A Importância do Fazer de Conta

Eu fiquei um tanto chocado quando ouvi que Pedro, um dos mais recentes eliminados da cozinha do Masterchef Brasil, declarou que nunca tinha lido um livro de ficção na sua vida. Porém, livros de culinária ele já havia lido muitos. Ele disse que não gostava de ficção. Dados alarmantes de pesquisas anuais revelam que o brasileiro médio lê por volta de dois livros por ano. Em tempos de redes sociais em que as pessoas querem conclamar a razão para si em todas as esferas da vida, se mostra importante haver embasamento teórico para nossos pensamentos. E é aí onde mora a importância da ficção.

Pedro, participante do Masterchef Brasil 2016.

Em uma palestra para a Reading Agency, realizada em 14 de outubro de 2013 no Barbican, em Londres, o escritor de quadrinhos e de ficção fantástica, Neil Gaiman contou um pouco sobre a importância da ficção nas nossas vidas. “A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para outras leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar”. Quem não lê ficção tem pouca ou nenhuma vontade de ser confrontado com novos pensamentos e tem um medo irracional de mudanças, pois não consegue imaginar situações diferentes em sua cabeça

Vejam, a ficção é importante até mesmo para não fazer feio nas redes sociais. Não é deselegante quando você se depara com comentários de pessoas que se acham no topo da colina da razão, mas não sabem soletrar “exceção”? Então Neil Gaiman vem e nos diz: “As palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar ideias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe”.

O escritor inglês Neil Gaiman

A falta de ficção nas vida das pessoas, as tornam frias e calculistas, como o concorrente do Masterchef Brasil, Pedro era acusado. Ele era um dos integrantes mais impopulares durante as averiguações nas provas eliminatórias. “E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia”, nos diz Gaiman. Pedro não tinha empatia com os concorrentes. Foi um dos poucos a não apoiar Gleice e Fernando, por exemplo, quando os dois retornaram da repescagem. “Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado”.

Muitas pessoas não gostam de ser transformadas. Muitas pessoas tem fobia de transformação, medo da mudança, pois ela pode tirar elas da sua zona de conforto. Amantes da ficção estão acostumados com a mudança no final de cada página e é isso que move suas vidas. Muitos seres humanos envelhecem e vão ficando chatos reclamando que “no seu tempo tudo era melhor”, pois perderam a magia da ficção nas suas almas. No tempo em que tudo era melhor, para eles, era o tempo em que a ficção ocupava muito mais espaço nas suas mentes e corações do que a realidade que destrói sonhos e esperanças de um mundo melhor.

Trabalhadoras chinesas.

Não dar bola para a cultura e para a ficção — como vimos quase acontecer no atual governo interino Michel Temer em que o presidente em exercício, numa manobra nefasta visando alienar a sociedade brasileira, tentou erradicar com o Ministério da Cultura — pode ser terrível para um povo e o progresso do mesmo. Neil Gaiman confirma isso com um caso da China comunista, populista e tirânica: “Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu abordei um alto oficial e perguntei a ele ‘A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?’. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam”.

“Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu”.

Que deselegante!

Muitos de nós abandonamos o faz de conta na tenra infância. E somos ensinados que imaginar é coisa de criança. Ou pior: de adulto que não cresceu. E assim se formam adultos embotados para a imaginação que não tem capacidade de escrever uma redação no vestibular porque não foram ensinados ou incentivados a exercitar sua imaginação dessa forma.

Como foi dito no começo do texto, a comunicação escrita está cada vez mais em voga: escrevemos no computador, nas redes sociais, nos nossos blogs, no medium, nos tablets, nos smartphones, no whatsapp. Saber se comunicar é essencial nos dias de hoje. E a ficção tem esse papel de educar a boa escrita de forma prazerosa e satisfatória. Quem não lê bastante, não sabe se comunicar direito. Ou como diria o ditado: “escreveu, não leu, o pau comeu”. As pessoas mais inteligentes que eu conheço leem muito. E escrevem muito. As pessoas mais ignorantes que eu conheço são aquelas que se acham donas da razão, mas nunca buscaram dar aporte para suas “opiniões”, que acabam caindo sempre em insultos.

O físico alemão Albert Einstein.

Neil Gaiman encerra a sua palestra com uma declaração do físico Albert Einstein, o maior símbolo de inteligência do mundo: “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ou seja, inteligente não é quem faz escárnio de alguém que lê quadrinhos ou ficção científica, mas aquele que incentiva essa leitura como forma de compreender esse mundo e imaginar possibilidades de construir uma realidade melhor. Assim como fez Gaiman, os chineses, Einstein, eu e você que está lendo este texto até o final.

Publicado primeiro em TrendR.