra, ainda que superficialmente, a origem dessa sede de revolução, onde a relativização moral se torna fichinha em prol do desconhecido, restando apenas a vontade de transcender imanentemente. Com Hitler, tínhamos a transcendência através da raça pura alemã, a raça ariana; já com Lula, a acensão se daria através da classe operária. De todo modo, ambos trazem em seu âmago a sede de deixar legado, ou como no caso do segundo, a maligna vontade de se tornar uma “ideia”.

Guinadas tremendas vêm ocorrendo desde o século XX, e mesmo no imo de todo o joio crescido, germes de virtude brotam profundamente em grandes figuras que procuram nos alertar sobre os perigos de uma revolução totalitária. George Orwell, grande escritor indiano, se faz um desses exemplos. Na sua obra Animal farm, traduzida como “A revolução dos bichos”, temos uma fábula atemporal que se encaixa perfeitamente com a história inteira da humanidade. Para além de que os personagens são a fundo uma representação dos líderes revolucionários comunistas, sendo estes propositalmente porcos e seus guardas, cães, onde inclusive animais específicos são tidos como massas de manobra, temos uma ideia bem mais densa do que aparenta ser.

Vislumbramos uma espécie de metáfora que define muito bem os sistemas humanos. Quem está no poder usa da manipulação para assim se manter, jamais abrindo mão dos seus privilégios. Na obra, a revolução dos bichos é desencadeada pelo discurso do líder supremo antes de sua morte, abrindo os olhos de todos acerca da “opressão” e “alienação” sofrida (na teoria, representando Marx). Após isso, a tomada da fazenda foi certeira e algumas regras fundamentais foram estabelecidas, como “duas patas bom, quatro patas ruins” e “não se pode dormir na cama de humano”.

Todavia, com o decorrer do tempo, as regras vão sendo relativizadas — SEMPRE em prol dos lideres e seus privilégios. Isso serve para sustentar a tese de que o lado oprimido involuntariamente vai acabar se tornando o opressor, argumentando o que é feito pelo “bem da revolução”. Ademais, cabe-nos entrar no mérito da seletividade dos discursos, onde uns valem para alguns, mas não pra outros. É claro que um gay pode fazer piada com héteros, ele será aclamado por isso, mas obviamente héteros não podem fazer piadas com gays, pois configura-se homofobia. De alguma maneira temos que a inteligência política que humaniza os animais acaba por animalizar os homens, tendo como comprovação o link abaixo do que em verdade vos digo.

Sem deixar de lançar mão de recomendar a leitura, outra parte crucial da obra se dá com a percepção de que o tempo passou, como sempre passa. Os animais continuavam trabalhando duro e não usufruindo tanto. Muitos não lembravam sequer como era a situação antes da revolução. Um deles, o Velho Benjamin, recordava-se de tudo que acontecera na sua vida, portanto sabia a resposta: as coisas nunca foram nem melhores, nem piores. Temos que sofrimento, decepções e o sentimento de falta são pontos inalteráveis da lei da vida, segundo sua própria concepção.

Nada de novo abaixo do sol. A vida é sofrimento, por isso buscamos a transcendência; já o lado de lá, nada na maré da imanência, sonhando construir um mundo novo, sem Deus; o céu nessa terra, mesmo que com um genocídio ou outro embaixo do tapete. Não importa o tipo de sociedade em que vivamos, sempre haverá opressão e tragedias: é a natureza que dita. Sempre haverá distinções de classes, pois as pessoas são diferentes; algumas terão condições melhores que as outras, ad eternum.

Por isso, não nos cabe mais cair em teses utópicas de socialismo quando a realidade demonstra o contrário: sempre mortes em massa; um verdadeiro genocídio. Na escola, lembro-me que a explicação consubstanciava-se em um sistema promotor de igualdade para todos: uma vida mais simples e fraternal. Na vida real, o fatigamento de vermos sempre o mesmo filme de destruição. Que o povo venezuelano, sempre exemplo de democracia, possa restaurar a tão sonhada liberdade, abrindo os olhos das pessoas para que lutem pelo bem, tendo em vista as consequências ocasionadas pelo mal.

“Basta que nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja somente nosso. Praticamente, da noite para o dia, poderíamos nos tornar ricos e livres.”
 — A Revolução Dos Bichos, resumindo o pensamento totalitário à esquerda.