A geração perdida de Ernest Hemingway

O que fazer com uma geração perdida? O que fazer quando as imagens – e são muitas – que chegam até nós nos trazem más recordações? Ou pior ainda, nos trazem memórias vazias?

Fonte: Ajda Berzin (Unsplash)

O que fazer com uma geração perdida? O que fazer quando as imagens – e são muitas – que chegam até nós nos trazem más recordações? Ou pior ainda, nos trazem memórias vazias?

Encontrei na pilha dos devolvidos o livro “Contos de Hemingway” (Ed. Civilização Brasileira, 1986) e quando vi que logo a primeira estória era “Lá em Michigan” não tive dúvidas. Há algum tempo estava curioso para lê-la e essa era a minha chance. Sai da biblioteca caminhando rápido e cheguei em casa apressado para iniciar a leitura. Comecei. Uma estória seca foi o que encontrei. Ansiava mais palavras, mais ações, mais. Tudo enxuto, compactado, demasiadamente casual.

Peguei-me pensando em quantas horas o escritor não perdera para escolher cada uma daquelas palavras. Pensei no tempo que perdeu riscando frases que sobravam, ideias que ali não deveriam ser colocadas. Passei então a admirar esse e os outros contos presentes no livro. A enxergar a profundidade no cotidiano.

Fiquei pensando então em quantos hoje se disporiam a realizar trabalho tamanho minucioso. Vejo os anúncios de remédio que prometem cura quase instantânea para que não paremos de trabalhar. Às vezes eu mesmo falo que “não estou com tempo para nada” e “que os últimos dias têm sido muito corridos”. Observo as embalagens no supermercado que nunca foram tão bem estampadas. Assusto-me com a quantidade de opções presentes no Netflix e de músicas no Spotify e de desenhos infantis e propagandas de brinquedos na Discovery Kids.

E começo assim uma corrida interna e me pergunto se sou o único a fazê-la. Peço para desligarem a televisão, abaixarem o volume das caixas de som conectadas ao celular, desço a tela do computador e coloco meu celular no modo avião. Fecho todas as janelas e portas e tudo fora fica escuro e calmo. Em minha cabeça passam milhares de imagens e sons e lembranças. Lembranças, sim, porque já não são presente, ainda que minha mente insista em provar o contrário. Em alguns momentos, por mais que eu tente, não consigo afastá-las. Meditar tem sido a cada dia mais difícil. Os problemas, as pendências e os arrependimentos pelo o que deixei de fazer tomam conta de mim como se sempre tivessem estado aqui.

Ontem eu finalmente consegui, enquanto lia os dois últimos contos de Hemingway, eu consegui. E digo com orgulho. Eu consegui esquecer-me das imagens e me permiti sentir. E então viajei para lugares mágicos, mergulhei em emoções que não sentia há algum tempo e que quando senti se foram tão rapidamente que não tive tempo de agarrá-las. Não foram somente boas as emoções, surgiram também medos, angústias, traumas, dores. No entanto, eram tão autênticas que não me cabia espantá-las.

“Mas seu olhar fixo nos pés da cama vagarosamente relaxou-se. E a tensão sobre si próprio relaxou-se também, finalmente, e, no dia seguinte, estava muito fraco e chorava facilmente por causa de pequeninas coisas sem importância alguma.” (Conto ‘Um Dia de Espera’, pg. 153)

Hemingway trouxe para mim, conto após conto, o prazer em deixar-se sentir e agora não consigo parar de nos enxergar como a geração perdida. Perdemos a capacidade de sentir com medo de perdermos tempo. A imposta necessidade de sempre fazer, de mostrar-se, tomou conta do deixar-se viver. Uma vez ou outra ouço uma criança dizer coisas tão profundas sem alterar o tom de voz, a expressão ou a postura. As palavras saem perfeitamente de sua boca, corretamente pronunciadas, porém vazias. Elas foram ensinadas a dizer e não a sentir. E este é o espírito de meu tempo: almas vazias dominadas pela falta de tempo.

Sobre as perguntas que fiz no início do texto, deixo a citação daquele que em secas amargas palavras trouxe a luz da verdade a uma geração em guerra:

“Agora, que sabia como tudo tinha sido, mesmo as lembranças dos primeiros tempos, antes de as coisas terem andado mal, e não eram boas lembranças. Se escrevesse, ficaria livre delas. Livrara-se de muitas coisas escrevendo a seu respeito. Mas ainda era cedo para isso. Havia ainda muita gente. Assim resolveu pensar sobre outra coisa.” (Conto ‘Pais e Filhos’, pg. 174)