A HORA E A VEZ DO CIDADÃO SEM-CARTEL

Este não é apenas um texto sobre Uber x Táxi

O jornal O GLOBO do sábado passado (18 de junho) trouxe reportagem em que o pré-candidato à Prefeitura do Rio, Pedro Paulo, aparecia em um vídeo prometendo “acabar com o Uber” na cidade. Se você acha que vai ler mais um texto meu elogiando o Uber, não se trata disso, aviso logo. Se trata de analisar as reações descritas na reportagem e pensar no que pode ser o fiel da balança nas próximas eleições.

A Prefeitura do Rio luta contra o Uber e isto não é novidade. A única novidade acontecerá no dia em que for revelada a motivação verdadeira — se é que vai ser. Nem por um decreto eu me convenço de que a briga toda é “legalista”, porque se houvesse essa obsessão toda pelo que é legal, o Rio jamais teria camelódromo vendendo milhares de produtos contrabandeados e até mesmo roubados, em alguns casos. Fora a pirataria desenfreada. Ah, e o argumento “os camelôs precisam trabalhar, e a convulsão social” cai por terra porque no fundo o motorista do Uber também precisa trabalhar.

Pedro Paulo: ao não responder, deu uma resposta que nos traz otimismo

O sociólogo Gláucio Soares, na matéria de O Globo, dá algumas pistas, não só em relação à prefeitura do Rio, mas a políticos em geral: “Estamos falando de um potencial de até 250 mil votos, levando-se em conta as famílias dos taxistas. Ao mirar uma parte do eleitorado, o candidato deixa de discutir outras coisas importantes, como o direito de liberdade de escolha do usuário. O objetivo é agradar a uma categoria poderosa que usa inclusive as autonomias que recebeu do poder público como moeda de troca, comercializando licenças de forma irregular”.

Esta declaração do professor Gláucio nos aponta qual NÃO É o caminho seguido: trabalhar para o bem-estar da população. Afinal, se o grande indicador-chave de desempenho do Uber é a capacidade de desenvolver uma auto-fiscalização — algo que prefeitura nenhuma no mundo poderá fazer com seus táxis concedidos — por que não ter um olhar sobre este funcionamento, em vez de simplesmente desejar abortá-lo? Uma má experiência no Uber é algo que tende a eliminar o mau profissional dos quadros, já que o peso da opinião do usuário é decisivo. A má experiência nos táxis do Rio, relatada todos os dias nas redes sociais, tende a cair no esquecimento e na pasmaceira. Denunciar um mau profissional, reclamar que foi alvo de grosseria ou ameaça, é muito mais custoso pro cidadão do que para o mau profissional. O Uber simplesmente inverte: pressiona o seu profissional a ser cortês porque o contrário é custoso. Afinal, é fácil dar poucas estrelas. O Código de Conduta do Uber é lei.

Taxista faz manifestação simpática contra o Uber no Rio de Janeiro

Mas este não é um texto sobre o Uber. Este é um texto sobre a eleição — e é uma boa notícia: quando a assessoria do candidato, na matéria, não responde nada, é porque há um conflito muito positivo em andamento. Significa que, no universo de quase cinco milhões de eleitores do município, a opinião de quem usa o Uber tem tanta força quanto a opinião daqueles profissionais (sejam eles bons ou maus) no evento em que o candidato faz suas promessas. Sim, se o “fim do Uber” fosse algo com potencial para ser consenso, seguramente a resposta da assessoria deveria ser límpida, clara, cristalina. Segue sugestão:

A declaração do candidato condiz com seu programa de governo, que inclui a proibição do transporte ilegal, seja por aplicativo ou não. Os táxis, este maravilhoso meio de transporte no qual todos são educados, corteses, têm ar-condicionado, veículos com aroma de rosas e motoristas com troco para nota de R$ 50, merecem ser o único meio de transporte individual da cidade, e o candidato vai trabalhar para isto se eleito for.

Mas não foi esta a resposta. A resposta foi “procurado pelo GLOBO, o deputado Pedro Paulo não quis comentar o teor do vídeo”. Claro, não sabemos se foi algo via telefone ou se foi uma resposta via assessoria. Mas este silêncio é um bom sinal. É sinal de que uma promessa intramuros pode ser repensada quando na “ágora”. É uma resposta, por incrível que pareça, que devemos encarar como positiva — pois os políticos que antes trabalhavam com nichos, visitando sindicatos, prometendo benesses, hoje vão ter que pensar globalmente, agir de forma holística. Pedro Paulo terá que escolher entre 250 mil eleitores (segundo O Globo, a quantia do público de interesse, ou seja, taxistas profissionais e seus familiares, considerando taxistas profissionais aqueles consolidados na atividade) ou entre um número ainda não avaliado de usuários do Uber — e os novos usuários a cada manifestação de taxistas a parar a cidade. Por enquanto, a escolha parece fácil — pelos 250 mil taxistas. Afinal, o Uber tem cerca de 1,5 milhão de usuários (e crescendo) mas espalhados pelas capitais (Rio, São Paulo e Belo Horizonte). Ainda não parece formar um bloco homogêneo o suficiente para ser pressão no município — mas a resposta do candidato induz que isto está em andamento.

A médio prazo, os ataques de taxistas a motoristas do Uber (alguns com usuários dentro) podem causar um efeito nefasto para os amarelinhos — fora o fato de que as autoridades de segurança parecem ignorar o absurdo da situação. Os táxis podem ficar cada vez mais caracterizados como cartel de interesses, como estamento no qual o interesse deles se sobrepõe ao do cidadão. O argumento da ilegalidade do Uber, já derrubado pela decisão da douta juíza de Fazenda Pública, tem caminhado junto com ameaças, o que é no mínimo incoerente: um taxista tacar uma pedra num Uber gritando que ele “é ilegal” beira a insanidade.

Taxistas de São Paulo em confraternização pacífica com um Uber. Autoridades de Segurança acham que isto é legal, tranquilo, favorável, tudo numa boa.

À parte a questão Uber x Táxi, que me parece insolúvel, o que se mira é a capacidade do cidadão em influenciar positivamente o serviço que lhe é oferecido por concessão pública. Até aqui, a influência mais forte é do cartel, pois é o cartel que garante os votos. Por isso é praticamente impossível um taxista ser punido POR RECLAMAÇÃO DE USUÁRIO (são punidos por diversos motivos que têm muito mais a ver com desejo de arrecadação do Estado do que outra coisa). Com a adesão maciça ao Uber e o desejo de melhores serviços devidamente expressado nesta adesão, parece que o paradigma começa a mudar.

Em resumo: nós, “torcida desorganizada”, cidadãos sem cartéis, estamos sendo ouvidos. E isto não é pouca coisa.

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