A importância de ter orgulho de quem se é

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Eu: tem muito tempo que roda de Uber?
Motorista do Uber: uns 7 meses. Depois que minha filha nasceu, preciso de uma renda adicional.
Eu: Entendi. Prioridade muda né?
Motorista do Uber: Você tem filhos?
Eu: Não tenho. Só tenho uma gata.
Motorista do Uber: E sua namorada veio com você também para São Luís?
Eu: Sim. Na verdade, meu namorado
Motorista do Uber: Ah sim. (…)
Eu: (…)
Motorista do Uber: (…)
+ 10 minutos de corrida depois.
Eu: Fulano, muito obrigado. Boa noite e um bom trabalho.
Motorista do Uber: (…)


Infelizmente não posso contar nos dedos as vezes que preferi silenciar minha verdade, por receio do ambiente, por cautela da posição na empresa e por acreditar que me preservar significava anular quem eu era. Já as vezes que reagi naturalmente sobre minha essência, posso apontar todas com um detalhe curioso para cada uma delas. Essa história aí em cima é só um dos exemplos.

Para quem é LGBTQI+, o fator revelação é tão enraizado que a estrutura do segredo consegue aliados fortes durante o período em que a gente se percebe como é, aceita como é e vive como é. É muito comum ouvir que “minha vida não é da conta de ninguém” em rodas de amigos gays, como justificativa pela opção de ser discreto e fora do meio. Por trás disso, existe, na verdade, um mecanismo de defesa para garantir que a normatividade seja ainda reforçada como normalidade. A situação piora quando heterossexuais endossam essa postura, reconhecendo nesse gay discreto um exemplo de quem consegue misturar sem se destacar.

“Você não parece gay, tem voz grossa, se veste bem e faz mais pela comunidade GLS do que os gays que já conheci”, disse outro motorista de Uber numa corrida de volta para casa. Durante a corrida, um conflito surgiu em mim: como a gente reage a um elogio que na verdade é uma ofensa? Como que a gente começa uma conversa sobre aceitação na sociedade quando apontam suas características mais banais e comuns de qualquer outro homem, só que hetero e cis, como critérios de alta valorização, reconhecimento e respeito para compensar sua orientação? Dessa vez, eu decidi não engatar uma discussão que estava além do meu tempo de corrida e da compreensão do motorista.

O problema do silenciamento é que ele reflete um senso de inferiorização da sua história, uma negatividade do que tem o mesmo valor que qualquer outra pessoa. Por mais que a gente ouça que tudo não passa de uma opção, no fundo, o silenciamento é uma ferramenta coercitiva, normativa e homofóbica que reforça preconceitos e que mantem muita gente amordaçado no armário.

Mais comum do que parece, demonstrações sutis (e nem tão sutis como o silêncio do motorista da história lá de cima) de homofobia permeiam o dia a dia de todo gay que se sente a vontade de ser quem é. Basta olhar (e ouvir) com atenção. Por enquanto, a solução mais eficaz é gerar reflexão onde, quando e com quem a gente puder. E ter orgulho de quem a gente é já um esforço louvável.

Eu demorei a perceber que a minha história de amor era tão importante quanto dos meus amigos heteros. Custei a entender que a rotina da minha vida e os flertes que surgiam no decorrer dela mereciam tanto espaço quanto as horas dedicadas ouvindo as expectativas das minhas amigas na mesa do bar. Precisei de refletir muito para ficar a vontade quando me perguntam à queima roupa sobre meus planos para o final de semana num ambiente empresarial.

Mas agora que eu sei, ninguém cala essa boca.

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