A grande mentira — Ou: o que os lobos contam para as ovelhas

A morte e o avarento (1494), Hieronymus Bosch (1450–1516)

Há uma infinidade de aplicativos e sites na internet que te ensinam como ficar rico. O caso Bettina é apenas uma réplica de um podre sistema capitalista que não ter fim, justamente por sua capacidade incrível de auto-reprodução e exploração.

Esse texto é uma observação meramente empírica de uma realidade cruel.

Apesar da vilania do capitalismo, há coisas louváveis em sua transformação no decorrer da história e devemos admirar de certa forma como um sistema econômico conseguiu ser imbatível e manter tanta conexão com a raça humana. Para alguns é costume, já para outros é essência, a verdade é que o capitalismo não é o maior vilão da terra: nós somos.

E se o reflexo é nosso, vale retornar ao passado para analisar certas situações. O acúmulo de riquezas em determinado momento da sociedade ocidental já foi considerado pecado. O luxo e a ostentação da igreja católica e da monarquia eram exclusividades, a burguesia mercantilista continuava sua produção e comércio atreladas na moral cristã, mediante um acordo metafísico de eliminar os desejos terrenos em troca do céu.

Esse acordo foi desfeito sem que a igreja católica tomasse ciência, a burguesia acendia pela primeira vez um nível alarmante de acúmulo de capital, a consolidação veio com novos pensamentos religiosos, casamentos entre monarcas, financiamento do Estado e reestruturação do pensamento dominante. Surgia o grau bancário, produzindo a perfeita união das instâncias burguesas de produção, a saber: a rural, industrial e financeira.

A rural vinha da formação do antigo feudalismo, resquícios de escravos que agora tinham a possibilidade de formar com suas terras um comércio mercantilista entre as cidades da região. A força motriz disso fixava na burguesia industrial com suas máquinas. A revolução industrial foi o grande marco de sua criação, o início de um novo estágio do capitalismo. A burguesia financeira tinha papel de mentor, formando os recursos necessários para a evolução da burguesia rural e da burguesia industrial, não produzia absolutamente nada.

Dessa trindade, apenas a burguesia financeira conseguiu superar os desafios tecnológicos e entender a evolução das décadas. Sua competência está no salto de reconhecer o desdobramento da tecnologia das máquinas entre os século XX e XXI. E não trata-se aqui do reconhecimento puramente maquinal, mas sim da função do Estado como organizador da sociedade, além de interpretar muito bem o que o capitalismo tinha de mais incrível: a noção basilar de colocar cada homem num patamar de igualdade.

Parece bobagem, mas imaginem que décadas atrás eu não poderia comer chocolate, pois apenas os nobres tinham essa condição.

Com o surgimento da internet a capacidade de domínio da burguesia financeira foi tão amplo que não havia mais espaços suficientes para suas garras, os estrondosos lucros de semestres em sociedades com problemas em suas outras instâncias burguesas e a dependência da sociedade para com o crédito e o financiamento eram as ferramentas necessárias de dominação, e não podemos esquecer do avanço considerável dos juros dentro do pensamento ocidental.

Com a queda da moral cristã, os juros praticados já não eram mais pecados, mas virtudes. A genialidade no serviço de locação diante de uma possibilidade — Preciso ganhar algo com o que estou dando a você — e todos nós aceitamos isso, como o contrato social que assinamos.

A publicidade conseguiu moldar com a burguesia financeira padrões de vida que não tinha mais como mente o modelo estadunidense de aceitação social através das músicas, séries e filmes. Era necessário micro-mundos, a publicidade então criaria bolhas com a ajuda de comerciais e da internet, e esses micro-mundos só podem ser financiados através de renda, renda trabalhadora que passa por bancos, pela fração da elite burguesa financeira, apelidada por Bresser Pereira (1934 — ) de ‘‘burguesia rentista’’.

O acordo de aceitação dessa instância da existência não foi realizado ou assinado, apenas imposto pela publicidade patrocinada pela burguesia financeira. Esse sistema fechado era ao mesmo tempo global, criando vozes que só poderiam falar para suas bolhas, as redes sociais são o último estágio dessa escalada para a tragédia de nossas almas.

Como dito anteriormente, o modelo estadunidense não era mais a pauta, mas sim a singularidade, um individualismo atrelado a uma confusa guerra de identidade — não confundir com representatividade ou identitarismo.

O plano não era mais : estudar, arrumar um emprego, se casar, ter um filho, um carro, uma casa, conta no banco, um cachorro, folga aos finais de semana e repetir essa rotina todos os anos com renovações simétricas, mantendo claramente todas as relações interpessoais e um casamento saudável. O plano agora era só seu, e você deverá se guiar diante de todas essas possibilidades mantendo-se ainda na estreita linha da dita normalidade.

O plano primário falhou, mas o do modelo individual segue a plenos pulmões com as redes sociais, o último estágio estraga de modo positivo as duas últimas gerações, uma frágil e a outra precoce. A geração vigente está destruída por essas ilusões perdidas, mas segue escrevendo textos no Medium — Como o autor que vós fala.

O resultado prático é a próxima sociedade doente que não tem a menor noção de qual remédio tomar — Na verdade tem, mas não é esse. Enquanto há esse jogo de peões público, há nos bastidores os bispos, cavalos e torres que definem as concepções e modulam elementos básicos da existência, frutos de simbolismos e criações humanas, como a economia.

A ignorância é a grande arma da burguesia financeira diante das outras burguesias e também da sociedade. Através do Estado, atua como mentor absoluto da economia vigente, mas não explica de nenhuma forma os seus processos. A economia é e tem que ser linguagem popular, assim como o Direito, mas finda em termos técnicos e não-práticos, caindo na boca de especialistas que não estão lá tão preocupados com o preço do arroz ou feijão.

Se a política é desinteressante, devemos perceber que a economia é mais ainda. Mas essas duas questões são tão essenciais para nossas vidas que deveriam ser vitais, e não desinteressantes ou ignoradas. A burguesia financeira se aproveita dos desejos de consumo que o capitalismo produz, uma bobagem sem igual entre um complexo cálculo de desejo x possibilidade.

Essa aceitação do grupo, tão primitivo, está hoje atrelado aos bens de consumo e como última instância a exposição nas redes sociais. O capitalismo produziu uma interessante situação: somos pela primeira vez apenas aparência. O que pode ser assustador feito um episódio de Black Mirror.

Mas isso tudo é para dizer apenas uma coisa.

A grande mentira que os lobos contam para as ovelhas é: você nunca será rico trabalhando.

Você vai morrer tentando isso, pois não há tantos meios honestos para isso, poderá alcançar um certo limite, trocando sua saúde mental.

A grande mentira que todos te falaram durante todos esses anos é: acorde cedo, arrume um trabalho, estude, passe em todas as provas, deixe tudo de lado e alcance seu objetivo. Qual objetivo? Qual era seu sonho? Eles te dão a ideia de um pacote que você tem que conseguir.

A grande mentira é que durante toda essa trajetória não há nenhuma fórmula e muitas coisas podem acontecer no meio do caminho: seus pais podem morrer, seus amigos, você!

Mas você continua repetindo a grande mentira, pois você já é engrenagem diante de muitas — Até eu já sou uma das peças.

Mas eu consigo ver as cordas. Ser consciente diante dessa existência absurda que nos faz perecer. No final você pode até ter dinheiro e ser milionário, mas e sua saúde? E seus amores? E suas amizades? Você sempre vai se perguntar se estão ali por você ou pelo que você tem.

A grande mentira é essa: eles tem venderam uma história de vida, você comprou e seguiu a narrativa até o fim. E eles lucram com isso, eles não trabalham, apenas sugam suas energias e porcentagens, vivem de milhares de centavos.

E no final de tudo haverá uma herança que será entregue aos outros que não viveram o que você viveu, um caixão pago ou dívidas. A vida acaba e o que você fez com ela? Viveu ou foi procurar o pote de ouro atrás do arco-íris?