A glorificação do sofrimento em relações amorosas

(colagem por Laura Viana)

Uma vez ouvi um amigo dizer que os maiores interesses pessoais dele eram autoconhecimento e aprimoramento e aquilo me soou muito falso. Parecia o tipo de coisa que a gente diz em entrevista de emprego e todo mundo sabe, em silêncio, que é balela. No entanto, hoje, pouco mais de um ano depois, sou uma pessoa que preza muito pelo aprimoramento pessoal. Pra mim, aprimoramento pessoal significa ser o melhor que posso ser e, na prática, isso significa fazer terapia, mas, mais especificamente, trabalhar minhas inseguranças e carências e desenvolver o que eu conseguir de maturidade emocional. Acredito que assim serei mais leve pra mim mesma e companhia mais agradável para quem amo.

Dá trabalho. Não é fácil ter uma crise de ciúme, por exemplo, e em vez de espernear, respirar fundo e racionalizar e ser pragmática em relação àquilo. O segredo está em aceitar que somos seres humanos falhos e que jamais seremos perfeitos, mas que faremos o que estiver ao nosso alcance pra melhorar, pra sermos mais saudáveis. Em outras palavras, crises e surtos, todo mundo tem. O que se faz com essas crises e surtos é que faz alguma diferença na vida da gente.

Dois dias atrás, li o seguinte post no Facebook:

E, se é só hoje, dois dias depois, que estou escrevendo isso, é porque no dia em questão fiquei tão triste, que não conseguia nem articular minha opinião a respeito.

(Primeiro de tudo, quero deixar claro que o que vou colocar aqui não é nada pessoal em relação à pessoa que escreveu o post. Tenho zero intenção de ofender alguém. O que quero aqui é discutir o discurso reproduzido por ela, que é muito comum. Quero debater o que entendo que leva a esse discurso e o que ele é capaz de provocar.)

Comecei falando do amigo e do aprimoramento pessoal porque observo nesse discurso uma dificuldade muito grande — ou desinteresse — em se aprimorar emocionalmente. Não me taquem pedras ainda. Conforme já comentei, todo mundo tem carências, inseguranças, crises e surtos, é normal. E, hoje em dia, principalmente por causa de uma tentativa feminista de conscientização sobre relacionamentos abusivos, fala-se muito sobre relações amorosas leves, saudáveis e sobre se amar e ser autossuficiente pra conseguir ter uma relação positiva também. É muito difícil ser uma pessoa com a autoestima baixa e cheia de inseguranças e ficar lendo por aí que isso está errado e que, enquanto você for assim, não vai conseguir ter um relacionamento bom. É aquela máxima do RuPaul, que serve pra motivar, mas acaba desmotivando muita gente:

“Se você não consegue se amar, como diabos vai amar outra pessoa?”

Ora, se eu só posso amar outra pessoa quando me amar e eu não consigo me amar, ferrou, né?

Esse pensamento pode inspirar duas reações:

  1. desejo de aprimoramento pessoal, sabendo que, mesmo sendo difícil, é possível desenvolver essa maturidade emocional ou
  2. desejo de legitimar nossas imperfeições como naturais e inevitáveis e, enfim, celebrá-las.

Na postagem do print, me parece que o que acontece é exatamente essa celebração das próprias carências, que resultam, então, em um relacionamento pesado, cheio de cobranças, que atravanca a vida da pessoa. Quando achamos que é impossível superar nossas carências e sermos autossuficientes e por isso desistimos até de tentar, parece que quem consegue superar isso só pode ser alguém que não tem sentimentos — daí a psicopatia. É uma linha de raciocínio muito triste.

Imagino que deva ser muito difícil pra uma pessoa que passou anos vivendo uma relação ruim, porque acreditou de verdade que sofrimento fazia parte do negócio, agora ver um monte de gente dizendo que não precisava ter sido assim, não. Faz o que com a sensação de tempo perdido?

Há, novamente, duas reações possíveis:

  1. entender o que viveu como um aprendizado e tentar nunca mais passar por isso ou
  2. se convencer de que aquele esforço todo valeu porque aquilo que é amor de verdade.

Só que é extremamente irresponsável — e por isso escrevo esse texto — sair pregando por aí que “amor só é bom se doer”, que relacionamentos têm um peso inerente e que “atravancam sim, atrapalham, mudam a gente, demandam, tiram nosso foco de outras coisas”. Fazendo referência ao que a Lola Ferreira disse no Facebook, imagina uma menina nova, com um namorado abusivo, lendo que é assim mesmo, que não dá pra ser diferente e que dizer que pode ser diferente é só uma “falácia-modinha”. Imagina uma mulher, depois de vários relacionamentos abusivos, tentando se livrar desse tipo de situação, lendo que ela nunca vai alcançar a autossuficiência, pois ela é impossível. Tem ideia do quão nocivo é propagar esse discurso?

A autossuficiência está longe de ser um mito e os discursos que a defendem se propõem a empoderar pessoas, mulheres em especial. Se não consigo ainda ser autossuficiente ou emocionalmente independente, eu vou batalhar pra ser e essa é a única batalha que vale a pena. Eu não vou lutar contra um discurso que tem a intenção de me ajudar.

Brigas, discussões, desentendimentos e mal-estar são naturais, pois duas pessoas são dois mundos diferentes tentando se abraçar e, muitas vezes, colidindo nessa tentativa. Mas elas não devem ser o tom da relação, nem devem ser celebradas como algo positivo ou glorificadas como prova de amor e sentimento. Atravancar sua vida e te tirar o foco de outras coisas não é ser passional e amar muito, é só não se amar o suficiente pra rejeitar esse tipo de sofrimento desnecessário. E, conforme a ilustração que escolhi pra esse texto, brigas frequentes desgastam uma relação em um nível que o peso acaba se tornando o tom da relação. Não é saudável pra ninguém viver assim.

O que causa distúrbios psicológicos não é tentar ser autossuficiente e querer se relacionar com outra pessoa que também seja. O que causa distúrbios psicológicos é exatamente essa naturalização — e glorificação — do sofrimento em uma relação amorosa. Não é natural, não é requisito, não é bom e não é aceitável que seu namoro seja um peso, que dificulta sua vida. Isso não é qualidade de vida, é só sofrimento mesmo.

E eu sei, por experiência própria, que é difícil acreditar que é possível ter um relacionamento leve quando todos os relacionamentos que vivemos são pesados. A gente pensa que não dá pra ter as partes boas sem ter as partes horríveis. Mas isso não é verdade. E é só quando a gente passa a acreditar que dá pra ser bom, que a gente consegue ser forte o suficiente pra negar o que é ruim, pra não aceitar passar por aquilo nunca mais.

Desejo de coração a qualquer pessoa que esteja lendo isso que sejam leves todas as suas relações e que você nunca se permita acreditar que sofrer é requisito pra amar.


Dicas de leitura relacionadas ao tema:

— Porque às vezes só é difícil porque não gostam da gente como a gente é.

— Texto da Brena O'Dwyer que mostra uma visão mais ampla sobre como relacionamentos podem ser leves e isso não é o mesmo que dizer que eles não têm cobranças nunca.